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“O QUE FAZER QUANDO O FOFOQUEIRO É O SEU CHEFE”
*Mylene Pereira Ramos

Não conheci minha Avó.

Curiosamente, uma das primeiras lições que aprendi sobre o hábito da fofoca e da maledicência veio dela. Minha Avó tinha uma amiga que a visitava de tempos em tempos. Em meio a conversa, a amiga tinha por hábito falar mal da vida alheia. Quando iniciava, minha Avó já lhe mostrava a porta da rua: “não aceito fofocas em minha casa”. Passado um tempo, a velha amiga esquecia, e incorrendo no mesmo hábito, ouvia que “a porta da rua era a serventia da casa”.

Passados mais de meio século, o hábito da fofoca e da maledicência pouco mudou. A prática circula por vários ambientes sociais, e em alguns deles, não é possível se livrar do fofoqueiro. 
Imagine uma empresa onde a fofoca vem dos níveis hierárquicos superiores? Qual deveria ser a postura dos subordinados quando a chefia é quem propaga segredos e mentiras?
Em algumas corporações, a prática da fofoca e da maledicência é usada como forma de gestão. O chefe fala mal de um subordinado para o outro, espalha falsidades em diversas seções, acreditando que assim, destrói laços de amizade e solidariedade, e mantêm a equipe fiel apenas a ele. 
Segundo a jornalista Rebecca Knight, em seu artigo “Como trabalhar para um chefe fofoqueiro” (Harvard Business Review, Janeiro 2017), quando é o chefe que fala o que não deveria, a mensagem é de que a empresa permite este tipo de comportamento, e por óbvio, o empregado teme que ele também seja objeto de comentários maldosos. Sempre existirá um temor de que participando ou não das infamias, será prejudicado podendo até perder o emprego. Mas Knight aponta algumas estratégias para evitar a “saia justa”. 
Quando a indiscrição do chefe acontece em meio a um grupo de funcionários, tente mudar de assunto. Ser direto como minha Avó, desaprovando o comportamento pode deixar o chefe constrangido. E se juntando aos comentários, faz com que Você também assuma a autoria, e sofra eventuais consequências negativas.

Quando a maledicência não tiver testemunhas, e se o chefe é aberto a críticas, você pode deixar claro que não se sente bem em ser “agraciado”, por exemplo, com um segredo empresarial (alguns podem custar milhões em lucros ou prejuízos), ou mesmo em saber detalhes sobre o divórcio do colega de trabalho. 
Outra estratégia é mudar o foco, apresentando uma análise positiva sobre a informação recebida. De qualquer forma, manter a neutralidade é essencial. Se seu chefe comete um erro, você não tem que cometê-lo também. 
Conversar com o chefe abertamente deixando claro que você não está satisfeito com a qualidade da comunicação pode ser uma saída, se houver “abertura” para tanto.

Em muitas empresas, existem canais de comunicação onde o empregado pode obter conselhos ou mesmo oferecer uma denúncia contra um superior hierárquico. O chefe do chefe pode não saber o que está acontecendo, e se a empresa for séria, terá interesse em solucionar a questão.

Por fim, estabelecer expressamente uma cultura empresarial que reflita os princípios e valores da corporação, é uma excelente forma de “guiar” os gestores para condutas mais éticas. A exemplo, se na casa de minha Avó houvesse uma placa na entrada com os dizeres “aqui não admito fofocas nem maledicências”, ela poderia ter evitado que muitos comentários indesejáveis fossem iniciados pela Amiga indiscreta.

*Juíza do Trabalho, Mestre em Direito pelas Universidades de Columbia, em Nova Iorque e Stanford, na Califórnia.