Um dia, tudo será memória…

“Um dia, tudo será memória. As pessoas que andam naquela rua, as gentis, as sábias, as más, todas, todas serão memória, o mendigo que passa sem o cão, o ginasta, a mãe, o bobo, o cético, a turista, deus, inclusive, regendo o fim das coisas memoráveis, também será memória. Deus e os pardais. Os grandes esqueletos do museu britânico e todo sofrimento serão memória. Eu, sentado aqui, serei só esses versos que dizem haver um eu sentado aqui.” — Antônio Brasileiro.
Quando finalizou uma das obras pelo qual é mais conhecido, Salvador Dalí perguntou à sua esposa se ela seria capaz de esquecer aquela pintura no futuro, e ela respondeu que seria impossível esquecer. Talvez tenha sido esse o motivo do quadro ter sido batizado como “A Persistência da Memória”.
Persistência vem do latim persistere, que significa estar continuamente e totalmente firme. A persistência é uma qualidade de tudo aquilo que enfrenta as adversidades, as complicações, os desafios. E o tipo mais nobre de persistência, é aquela que se motiva e se destina pela própria existência, ou seja, a luta para continuar existindo.
É espantoso imaginar que Luzia tenha persistido mais de 13 mil anos às forças e adversidades da natureza. Que sua luta pela existência foi bem-sucedida durante todos esses milênios. E é igualmente espantoso imaginar que tudo isso se perdeu, que Luzia agora é apenas memória.
13 mil anos é concebivelmente muito tempo, mas não podemos ignorar também outros números temporais, dados em séculos de História que foram registrados; em anos e anos de dedicação para preservar, organizar e expor as descobertas no Museu; em vidas inteiras que foram dedicadas às pesquisas e construções do conhecimento que lá era guardado.
Perdemos peças importantes e insubstituíveis que ajudavam a explicar e entender melhor o passado. E além do que possamos mensurar, perdemos também conhecimentos, informações, dados, evidências… é uma perda simbólica e literal da nossa História, da nossa Ciência e da nossa Cultura. É como bem apontou a professora Claudia Russo, não há como colocar em um seguro e receber o valor de volta.

Toda a destruição e perda de tantos itens infungíveis é um retrato triste e lamentável do descaso com que o conhecimento é visto no Brasil. Muita gente tentou desvalorizar ou menosprezar a comoção pela tragédia, talvez, essas pessoas não entendam o peso de tudo isso. Mas para aqueles que diariamente nadam contra ao corrente (investindo seu tempo em produção científica, seguindo uma carreira na construção do conhecimento, promovendo Educação e Cultura…), o lamento pela destruição do esforço mútuo de décadas e décadas é inevitável e imensurável.
Eu costumo pensar que minha vida científica começou de fato na infância, assistindo programas de TV, mas especialmente, assistindo “Cosmos”, do Carl Sagan. E logo no primeiro episódio da série, ele falava sobre a destruição da Biblioteca de Alexandria, sobre como todo aquele conhecimento perdido atrasou a evolução científica de forma inimaginável.
Eu era só uma criança e não conseguia entender a dimensão do que Sagan dizia sobre a perda irreparável. Mas agora pude entender, infelizmente na prática, o pesar de tudo isso. Entender que a função do Museu não é registrar o passado, mas sim sobre construir futuro, como já dizia o Cazuza, “vejo o futuro repetir o passado, vejo um museu de grandes novidades”.
E é isso que torna tudo tão drástico e lamentável: saber que as gerações futuras não terão mais os conhecimentos do passado. Saber que tudo virou memória, e que assim, logo se perderá com o tempo. Saber que com o mesmo tempo, logo esqueceremos de nossa própria História, de nossa própria Cultura, de nossa própria origem… por não termos mais nada além de memórias (persistindo ou não).
