crônicas da atividade elétrica anormal II
não se deixe enganar ainda, este não é um post infeliz. apenas um compiladão.
tava dando uma olhada em posts antigos de outro blog e a última vez que escrevi algo sobre natação foi em janeiro de 2016. já dei uma nadadinha descompromissada e altamente vigiada recentemente, mas como esporte mesmo tive que parar em 2016.
se eu tivesse que me descrever para outra pessoa, eu diria que tenho um sensor de humor baseado em trocadilhos ruins e que odeio lembranças. tento não pensar nisso, deixar pra lá com a piada apropriada para o momento, mas lembro bem do ritmo da respiração, do ponto em que se ultrapassa a exaustão e ela não importa mais, do som e das viradas. lembrar é complicado. lembrar te dá algo pra sentir falta. também não posso mais dirigir, mas meu luto nesse caso é mais financeiro do que afetivo. mas nadar, meu amigo, eu nadei a vida toda.
outro dia eu tava lendo um artigo sobre descrições de epilepsia com aura na literatura. é bem isso mesmo: um sinal, uma premonição que não se completa, não deixa nada de si para trás a não ser uma lacuna que deve ser temida, mas sobre a qual você não tem controle.
Pynchon in The Crying of Lot 49 (1966), uses the epileptic aura as a metaphor of stunning accurateness for the premonition of a pivotal event: “She could … recognize signals like that, as the epileptic is said to — an odour, colour, pure piercing grace note announcing his seizure. Afterward it is only this signal, really dross, this secular announcement, and never what is revealed during the attack, that he remembers.” This simile, the novel’s “master metaphor” for “the violent intrusion of the invisible world into the human one, and yet an intrusion leaving nothing of itself behind” (Fowler 1984) indicates an intimate knowledge of epileptic experiences, no matter how the author came by it (Wolf 1994).
enough of that.
em março eu estava no Russo I com planos de fazer Francês também no semestre seguinte. agora é setembro, estou no Russo III e não passei pro Francês. como caralhos isso aconteceu, você se pergunta. o Francês eu simplesmente não passei, shame on me, mas o curso de russo quase deixou de existir porque não havia gente o suficiente pra fechar a turma. A solução foi juntar com o semestre III. A professora está sendo fofa, como sempre, e dando reforço pros gatos pingados que pularam de semestre (tipo eu). Mas agora a aula é toda em russo e eu passo pelo menos os primeiros quinze minutos tentando fazer o cérebro pegar no tranco. Também passo mais uma vez pelo problema básico de me embananar e responder em inglês uma pergunta que foi feita em russo, but hey, o progresso existe e já consigo falar de profissões e cômodos da casa.
“talvez eu ainda esteja passando pelo luto pela pessoa que me encarreguei de construir pra me proteger, mas o tempo dela já passou.” escrevi isso há uns dois anos. o tempo dela já passou, o luto também. falei das lembranças que preferia não ter, mas existem aquelas que também já não me afetam mais.
lembro bem de um momento específico de certo desespero em particular — um desespero bem prático da vida, nível meu deus o que nós vamos fazer agora se isso der errado — e penso. nossa. isso já passou.
é um contraste complicado, agridoce. no nível pessoal, a vida que vai andando pra frente, ainda que devagar (cês já viram o preço de uma cama? de uma geladeira? misericórdia). no macro, o país em (literais) chamas. me formei recentemente. uma professora que gosto muito perguntou se eu queria mesmo seguir na vida acadêmica, fazer pesquisa. sim, feliz ou infelizmente é isso aí mesmo. suspiramos.
eu tenho escrito tanto academicamente nesses últimos anos que na verdade nem tinha sentido falta de escrever, escrever. literatura, if you may call it that way. mas esses dias a vontade voltou, lá das profundezas. foi bonito. acho que tem algo a ver com Rosa, pra variar. é difícil ler e escrever tanto sobre literatura e tradução e não parar pra pensar em como isso também afeta o que você escreve; afinal, tradução também é criação. mas eu deveria escrever mais sobre isso depois, porque merece. enquanto isso, sigo me especializando em Guimarães Rosa e até me arrisquei a traduzir Siken (saiu aqui). Foram alguns dias de bastante vai e vem com a orientadora pra arrumar a versão final e terminar o artigo, mas a experiência de traduzir poesia livre é… awesome.
o resumo da ópera é que eu quero escrever.
acho que isso é um prefácio.
