refração, inspiração: fanfiction e originalidade
no meio de uma aula de mestrado em tradução se inicia uma acalorada discussão sobre fanfic. na verdade, dá pra descrever mais como umas quatro pessoas tentando explicar o que caralhos é fic e como existem livros que surgiram a partir delas enquanto a professora olha de um lado pro outro, como em uma partida de tênis, admiradíssima.
estávamos falando sobre Gertrude Stein e suas (supostas) traduções. supostas em parte porque nunca apareceram, e em parte porque um do exemplos era um poema que, ao ser traduzido, se tornou outra coisa que só mantinha em comum o tema geral e olhe lá. o resumo da ópera é que Stein via a tradução não como um reflexo do texto de partida e, portanto, derivada dele, mas como uma refração.
em tradução técnica falamos em texto original sem muito remorso, em tradução literária it’s a no-no. não existe texto original, justamente porque tudo é uma tradução. o que eu estou escrevendo aqui já é uma tradução do que eu estou pensando; não é à toa que os temas que aparecem na literatura são os mesmos, over and over again, recontados de mil maneiras. tudo veio de algum lugar, passou por outro, bebeu daqui, bebeu dacolá, foi contado em outro canto, se inspirou em outra coisa, bateu e voltou de novo. às vezes dá pra fazer o caminho de volta e perceber, às vezes não.
as considerações de Walter Benjamin sobre a tradução, curiosamente, despertam umas interpretações contraditórias justamente por causa das próprias traduções dos textos dele. mas eu gosto do exemplo da teoria de Benjamin como a transformada de fourier. desculpa, você sai da exatas mas a exatas não sai de você. a transformada de fourier é uma função que decompõe qualquer onda complexa (como a luz, as sonoras etc.) em ondas básicas. se você considerar o texto de partida como a onda complexa, as traduções seriam as subfrequências na qual ele foi decomposto. só que são infinitas as possibilidades, e se todas forem sobrepostas, forma-se a onda inicial novamente. o pulo do gato é que, como eu já falei antes, a própria onda complexa, o texto de partida, já é uma experiência subjetiva. uma tradução.
existe muita discussão sobre até que ponto a tradução é ou não é autoria. em um exemplo mais prático: um filme baseado em um livro é um tipo de tradução. mas até que ponto esse filme é uma criação, por si só, e não apenas um reflexo do livro? ele tem essa liberdade? quando que uma coisa se separa da outra e se torna uma adaptação inspirada na obra?
voltamos pra fanfic.
a discussão sobre autoria também é antiga, muito antiga em fanfic. back in the day sempre se colocava um disclaimer no começo da história pra indicar que o livro/série/filme tal e seus personagens não nos pertenciam, que aquilo era só para diversão etc. era um jeito de (achar que iríamos) nos resguardar da lei. talvez isso ainda seja feito em fandoms que não conheço, mas foi caindo em desuso.
o conceito de originalidade ao qual a gente se apega é recente, recentíssimo. coisa do século XIX. desde então é comum uma posição em que a autoria é definida como originalidade e tradução como derivação, secundária. se considerarmos a adaptação como uma forma de tradução, e a fanfic como uma forma de adaptação de uma obra pré-existente, é fácil ver onde cada coisa se aplica. a discussão sobre autoria no fandom é antiga porque se considera sem valor, secundária, uma obra escrita com base em outra. quando se começa a falar de fic em sala de aula geralmente é pra fazer piada, usando como exemplo de algo mal escrito, mal planejado, sem noção.
mas será que é mesmo? já li fics muito melhores — e bem planejadas — do que muito do que chamamos de “ficção original”. no movimento contrário, já dá pra perceber elementos de fics em livros comerciais. tanto na ficção original quanto nas fanfics existe muita coisa ruim, muita coisa meio mé, e muita coisa boa. a diferença principal, no entanto, está na motivação.
fanfics são escritas, primariamente, por satisfação própria ou de um grupo de pessoas. você assiste ou lê alguma coisa e gosta tanto dela que quer criar algo sobre aquilo. ou acha que algo podia ter sido melhor, vai lá e faz. resumindo, a fanfic é uma criação livre. não apenas no sentido monetário (claro que existem commissions, but that’s not the point), mas porque é um tipo de exercício de escrita livre das exigências de mercado.
existem pessoas escrevendo fanfic a vida inteira. compare a primeira com a mais recente — houve melhora ali. a fanfic é um espaço de exercício livre, mas extremamente direcionado; você começa com dados muito específicos, o da obra em que você está se baseando e seus personagens, e parte daí para mundos completamente diferentes. é possível criar histórias totalmente distantes do ~original e mesmo assim manter aquilo que faz com que os personagens sejam quem eles são.
e ainda não estamos contando com uma coisa que eu acho talvez mais importante do que tudo: a fanfic permite que as pessoas leiam o que elas querem ler. e, muitas vezes, o que elas precisam ler. qual é o maior público leitor e escritor de fanfic? quinze anos de participação ativa em vários fandoms e de pelo menos observação em tantos outros me garantem que somos nós, as boas e velhas minorias. isso não é coincidência. eu estava passando por isso e resolvi escrever sobre. fiquei imaginando o que o personagem x faria se estivesse nessa situação. são comentários comuns nas notas no começo de algumas fics. elas são, também, um instrumento de alívio e de identificação quando não existe mídia que lhe represente e quando quase todos aqueles que escrevem o que se considera original são homens cis brancos.
todo fandom também tem seu próprio conjunto de tropos, de significados e até mesmo vocabulário que acaba se tornando característico, principalmente quando são mais antigos e/ou em constante mudança. não é difícil reconhecer uma fic de Supernatural de 2013 e diferenciar de uma de, sei lá, 2008. Harry Potter existe antes e depois de 2003. depois de uma série (de tv ou de livros) acabar ela também continua se reinventando, à medida que novas pessoas vão consumindo esse material pela primeira vez e o adaptam novamente aos modelos atuais. é um movimento constante.
fanfiction não deixa de ser um literatura marginal, fora do sistema literário, mas dentro de um sistema próprio, com seus subsistemas e suas próprias regulações. como eu disse antes, é um espaço de exercício; independente da qualidade do trabalho, às vezes é onde você quer ficar, às vezes você se exercita tanto ali que vai pro mercado. existe originalidade nisso tudo? criação, autoria? pra mim existe, e muito. porque, pra início de conversa, aquilo que estamos chamando de original já veio de algum lugar.
