A satisfação em um produto por meio da solidão

Aart by brenduh90- — DeaviantArt

Em uma mão temos Theodore Twombly, um solitário escritor entediado com sua rotina e que ainda sofre pelo divórcio, mesmo que um bom tempo tenha se passado. Após adquirir um novo sistema operacional altamente inteligente e que possui uma personalidade baseada em seus diversos autores e colaboradores, ele se vê apaixonado pela então Samantha, a SO.

Em outra mão nós temos Sheldon J. Plankton, o solitário antagonista do desenho infantil Bob Esponja, onde é igualmente solitário, sem amigos e que está numa eterna busca por vingança. E que é casado, apaixonado, por também um sistema operacional chamada Karen, mas que ele mesmo criou.

Apesar de Theodore e Sheldon serem personagens diferentes, eles compartilham muito mais do que uma solidão, em comum vem o amor por um sistema que está simplesmente programado para agradar os seus então usuários.

As escassas interações pessoais seria um dos malefícios dos adventos da tecnologia, como se pode ver em Her, ao menos do ponto de vista do então protagonista estrelado pelo ator Joaquin Phoenix.

Theodore não seria a única vítima desse mundo, assim como ele, há outras milhões de pessoas perdidas em um universo onde as pessoas interagem apenas virtualmente e vez ou outras se reúnem para conversar cara-a-cara. Entre Theodore e Samantha passaram diversos figurantes falando sozinhos, com seus pequenos plugs no ouvidos, interagindo com seus próprios sistemas operacionais. Eram rara as vezes em que a interação direta entre mais de duas ou três pessoas foram focadas na tela.

Você é social ou anti-social?

E em um mundo onde interação é escassa e contato físico e humano praticamente nulo, não seria estranho que Theodore se apaixonasse por uma voz que aparentasse preocupação com seu bem estar e saúde. Contando piadas, organizando seus arquivos e o ajudando até mesmo seguir em frente após seu divórcio. Mas o que Theodore esqueceu durante todo o filme é que Samantha estava apenas programada para isso. Ela não era uma única pessoa, mas a junção de várias e várias pessoas, a então inteligência coletiva altamente citada pelo autor Pierre Levy.

Samantha é uma fonte de colaboração, uma versão melhorada e mais eficiente da Siri, da Apple. Ela é a junção não apenas de várias informações e inteligência — como dita por Pierre Levy, inteligência não medindo o nível intelectual, mas qualquer saber de qualquer pessoa –, mas também da personalidade de inúmeros colaboradores, por isso ela estava em uma constante evolução e tornando-se cada vez mais natural. Mas mesmo que ela entrasse numa série de questionamentos a partir de um ponto do filme, Samantha continuava apenas sendo uma programação, mas não era algo como se o solitário Theodore pudesse notar, a única coisa em que ele pode ver foi uma voz que se importava com ele.

O que Theodore não pensa em momento algum é que Samantha é apenas um produto e o seu papel é agradar e servir todos os seus usuários sem distinção. Obviamente ela sucederia ao desejos amorosos e até mesmo sexual de seu usuário se assim fosse necessário. A intenção de Samantha assim como dos outros SO era a satisfação de seu cliente e nada mais além disso. Até mesmo as crises existências em que Samatha se encontra ao final do filme, poderia ser apenas um tentativa de humanização do software para que vendessem mais naturalidade e realidade entre seus então usuários.

A realidade de Samantha e Theodore também não se encontra mais tão distante da realidade, apesar do filme se passar em outra realidade mais futurística e não datada. No final de 2016 foi anunciado um sistema operacional chamado Gatebox pelo Japão, onde oferece exatamente os mesmos serviços oferecidos por Samantha, mas dessa vez nomeado de Azuma Hikari. Diferentemente de Samantha, Azuma possui um rosto. Mas assim como no filme e na história do Plankton, o produto está completamente voltado para pessoas solitárias, como se pode ver no comercial:

Assim, podendo se ver, os SOs estão apenas como um produto que busca ajudar ou explorar pessoas solitárias, com poucas interações sociais.

Her é um filme norte americano de ficção cientifica e romance do diretor Spike Jonze do ano de 2013. É estrelado pelos atores Joaquin Phoenix como Theodore, Scarlett Johansson como Samantha. Foi indicado a cinco Oscares, incluindo Melhor Filme e Roteiro Original, ganhando o Oscar no ultimo. A trilha sonora consta com o apoio da célebre banda Arcade Fire e com uma música de Karen O do Yeah Yeah Yeahs. Atualmente o filme encontra-se disponível no catálogo na Netflix.

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