Não é por mim.

Maria nasceu na rua debaixo de casa, cresceu numa casa com quintal e todo dia arroz, feijão, mistura e salada.

Aos domingos, frango assado e macarronada. Os tios traziam pote de sorvete kibom 2L e todo mundo compartilhava.

Bonita a rima, de mais um dos muitos retratos do que é a (em tese) classe média nesse país.

Não vou entrar no mérito de discutir as classes ou onde começa a fartura de um e a necessidade do outro.

Maria tinha dois irmãos que a buscavam no ponto de ônibus a noite, sabe como é bairro periférico. Uma noite, o celular não tinha bateria e nenhum irmão estava lá no horário combinado… Destino, momento, não sei nomear, mas naquele dia dois outros homens esperavam Maria quando ela desceu do ônibus. Naquela noite Maria morreu por dentro. Maria foi estuprada por dois anônimos, que a largaram desacordada na esquina da rua de casa. Maria foi engravidada naquela noite e alguns meses depois se suicidou, pois não poderia abortar a gestação fruto de um crime e não tinha amparo nenhum. Chocante? Acontece todos os dias.

No cruzamento entre duas grandes avenidas aqui no bairro tem um assentamento de gente. Uma amostra da “cracolandia” da zona sul. Foi aquele prefeito, o trabalhador… Que os removeu de uma outra região mais central e aqui vieram parar. Semana após semana nós vemos as mesmas pessoas definhando, cada dia mais magras e mais “vidradas”. Eles limpam vidro do carro, fazem malabarismo e vendem (qualquer produto possível) no farol. O valor? “Qualquer quantia ajuda, moça!”.

Tinha o João Vitor, que minha mãe conheceu e criou uma certa relação… Viciado em Crack, juntava qualquer moeda pra trocar por droga.

“ c tem fome, João Vitor?”, “Ô tia, fome a gente sempre tem”.

Chegou o Mc Dia Feliz, levamos um Big Mac com batata pro João Vitor… Outra fome era maior e ele trocou o lanche fresco por droga.

Longe de mim julgar a escolha, a vida, a situação do João Vitor.

A prima da conhecida não conseguia emprego de jeito nenhum, oferecia os serviços de doméstica, copeira, vendedora, passadeira, etc. Uma recusa marcou mais do que outras “preto não tem que atender em frente de loja, arranja um buraco pra se enfiar”.

Um casal de amigos veio no aniversário da minha filha, logo de cara ouviram “e aí seus viadinhos do caralho, nada de pegação de mão aqui não. Deus fez o homem e a mulher e isso que vocês fazem é depravação”. Sabe aquela do “a gente não escolhe família?” pois é.

Dou uma pausa nos exemplos suaves pra falar da militante que foi torturada na ditadura, e da negra militante que foi assassinada meses atrás. Dos gays assassinados todos os dias, da quantidade de mulheres que são obrigadas a gestar crianças geradas em situações de violência doméstica, pedofilia e estupro, do medo que eu e todas as mulheres que eu conheço temos de sair na rua a noite, dos inúmeros casos de mulheres que foram desacreditadas na delegacia. ao tentar prestar uma queixa de assédio, violência, estupro…

Comecei argumentando, tentando entender, chamando pra conversar.

Não foi uma vez só, foram duas, três, quatro…cinco…dez, perdi a conta!

Ai você mostra exemplos, evidências, questionam as fontes e você melhora as fontes.

Tenta explicar que o ódio a um partido não significa ódio as minorias e nem a ninguém.

Explica uma, duas… N vezes e percebe que o problema não é o partido, é a moral, a falta de empatia.

Essa mudança tão amplamente defendida é retrocesso.

O quanto custa entender que… Não é por mim.

Branca, privilegiada, MULHER, (pode colocar todas as características que quiser aqui). Eu não sou minoria.

É pelas Marias, pelos João Vitor, pela liberdade de expressão, sentimento e vida dos LGBTQ+, pelos negros (que não são minoria no país, mas o são nas universidades, nas grandes empresas…), é pelas crianças que se alimentam 2x por dia na escola (!), pois a família não tem recurso pra prover outra refeição.

É por cada pessoa que pôde ter acesso a um ensino superior de qualidade, que teve acesso a Universidades que seriam sonho também para mim e pelos que eu desejo que ainda tenham.

Não é por mim, nunca foi.

É pelo outro(a), pelo próximo, pelos que aqui estão e ainda não enxergam isso.

Não é por mim que sou resistência.