Realidade x lenda: um olhar sob Iranduba e suas conexões culturais

Naataguiar
Nov 5 · 10 min read
Arte: Fernanda Beatriz Fotografias: Anne Aguiar

Oito da manhã de um domingo, Manaus, Amazonas. Era um dia misto, meio ensolarado, meio nublado. O mormaço da cidade ainda não tinha adentrado às casas e os preparos para travessia da ponte Rio Negro seguiam perfeitamente bem em um dia preguiçoso. As ruas estavam calmas como o sinistro tom de domingo, pálido e devidamente característico desse dia, a carona estava por vir, o destino seria Iranduba, o novo bairro-munícipio de Manaus-AM.

Embarquei e percebi o quão a cidade manauara pode se tornar um descanso dos dias corridos da semana, e fazer essa viagem no domingo foi a perfeita escolha para o mistério de possibilidades que se pode encontrar em um dia como esse. Até porque o que se espera de domingo é nada a se esperar, a paciência e solitude dele permitem o trânsito, geralmente, impossível de se tolerar seja tolerável, as ruas ficam mais descansadas, as pessoas com a virtude que as não persegue no dia-a-dia se valoriza: a tolerância. E, assim, seguimos a viajar, eu e os envolvidos no alvoroço da mudança de planos.

Ao chegar na metade do caminho, o som do carro tocava rock, algo do Queen e o caminho seguia silencioso, nem as árvores ousavam soltar um pio, e no decorrer do percurso, notei que alguns habitantes esperavam na beira da estrada por algo, ou alguém, sonolentos como uma manhã de domingo. Isso me fez pensar se ao deparar com os ribeirinhos, seria o mesmo estado de espírito a se encontrar.

Assim que demos o ar da graça no centro de Iranduba, o fluxo de pensamentos, vozes, barulhos ficou mais alto e a música foi perdendo o espaço e o tempo, as pessoas estavam agitadas para comprar suas pescadas na feira. Era 9h15 e comparado à estrada, o lugar mudou de cenário, tornou-se mais humano, a muvuca era grande e não lembrava algo como o interior, era um caos organizado porque as pessoas tinham seus afazeres e horários, preparo do almoço, e coisas desse tipo. Isso fez com que pensasse nessa parte como um simples bairro de Manaus, mais uma parte energética.

Após esse momento, o carro seguia o destino da “orla” do município, a principal parada era o Rio Solimões, rio que banha ao redor do lar de ribeirinhos e famílias que precisam dele para viver. O motivo da viagem era tão desconhecido quanto às margens do rio, afinal de contas viajar com uma razão nas mãos não torna o desfecho principal.

Quando o carro parou na estrada de terra e lama, perto do barranco que desce ao rio, percebi alguns moradores observando a movimentação como se estivesse escrito em nossas testas, somos turistas. E ao parar para pensar, realmente, podemos nos definir como tais, o ambiente apesar de próximo de Manaus, era mais desconhecido que conhecido, a ideia que tenho do interior não é a totalidade dele. E assim que pisei na lama com as terras empoeiradas dignas de um sol mais vibrante, notei o paradoxo criado entre bairro e município.

Todo o percurso ao encontro na beira do rio foi conduzido em contraste com a lembrança da feira barulhenta de antes, o silêncio do vento e das crianças tomando banho de rio era um mero vislumbre de paz que o ambiente emanava. Não se pode esquecer que também devido ao domingo, a personalidade do interior se molda a ele. Havia poucos ribeirinhos ali e os poucos trabalhavam, iam de um lado para o outro, pegavam suas canoas, pequenos barquinhos de rabetas que atravessam o rio para o outro lado desconhecido. O ar estava mais abafado e o sol ainda baixo servia de guia para todo o trajeto até o píer de um pequeno barco flutuante. Com rio baixo, e a areia fofa como água, os buracos na terra como cobras se deslizavam no chão.

Canoa na areia de Iranduba, palafitas ao fundo. Foto: Anne Aguiar

As havaianas afundavam na areia como marcas de registro histórico, todo o caminho torcido até a ponte que levava ao barco foi quente e de saudade como se pisar naquelas terras trouxesse um eu ancestral. E mesmo o medo de cair, torcer o pé foi desligado ao ver a beleza do lugar e a curiosidade sobre os poucos visitantes e ribeirinhos que estavam por lá.

Ainda tendo a visão do rio de longe, lembrei de um passado que cresci, ainda que no meio urbano, o de lendas amazônicas e resgatei a primeira motivação de toda a condução ao Iranduba. Imaginei o dia como noite, o folclore sobre o boto, todo o mito através dele e se imergindo para o Curupira, defensor das florestas e até chegar na principal curiosidade, a cobra grande, popularmente conhecida como anaconda. Todo esse pensamento se desfez, por um momento, ao chegarmos mais perto do rio.

Com devido tempo, subimos o flutuante e já dei de cara com um símbolo nacional: o Flamengo.

— Oia só, temos flamenguistas aqui, estão preparando para o jogo de mais tarde? — perguntei com uma curiosidade de torcedora como de jornalista. Manaus não tem um futebol forte e ver pessoas de um interior tão longe de uma vivência que até mesmo manauaras não tem é impressionante. Os dois sorriram com orgulho e não demoraram para responder um com certeza.

— Arrégua, mais é claro! É Mengão, tem que se preparar desde cedo! — as afirmações se misturaram, pois responderam ao mesmo tempo. Não hesitei e sorri de volta.

— É verdade! É um ritual que começa desde o clarear do dia de jogo — como estávamos de passagens e dois sentados, sorri e segui em frente para o mais perto da parte principal do barco, ao chegar ali pude perceber que tinha pessoas pescando em completa plenitude e concentração aos banzeiros daquele momento.

Permiti, por uns minutos, apenas observar essa prática que somente vi de perto quando menina em um dos sítios de meu tio. Todo aquele lugar tinha história e era incrível pensar que por mais simples os atos naturais são, o ambiente não tinha nada de normal. É uma atmosfera como uma obra de arte surrealista, um sonho que traz referências de um passado que não vivemos muito, que fica na nossa memória pela experiência de ouvir nossos avós ou parentes mais velhos comentando, é uma saudade simbólico. Um medo mórbido de querer entrar nas águas, mesmo sem saber nadar, ver se tem como saber o que guarda na claridade do rio mais frio e barroso do encontro das águas.

Quando o devaneio passou, aproximei de um ribeirinho que estava se ocupando com suas tarefas. Precisei perguntar do principal motivo que me levou até ali, “os mitos são verdadeiros ainda em pequena escala?”, as questões eram várias. Mas sabia que não podia tomar tanto tempo de um trabalhador como tomaria de um empresário.

— Oi, sempre viveu disso, senhor…? — perguntei um pouco tímida — Se tiver com pressa, não precisa parar aqui!

Ele hesitou ao mesmo tempo que a minha timidez veio à tona. Sabia que podia ser intrometida por conta de todo o trabalho. E, enfim, ele respondeu:

— Me chamo José, sempre vivi sim, viu! — sorriu meio tímido — Tou com pressa, mas tu quer saber algo?

— Sim, senhor José! Queria saber o que acha desse rio? — respondi logo — se tem surpresas no rio ou apenas os pirarucus que o senhor pesca? — olhar dele foi de confusão ao entendimento.

— Sobre cobra e outros bichos? — eu assenti e permiti que continuasse a prosa — As cobras grandes aparecem mais no Negro, mas quando tem cheia dos rios, muita cobra vem junto e entra nas casas, é uma coisa de outros vizinhos também — afirmou seu José ao lembrar que os outros municípios vivem com essa noção também.

— Então, o senhor tem medo desde sempre? — questionei olhando atentamente para sua expressão facial, ele deu um riso engraçado e respondeu como se fosse a coisa mais simples do mundo.

— Medo tenho, né?! Mas cresci com isso, desde curumim ouvindo os cuidados pra olhar o chão, os troncos na água. Aqui a gente convive com os bichos desses como algo normal, somo ensinado a como evitar ou se livrar delas. Faz parte da vida, menina!

— Pode ser dizer então que a lenda da cobra grande é mais real que se espera? — perguntei nervosa e curiosa para a resposta.

— Mais ou menos, cobra pequena ou grande é perigo, pode matar nossas crias de galinha e pode matar nós. — respondeu, rindo. — Preciso ir, menina! — e seguiu com seu balde cheio de iscas e outras coisas para beira do rio, perto das canoas de rabetas.

Após essa pequena conversa, percebi que, por mais fantasiosa e místico as situações que nos contam podem ser, a população ribeirinha lida com os dois, a realidade e a imaginação. Nem sempre vai ser como é passado, mas alguma hora, uma parte da lenda pode fazer sentido para quem vive com a realidade de morar em locais onde nascem as próprias.

Ribeirinhos atravessando ponte improvisada. Foto: Anne Aguiar

Tinha visto outros ribeirinhos para conversar, só que devido ao tempo curto que eles têm, esses decidiram não parar. Depois de mais algumas observações da área, e pensamentos do tipo como seria ali a noite, o medo mais aflorado e mais vazio, se os animais sobem mais determinadas horas.

Essa divagação nos leva a um tronco que lembra a definição de Anaconda, bem mais acima no barranco, liso e claro, estendido por ondulações como a própria representação da cobra grande encontrada apenas em formato de pele. A partir desse encontro, o sol ficava mais quente a medida que chegava 12h e decidimos voltar para o centro.

No caminho de volta, decidimos parar na prefeitura do município, onde tinha algumas pessoas na praça a frente. Observei por uns segundos se tentaria fazer contato com alguém para ver qual seria o ponto de vista sobre questões como a lenda da cobra grande e a relação com a cidade. Depois de refletir, achei um casal e cheguei com eles para conversar. Papo vai e vem, decidi perguntar o que mais queria saber.

— Vocês conhecem a lenda da cobra grande, né? — esperei a reação deles e qual ia responder de primeira. Então, a mulher, chamada Simone começou a responder:

— Bom, cresci no interior, o Humaitá. E sempre ouvi essa história dos meus pais, o rio fica de frente pra cidade e a gente ia mergulhar muito lá, mas quando ele subia, muita cobra vinha junto, então nessa época sempre parávamos de nadar. — respondeu Simone — eu já estava me preparando para fazer outra pergunta quando o marido dela, Ricardo, responde.

— Eu sou do Pará, de Alenquer e lá também temos a mesma noção de ficar longe de igarapés e dos rios em tempo de subida de rio, para evitar todo tipo de bicho, mas sim o principal era pra evitar cobra. — o olhar dele era de nostalgia ao lembrar dessa parte da infância.

— Isso é interessante, tem algum caso que passaram em encontrar cobras durante a infância de vocês? — perguntei, curiosa para saber mais sobre o imaginário deles.

— Eu passei por um caso, quando tinha 11 anos, o rio tava cheio e apareceu uma cobra, não lembro a espécie, só que era marrom, e a gente achou a cobra enrolada embaixo da cama de minha mãe! Lembro que congelei e desde daí, não consigo pensar em cobra. Os casos que vejo na internet de cobra subindo pelo vaso sanitário me dá mais medo que qualquer outra coisa de animal. — respondeu Simone, com uma expressão de nojo e pavor de imaginar e falar desses momentos.

— Sucuri não lembro de ver pequeno não, mas as cobrinhas menores já apareçam muito lá pelo quintal de casa em Alenquer. Bate mais medo nas crianças mesmo! — disse Ricardo.

Conversei mais um pouco com eles sobre a região, e decidiram ir embora. Estavam somente para passear, eles têm amigos por Iranduba. A partir disso, comecei a refletir sobre como a imaginação das pessoas ao construir lendas possui efeito na realidade de cada um. O medo do desconhecido é uma reação real baseado em pequenas percepções que temos através do outro, é com isso que se cria os reflexos quando se vive em condições como a dos ribeirinhos ou quando a pessoa cresce no interior.

Ao finalizar as explorações, o céu estava carregado de chuva e decidimos voltar para Manaus antes que a estrada ficasse mais de difícil acesso. No caminho de volta, fiquei pensando que o imaginário é mais importante do que se espera, apesar de mesclar com a realidade, ele consegue ter bagagem cultura que ajude se firmar em decisões ou ocorrências cotidianas. Lidar com uma cobra não é uma coisa que conseguiria fazer, apesar de ter noção da lenda da cobra grande, o mínimo medo que cresceu comigo foi através de filmes que fizeram parte da minha infância como Harry Potter e Câmara Secreta, uma parte do filme tem uma cobra gigantesca, o meu imaginário deu o seu ponta pé inicial ali, com 6 anos de idade. É diferente se for comparar com quem cresce no interior, ainda tendo que conviver com a realidade próxima: cobra grande, Anaconda ou não, as cobras são uma parte do espaço real.

Então, visitar um município como Iranduba, fundado em 10 de fevereiro de 1981, somente 38 anos, tem uma população de aproximadamente 48 mil habitantes, segundo dados do IBGE, do ano de 2019 e conseguir extrair algumas histórias que possuem relação com realidade, ficção, folclore da região Norte é perceber que a urbanização dos lugares são adaptadas de acordo com a cultura de cada povo. Fiquei pensando isso em todo caminho de volta para casa, uma fatia do bolo pode servir como um grande prato da casa, pois nele ainda que como só metade ou uma parte da história, contém raízes que são impossíveis de deixarem de lado.

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