Crítica do filme: Que horas ela volta?

Ana Clara Carvalho
Jul 28, 2017 · 8 min read

Reportagem produzida em outubro de 2016 para a disciplina Cinema

O filme “Que horas ela volta?”, lançado em 27 de agosto de 2015 com a direção e roteiro de Anna Muylaert conta a história de Val, uma pernambucana, interpretada por Regina Casé, que se mudou para São Paulo com intenção de conseguir uma vida melhor para sua filha Jéssica, interpretada por Camila Márdila. Ela deixou a menina no interior e virou babá da criança de um casal de classe alta. A empregada/babá mora em um quarto pequeno da casa. Treze anos depois, Jéssica liga pedindo ajuda para ir pra São Paulo prestar o vestibular. Val recebe a filha na casa dos patrões, porém quando chega quebra toda a regra que a mãe passa, assim cria uma situação de conflito.

Optei por falar desse filme por diversos motivos: aprecio muito os filmes brasileiros e acredito que eles não ganham a visibilidade que merecem; outra coisa que não recebe uma visibilidade justa são as cineastas mulheres e isso também me influenciou na escolha, mostrar que as mulheres estão aqui e estão com tudo; assisti uma palestra com a Ligia Lana no seminário “Polarizações” em novembro de 2015 em que ela falou sobre seu artigo que trata do filme; assisti a palestra da Anna Muylaert na PUC Minas e entrevistei ela para o jornal Marco. Enfim, tudo me levou a falar desse filme que além de apreciar, li e escutei muito sobre. Senti a necessidade de colocar no papel meus conhecimentos e opinião que fui formando ao longo do tempo.

O nome do filme é formulado por uma pergunta: Que horas ela volta? Pode ser considerado como o horário da mãe voltar para a casa, retratando as relações de mães e filhos, tanto o de classe baixa que é deixado para a mãe tentar uma vida melhor, quanto o de classe alta que oferece uma vida melhor, paga babá, mas não participam ativamente da criação.

Há as duas ausências maternas: da patroa e empregada para com seus filhos. Isso é muito presente na cena em que, quando Val conversa no telefone com a filha, Fabinho está na piscina e pergunta onde está sua mãe. Val responde que ela foi trabalhar, então ele indaga: “que horas ela volta?”. Porém, ela não sabe qual resposta dizer, nem para ele, nem para sua filha. Sem saber quando a mãe voltaria, Jéssica desabafa: “Você não sabe como eu sofri. Me dava um monte de presente e depois me deixava lá. Que horas a mainha volta? Que horas ela volta? Puta que pariu, Val, dez anos não voltaste por quê?”. Assim, os dois nutrem um ressentimento pelas mães.

Cena do filme

Há uma cena em que Val compra um presente para a patroa: um conjunto de canecas; e depois a patroa compra um colchão para Val. É possível perceber que a troca de presentes entre funcionário e patrão é sempre um momento desconfortável. Quando é a patroa recebe ela finge gostar para não desagradar Val dizendo que iria usar num momento especial, mas quando esse momento chega e Val aparece com a as xícaras, a patroa pede para ele trocar imediatamente, chateando a empregada. Quando o presente vem da patroa para ela, no caso um colchão, o desconforto é pelo fato de saber que não poderá retribuir da mesma forma. Na cena final Val mostra para Jéssica que roubou da casa da patroa o conjunto que ela mesma deu. É uma forma de libertação para Val, não se importa mais se a patroa não gostou e percebe que o que importa é a sua felicidade.

A cineasta Anna Muylaert afirmou, em entrevista, que seu filme foi feito para quebrar estereótipos e fazer com que as pessoas debatam o tema. Sua intenção foi bem atendida, Jéssica chega ao filme quebrando as regras. Ela mostra que patrão não tem que tratar seus funcionários com indiferença. Na cena em que senta na mesa, para tomar café da manhã com os donos da casa mostra que é humana como qualquer outra pessoa e não precisa tomar café na cozinha.

Sua mãe que já é mais velha e tem certa resistência não aceita esse comportamento, mas ao longo do filme ela percebe que essa “cultura” não é algo que deve ser seguido: “Não posso sentar aqui, então, onde vou comer?” é o que ela responde quando é advertida por sua mãe. Val afirma que Jéssica se comporta “como o presidente da República”, de maneira muito arrogante. A filha discorda. “Eu não acho que sou superior, eu só não acho que sou inferior”.

O fato de Jéssica querer prestar o vestibular para o curso de arquitetura na USP mostra um preconceito existente que: a filha da empregada não é considerada capaz de passar em um vestibular tão concorrido. O comentário da patroa que o “país está mudando, mesmo”, demonstra como o Brasil ainda tem enraizado uma cultura de que filha de empregada vai ser empregada também. Mais uma vez, Jéssica quebra essa ideia imposta pela sociedade, quando no final consegue ser aprovada e o filho dos patrões não.

A quebra de estereótipo tem grande importância, principalmente, para sair do estilo de vilão e mocinha. Retratar a realidade de forma com que as pessoas consigam entender o problema existente. Segundo Anna Muylaert esse “cinema novo” ajuda a dar um pequeno passo na conscientização em relação às pequenas violências do cotidiano da nossa sociedade. Ela explica que o filme tem história inédita, de penetração em camadas que normalmente não vão ao cinema. Assim, ele trouxe um debate e mexeu com a estrutura das pessoas. “Nunca mais vai se olhar para uma empregada doméstica da mesma maneira, porque o filme mostrou o lado dela, coisa que os filmes em geral não fazem”, afirma.

Cena do filme

Na cena em que Jéssica entra na piscina com o filho da patroa, Val fica aborrecida, pois acha errado a garota fazer isso. Depois de um tempo, quando recebe a noticia que Jéssica passou na primeira etapa do vestibular, em uma das cenas mais bonitas do filme, Val vai sozinha até o quintal e entra na piscina de noite. Ali ela assina seu termo de liberdade e felicidade, percebe que não tem que se submeter a todas as ordens que recebe, então liga para a filha dando boa noite e dizendo que estava orgulhosa “adivinha onde é que eu tô?”, jogando água pra cima para escutar o barulho, continua: “tô dentro da piscina, eu tô muito feliz, visse?”, e despede dizendo o quanto à ama.

Este é um momento crucial no filme, é onde são quebrados os paradigmas da sociedade. É mostrado que é possível mudar um pensamento que está preso há anos na cabeça das pessoas. Val não concordava com nada que a filha fazia, mas quando vê que ela foi capaz de passar no vestibular, encara a vida com outros olhos e mostra que é possível acreditar e fazer o que estiver com vontade. Viver uma vida que deseja e não o que é imposto culturalmente pela sociedade.

Cena do filme

Ligia Lana doutora em Comunicação Social, publicou um artigo na Revista Online de Comunicação, Linguagem e Mídias, denominado: “Da porta da cozinha pra lá”: gênero e mudança social no filme Que horas ela volta? Ela explica que é esse o limite imposto pela patroa de Val, para a presença de Jéssica em sua casa.

A jovem, além de quebrar as regras impostas, questiona a forma com que a mãe é tratada. “Como você aguenta ser tratada como uma cidadã de segunda classe? Isto aqui é pior que a Índia!” afirma na noite em que dorme no colchão no chão do quarto dos fundos.

Explicado pela pesquisadora, a chegada da jovem problematiza as barreiras entre as classes sociais, sobretudo, questões emocionais e afetivas. O espaço doméstico, cenário onde o filme se desenrola, polariza discursos, comportamentos e visões de mundo ligadas à subjetividade e à vida feminina, como a maternidade e o cuidado.

Ligia Lana, também, acredita que o termo empoderamento popularizou-se nos últimos dez anos e indica a busca pela autonomia, a possibilidade de os indivíduos comuns serem capazes de planejar os rumos de suas vidas. O sujeito “empoderado” é o sujeito moderno; ele age por si só, expressa seus desejos e busca realizar seus projetos.

Anna Muylaert explica que quando explodiu o debate do feminismo decorrente do filme, ela se surpreendeu porque isso não estava em primeiro plano, mas estava no nascimento. A Jéssica não é a personagem principal, porém seu papel ficou marcado por representar a mulher de verdade. Ela não é o estereótipo de novela, que procura um marido rico para mudar de vida, ela mostra como as mulheres realmente se comportam: lutando por sua independência e empoderamento. “A criação da Jéssica foi algo que me modificou: a minha rebeldia veio à tona, eu venci certo nível de construção, dei um passo contra o machismo que há em mim, que eu chamo de timidez”, comenta a cineasta.

Na maioria dos dramas os finais são trágicos, porém nesse é retratado a vida real. Não é o final feliz dos contos de fadas, mas sim uma alegria que muitos brasileiros desejam: uma casa; filha passando no vestibular; e parar de aceitar ordem dos outros.

Quando Val pediu demissão, deixou claro que precisava cuidar de sua filha. Assim começa o final, que Muylaert chama de esperançoso. A empregada consegue largar um emprego, que a deixava presa, para procurar algo que ela goste, “vou procurar um curso de massagem, Fabinho não diz que sou a melhor massagista do mundo”, responde quando Jéssica indaga sobre o que ela faria. Assim, com o sorriso estampado no rosto elas começam, enfim, a ter uma convivência de mãe e filha.

Cena do filme

Val descobre que tem um neto que Jéssica deixou no interior assim como ela. Então, quando finalmente estão juntas em casa ela fala emocionada para a filha: “vá buscar Jorge, traga meu neto, eu pago a passagem de avião, vá buscar seu filho”, Jéssica que também se emociona, pergunta: “Tu vai cuidar dele mãe?”, sem resposta, mas com um largo sorriso e a esperança nos olhos de Val o filme acaba.

A partir dessa atitude é possível perceber uma conquista feita por Val de poder viver a vida como queria e ter a oportunidade de ajudar na criação de seu neto, se redimindo pelos anos em que ficou longe da filha. Para mais, acontece à quebra de um ciclo. Jéssica não vai precisar repetir os passos da mãe para dar vida melhor ao seu filho. Vão batalhar para ter uma vida prazerosa, juntas!

O fato de não ter continuação na história, do filho de Jéssica chegando, por exemplo, é uma escolha de Anna Muylaert de deixar que os espectadores pensem o que quiserem sobre o destino das personagens. Outro fato levantado por ela e de que não tinha mais o que falar no filme, não é preciso criar um destino final para os personagens, pois o final da história das pessoas só acontece quando elas morrem.

Ana Clara Carvalho

Written by

Jornalista graduada em 2017 pela PUC Minas. naclaracarvalho@gmail.com

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