Ele não quer chegar, ele quer ir
Perfil produzido em abril de 2017 para a disciplina Jornalismo Cultural
Cheguei no espaço físico da galeria quartoamado e logo Bernardo já foi apresentando o local explicando seus planos futuros para o lugar. Me convidou a entrar em sua sala, muito bem organizada, ventilador no teto, notebook na mesa, paredes com cores neutras contrastando com a cadeira verde e o frigobar vermelho. Bernardo estava com estilo despojado, blusa escura, calça jeans, relógio no pulso e tênis. Desde que cheguei já foi possível perceber sua simpatia e educação.
Bernardo Biagioni é escritor, fotógrafo, jornalista, idealizador da galeria quartoamado e atualmente corre. Mesmo com todas essas definições, ele diz que nunca conseguiu se colocar em uma prateleira.
Com 28 anos, natural de Belo Horizonte, canceriano com ascendente em escorpião, com um irmão mais velho, o pai morando no interior de São Paulo e a mãe no interior de Minas Gerais, Bernardo teve que se virar e aprendeu muita coisa de viver sozinho.
Desde cedo seu irmão, Fernando Biagioni, percebeu que ele sempre teve mais interesse em ler um livro do que desperdiçar o tempo com videogames. A diferença de idade entre eles, de 5 anos, foi uma barreira enorme até atingirem a adolescência. Fernando foi morar fora o que criava uma certa distância. Quando Bernardo foi visitar o irmão na Itália, em 2009, a barreira de idade já não era tão gritante e eles já puderam perceber os vários gostos que tinham em comum que cultivaram ao longo do tempo.
Mesmo com certa ausência, a mãe conseguiu ser presente nas decisões dos filhos sendo uma forte influenciadora em suas vidas. Ela sempre colocou os meninos na estrada desde cedo, bombardeando-os de informação visual e convivência. As viagens despertaram uma sensibilidade para eles encararem a vida, Fernando fotografando e Bernardo escrevendo.
Aos 14 anos, Bernardo começou a escrever e encontrou nas palavras uma maneira de conforto consigo mesmo. Escolheu cursar jornalismo porque queria algo que desse oportunidade de estar em vários lugares ao mesmo tempo, junto com uma vontade social de imaginar o mundo melhor e com mais possibilidades. “Percebi que seria uma ferramenta muito importante, tanto de escrever sobre uma revolução que acontece no cotidiano da cidade, cultural, as bandas, os projetos, os artistas, mas também de usar essa ferramenta no benefício daquilo que eu acredito”.

Começou o curso de jornalismo em 2007 e fez a diferença desde seu primeiro dia de aula. Daniela Serra foi sua professora e eles mantêm uma amizade desde então. Ela reconhece em Bê (forma que ela o chama carinhosamente) uma pessoa generosa, que sempre achou que podia aprender: “Eu sempre via o Bernardo sabendo muito, então ele conseguiu me surpreender pela simplicidade”.
No primeiro período de faculdade, ele descobriu o jornalismo gonzo através de uma comunidade na extinta rede social “Orkut” e ficou curioso quando percebeu na descrição que era basicamente um pé na cara do jornalismo convencional. Alugou o filme “Medo e delírio em Las Vegas” e percebeu que existia uma escola do jornalismo na qual o sentimento é importante: “Eu vi que o gonzo era uma ferramenta incrível, uma maneira de poder estar em contato com o sentimento de um tempo”. Bernardo é poeta e não nasceu para ser uma máquina de uma escrita a serviço da comunicação.
No início do curso começou a trabalhar na extinta revista “Ragga” colaborando com uma coluna de viagens. Com uma forte referência de Hunter Thompson voltou sua escrita tentando encontrar a linguagem dele e demorou para se encontrar na sua própria escrita.
De férias da revista “Ragga”, em 2010, Bernardo foi pra Amsterdã com a ideia de ficar por lá durante duas semanas. Porém, ele percebeu que não era hora de ir. Sentado na beira de um rio, ligou para seu chefe e disse que não podia voltar. Ele ficou por três meses e escreveu um texto para revista. Esse texto simbolizou para ele a mudança do jornalismo gonzo para o jornalismo de estrada. “Eu tava tentando me convencer e convencer os outros que eu era um doidão tipo Hunter Thompson, que a minha ideia era as drogas, a loucura, a selvageria da cidade do mato e tal”.
Bernardo começou a recordar da sua escrita adolescente e estruturar a poesia no papel, foi uma fusão de jornalismo gonzo com poesia que diz muito mais do que a loucura de Thompson. Nessa pegada “on the road”, ele incorporou o jornalismo de estrada com uma aproximação com Jack Kerouac que tinha esse estilo de escrita. A ideia é colocar no papel o sentimento de estar na estrada: “Você está em movimento contínuo e não faz sentido colocar muitos pontos finais, porque uma estrada não tem pontos finais. O jornalismo de estrada basicamente foi eu, finalmente aparecendo como uma pessoa mesmo na escrita, com Thompson, com Kerouac, com essas referências e fazendo agora um sentido”.
Voltando da viagem de Amsterdã, junto com Raul Sampaio, seu amigo de adolescência, se inspirou em montar projetos em prol de ocupar a cidade culturalmente. Depois de algumas tentativas, Bernardo percebeu que existiam vários artistas que não tinham mecanismo de se expor, de vender e estar no mercado. Então, teve a ideia de criar uma galeria (inicialmente virtual), um trabalho de comunicação para mostrar quem são esses artistas e qual é o trabalho deles na rua, assim nasceu o quartoamado.
Junto com seu amigo, eles seguem construindo algo que nem Raul consegue descrever, um sonho que eles não sabem direito o que é, mas que vão conquistar juntos, um tentando entender o outro nas fraquezas e virtudes, como Raul descreve: “Ele consegue chegar muito longe sozinho, eu também, mas quando estamos juntos não tem nem comparação, vai muito além”. Eles têm um laço de parceria, irmandade e companheirismo, criado quando estudaram juntos no ensino médio e descobriram que tinham um gosto em comum: o skate.

Fernando é um dos artistas do quartoamado e esteve presente desde o seu início. Ele explica que: “Foi da inquietude de buscar novas formas de relacionar com as pessoas, a cidade, enfim a vida”. Para ele, o irmão tem uma facilidade de articular projetos sabendo analisar e propor o que for melhor, mas o problema é quando Fernando quer argumentar, porque mesmo que o Bernardo esteja errado ele demora a dar o braço a torcer.
Bernardo tem um interesse pela arte baseado no campo participativo, o campo em que a arte deixa de esperar para que as pessoas vá até elas e elas irem até as pessoas. Ele começou a andar em bando com seus amigos e pensando em grupo percebeu que juntos eles são mais. Bernardo tem um carinho muito especial por Belo Horizonte, ama morar na cidade e tem zero interesse em morar fora. Então, ele considera que seu papel é amplificar o carinho e amor pela cidade “para que seja compartilhado e quanto mais pessoas comprarem essa mensagem, mais incrível essa cidade vai ser, menos pessoas vão embora e assim, sei lá, pode ser que em 5, 10 anos tenha uma galera vindo pra cá, porque aqui é foda”.
Na época em que trabalhava para a revista “Ragga”, Bernardo estudava, e conciliar as duas atividades muitas vezes não era fácil. Como a coluna para a qual escrevia era sobre viagens ele precisava estar sempre conhecendo novos lugares para apresentar, mas houve ocasiões em que tinha apenas um fim de semana para realizar isso e, mesmo assim, ele abraçava o compromisso sem nem saber qual destino tomaria. Uma vez ele estava com o mapa de Minas Gerais aberto e no meio daquelas tantas cidades ele encontrou uma chamada Babilônia e decidiu ir para lá.
Ele se juntou com seus amigos e pegaram um carro para ir para Babilônia, sem conhecer, sem ler nada sobre o lugar, sem saber se havia lugares turísticos ou igrejas, sabendo apenas a direção que os levariam até a cidade. E para ele foi ótimo fazer dessa forma: “Foi uma viagem muito foda, porque quando a gente não espera o que estar por vir acaba que tudo vira possibilidade e tudo fica muito mais incrível”.
A viagem durou em média umas 9 horas; 4 horas de carro até chegar em Delfinópolis onde a estrada acaba e depois mais cinco em uma balsa para atravessar o imenso rio. Até chegar em Babilônia é preciso passar por vários vilarejos. Durantes todo o caminho, quando as pessoas descobriam para onde eles estavam indo, aconselhavam: “não vai pra Babilônia, lá é perigoso, as pessoas não voltam de lá”, existia todo um misticismo em relação ao local. Hoje os moradores se intitulam de Ponte Alta, e não Babilônia, inclusive quando ele chegou lá houve um acontecimento inusitado.
“A gente chegou nesse vilarejo e perguntou pra uma criança: Você sabe onde é a Babilônia? Ele ficou confuso entrou lá dentro perguntou pra mãe dele e voltou e falou: oh minha mãe falou que aqui é a Babilônia, vocês estão na Babilônia”, e a partir disso tudo foi se tornando inesquecível. Babilônia é um vale que fica entre a Serra da Canastra e a Serra da Babilônia, um vilarejo em que você fica no meio de um corredor, parecido com “um senhor do anéis intocado no meio de Minas Gerais”.
Para Bernardo foi uma viagem muito especial, por ter sido em Minas Gerais, pois muitas pessoas acham que para viver uma experiência incrível e transformadora é precisa pegar voo, cruzar oceano, sendo que pode estar mais próximo do que você imagina: “e foi a grande razão da gente querer ir pra lá e descobrir um lugar era isso, é simples temos um estado aqui e dá pra viajar por ele facilmente”.

Hoje em dia, ele não viaja tanto por estar focado na galeria quartoamado. A maneira que encontrou de estar na estrada e escrevendo foi correndo ao redor da cidade. O único meio que escreve atualmente é pelo tumblr, mas sem nenhum tipo de rotina. Ele precisa de um deadline para poder escrever e um dos seus acordos de novo ano foi tentar se reeducar: “Agora eu estou imaginando uma nova fase de escrita que está muito baseada nas minhas corridas, porque eu comecei a correr muito no intuito de conhecer os arredores da cidade. Eu quero correr pelas matas, pelos rios, pelas nascents, pelas trilhas que não existem mais, condomínios que estão sendo feitos em espaços que antes eram públicos, e pra mim tudo isso é nutriente, para uma escrita que desperta a vontade de novo de escrever”.
Quando pensamos em Bernando, imaginamos alguém totalmente fora do padrão, com uma certa rebeldia em querer falar naquilo que as pessoas geralmente não falam. Sempre esteve disposto a arriscar e arriscou muitas vezes, falou sobre drogas, filmes pornô, baile funk e prostituição. Ele acredita que é preciso furar o mecanismo burocrático e achar campos improváveis de escrita que são necessários para escrever um novo tempo. Contudo, rebelde não é uma palavra que descreve Bernardo, ele tem uma rotina, não muito previsível, mas é conectado com a sociedade pé no chão. Sua “rebeldia” é considerada um dever com a sociedade, de sempre tentar ir mais longe. Quando indagado sobre isso, ele respondeu: “acho que se eu fosse rebelde eu não ia estar sentado aqui agora, ventiladorzinho no teto, acho que eu estaria em outra situação de vida”.
Daniela é encantada com o Bernardo, ela enxerga nele a generosidade e uma vontade enorme de sempre aprender mais. Ele nunca se contentou em ficar parado fosse nos estágios ou empregos em que ela acompanhou a trajetória. Para ela, o Bê não é uma pessoa feita para ficar entre as paredes. Ela acha que ele é o povo, no melhor sentido, quieto e competente. Ele está plantando uma horta e explicou para Dani (forma que ele chama a ex-professora) que ele nunca tinha cuidado de nada na vida e começaria por uma horta. “Ele vai começar a cuidar de horta e vai fazer uma puta horta. Ele não quer chegar nos lugares, ele quer ir. Ele quer estar sempre indo, uma pessoa que não preocupa com o resultado, mas com o processo”. Com facilidade em falar sobre ele, é assim que a ex-professora e amiga enxerga Bernardo.
Nas falas de Daniela, eu me encontrei e percebi que ela conseguiu traduzir tudo o que pensava dele (com algumas horas de conversa). Por onde passa, Bernardo encanta, e parafraseando Daniela Serra, ele deve ter algum problema que eu ainda não descobri qual é, e provavelmente nunca vou descobrir.
