Idosos fazem dos companheiros em abrigo sua nova família
Reportagem e fotos produzidas em novembro de 2014 para a disciplina Jornalismo Especializado
Cheiro de café feito na hora e broa de fubá, cadeira de balanço, tricot e muito amor para dar. Essa pode ser uma breve descrição da casa de avós, porém é de um abrigo de idosos. Ali, onde a família resolveu deixá-los não é um local de tristeza, mas sim de pessoas com sorrisos nos rostos, sempre dispostas a fazer novos amigos.
O Lar Maria Clara localizado na Rua Joaquim Camargos, número 362, no Centro de Contagem, é uma instituição filantrópica de apoio ao idoso, vinculada à SSVP (Sociedade São Vicente de Paulo). A instituição se dedica ao cuidado de idosos carentes, moradores do município, em regime de longa permanência.
Os dias de visita são terça e quinta de 14h às 16h e sábado de 14h às 17h. Nesse horário, os idosos estão recebendo seu lanche que é entregue pelos funcionários do local. Eles ficam no pátio conversando uns com os outros, jogando dama, desenhando e, ao som de uma música calma, alguns dançam.

Atualmente, o lar abriga residentes com diferentes condições clínicas e comportamentais. Além da prestação de cuidados, que ocorre 24 horas por dia, a instituição disponibiliza aos idosos, assistência social, médica, terapêutica ocupacional e fisioterapêutica, atendimentos fonoaudiológicos e psicológicos.
Segundo Lísia Rodrigues, supervisora de plantão, a maioria dos idosos é levada para o lar por falta de estrutura familiar, psicológica, financeira, física e espiritual. Na maioria dos casos, a pessoa vai se tornando idosa e possui alguns problemas de saúde que necessitam de atenção. Então, os filhos que já trabalham não têm como cuidar e sem condições financeiras de pagar um cuidador, escolhem institucionalizar. “Nem sempre é porque a família não quer olhar, uns oito ou nove dessa faixa de sessenta e poucos anos é o abandono, a família não deu conta e eles ficaram sofrendo maus tratos.”
A instituição tem capacidade para 64 residentes e uma lista de espera de mais de 70 pessoas. Quando abre alguma vaga, é feita uma avaliação por meio de uma sindicância, que avalia quem precisa com mais urgência. Os idosos não vão sozinhos, vão com a família ou por meio das conferências da sociedade.

O início é um período de adaptação muito complicado, porque a vida deles muda completamente. Lorival Ribeiro Costa, residente há apenas dois meses, conta que morava sozinho e, devido a alguns problemas de saúde, ficou impossibilitado de realizar suas tarefas do dia a dia. Ele ainda está em processo de adaptação: “Não é questão de gostar, é precisar. Se eu tivesse como pagar uma pessoa para cuidar de mim lá em casa eu ia embora.”
O lar é mantido pela SSVP e pelo benefício que os idosos recebem. É um dos poucos lares de Belo Horizonte e Região Metropolitana que aceitam idosos com apenas um salário mínimo, a maioria só aceita a partir de dois.

Um dos moradores mais antigos Rodrigo Antônio Bethônico, residente há quase 20 anos, conta que quando chegou ao lar foi muito complicada sua adaptação, pois tinha se divorciado há pouco tempo. “Depois de um tempo longe da família você acostuma, mas no começo é muito difícil, se eu não tivesse uma pessoa muito boa do meu lado eu não ficava, o presidente do asilo era assim comigo.”
A Prefeitura cede à instituição uma assistente social e duas técnicas de enfermagem. Há, também, pessoas que fazem trabalhos voluntários, uma média de vinte que atuam constantemente. Um exemplo é o grupo Anjos da Dança que promove uma tarde para os idosos dançarem forró e para o entretenimento dos mesmos. Há também nas tardes de segunda-feira voluntárias que oferecem serviços de salão de beleza, como fazer as unhas, cortar os cabelos e fazer a barba.
Os residentes podem sair com a família e o lar incentiva para isso, contatando sempre os familiares para os buscarem nos fins de semana. Contudo, a supervisora Lisia Rodrigues conta que isso é muito difícil. “A família depois que coloca, acha que é só vim visitar, não quer levar para não ter um trabalho de cuidar.”
A residente Geralda Matildes dos Reis foi para o abrigo por ter problemas de incontinência urinária e, como se separou de seu marido, ela não tinha condições de viver sozinha. Ela tem um filho de 38 anos que é solteiro e mora com o seu ex-marido, mas conta que ele não vai visitá-la. Todavia, ela gosta da nova casa, pois tem amigos com quem conversar, joga dama e tricota.
O lar proporciona passeios em clubes, parques, sítios e zoológicos. O intuito é que os idosos saiam um pouco, para se divertirem e interagirem cada vez mais um com outro. O objetivo é fazer eles felizes e não deixar que fiquem deprimidos por morarem em um abrigo.
Idosos optam por continuar no mercado de trabalho
A ideia dos jovens serem o futuro do país se encontra ultrapassada, o Brasil tem, hoje em dia, aproximadamente, 15 milhões de idosos (pessoas com 65 anos ou mais). De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 4,5 milhões de aposentados não saíram do mercado de trabalho e continuam na ativa. A expectativa de vida aumentou ao longo dos últimos anos de acordo com os avanços da medicina e a mudança da relação das pessoas com a questão da saúde.
Ao entrar na terceira idade, há um preconceito no âmbito social, e principalmente no mercado de trabalho. Todavia, os idosos podem contribuir com suas experiências diversificadas e adquiridas em anos de vivência e de trabalho. Eles estão, cada vez mais, buscando especializações e se atualizando de acordo com as exigências do mercado.
Em contato por telefone, Wagner Cândido Ferreira secretário executivo do Conselho Estadual do Idoso (CEI), diz que as oportunidades de trabalhos para os mais velhos estão cada vez mais amplas, mas que não demonstra ser uma mudança de paradigma do mercado, ou diminuição do preconceito propriamente dito. “Com o aumento da expectativa de vida do brasileiro, surgiram novas oportunidades para aposentados aumentarem sua renda em atividades como serviços gerais e contínuos. Ou seja, as oportunidades ainda estão ligadas às áreas operacionais. Já as áreas de formação superior ainda encontram dificuldades.”
O artigo 43 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que estabelece as finalidades da Educação Superior, afirma, em seus parágrafos V e VI, que cabe às universidades, entre outras atribuições, “suscitar o desejo permanente de aperfeiçoamento cultural” e “prestar serviços especializados à comunidade”.
Em vista disso, Marcelo Pacheco coordenador de projetos de extensão da Universidade Aberta da Terceira Idade (Unati) da Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL — MG), conta por e-mail que a Unati promove desde 1999 um curso de capacitação profissional para fazer com que pessoas mais velhas possam voltar ao mercado de trabalho.
Segundo ele, o objetivo do curso é de contribuir para melhoria da qualidade de vida das pessoas da terceira idade oferecendo orientação e serviços de saúde específicos, cursos de capacitação e oportunidades de lazer. Com duração de três meses, sua grade curricular compreende disciplinas como: alfabetização, espanhol, informática, inglês, oficina da memória, culinária, pintura em tecido, bem como outros temas.
