(a)Politização do Design

Raízes e os Graus de Separação

Somos uma amálgama de diferentes identidades originadas a partir de êxodos migratórios e diásporas pessoais. Filhos da colonização e da posterior descolonização. A identidade pessoal já não se prende unicamente ao local onde nascemos, nem aos valores tradicionais de uma região ou família. Somos seres plurais resultantes das viagens exploratórias do passado e herdamos o peso dessas decisões.

Recentemente a Momondo, plataforma online de compra voos, iniciou o projecto The DNA Journey, onde qualquer pessoa se pode inscrever. Dessas, algumas já foram aleatoriamente seleccionas, para participar na recolha de ADN e compreender as suas origens. Os resultados foram os esperados: estamos todos ligados por raizes mais profundas do que aquelas que nos separam — ideologias, religião, raça. O conhecimento das nossas origens deveria ser algo mandatório e integrante no nosso crescimento emocional e cívico.

Narrativas Fragmentadas

Na conferência “Metamorfoses: por uma Descolonização do Design” Luíza Prado e Pedro Oliveira referem-se ao ser metamórfico como “criaturas ambíguas (…) que demonstram a capacidade da natureza humana em transitar entre diferentes mundos e tomar diferentes decisões de acordo com o universo em que habitam.”

Enquanto seres metamórficos somos capazes de transitar e adaptar a outras realidades, adquirir novos conhecimentos, compreender as mais diversas contrariedades. Construímos narrativas a partir de fragmentos e o nosso entendimento resulta da reunião de vários “saberes”: o das nossas origens, os que nos foram transmitidos, os que fomos adquirindo, e até mesmos, aqueles que nos foram impostos. Somos capazes de os diferenciar, de nos identificar com alguns e questionar outros.

Neste ponto, Luíza e Pedro afirmam ser emergente a responsabilização do Design e envolver-se activamente, em questões menos superficiais. Utilizar os seus mecanismos de observação e crítica para o questionamento social, cultural e até político. Compreender a mixagem de experiências e de entendimentos e desenvolver um processo mais próximo e real — Agir ao invés de reagir. Mas como agir em contextos multireferenciais, fragmentados e por vezes incompletos?

Polaridade vs Pluralidade

O Poder é algo que resulta de um reconhecimento colectivo, quer seja por via mediática ou por via da violência, estabelece fortes dogmas de comportamento e controlo. No passado como no presente é possível identificarmos os diversos sistemas de poder que pretenderam e pretendem organizar o mundo em polaridades redutoras: inclusão/exclusão, privilegio/segregação, expressão/opressão, ricos/pobres, etc.

Diariamente somos, confortavelmente, absorvidos por estas dicotomias; manifestadas e reproduzidas nos objectos e na comunicação. Mas o mundo é plural, diverso e multi-referencial. Neste sentido é essencial que o Design se liberte da sua neutralidade e, comece o seu processo de descolonização, que reconheça a existência desta pluralidade e diversidade de entendimentos, de modo que se envolva, que se politize, que se humanize. O intuito é promover o questionamento e o pensamento livre, mesmo que implique repensar em alternativas na formulação das questões e métodos de interpretação das narrativas.


Referências

OLIVEIRA, Pedro. “Como fazer um projeto de Design Especulativo Não-Colonialista: Um Guia Rápido” in Medium. 1o de Ago. 2016. | PRADO, Luíza. “Questioning the “critical” in Speculative & Critical Design” in Medium. 4 de Fev. 2014. | HALL, Stuart. “The Question of Cultural Identiy” in Modernity Introduction to Modern Societies. | A Parede — Design Research Studio

Publicação original presente no blog da disciplina Estudos Contemporâneos do Design, com o professor Víctor Almeida, a 4 de Dezembro 2016.