Design enquanto transmissor de cultura e de identidade


Durante a sua apresentação, Frederico Duarte questionou o que será relevante ser destacado no Design realizado hoje, enquanto paradigma identitário de uma determinada sociedade num determinado momento? O que significa “design brasileiro”? Ou português? De que modo a identidade colectiva será traduzida nos artefactos de Design? É possível cunhar nas peças de design a identidade cultural colectiva?

Eu e os Outros

No fim de século XX, temas como a globalização e a democratização computacional foram amplamente discutidos. Um dos seus principais teóricos, Stuart Hall descreve as transformações da identidade no período pós-moderno, e afirma que as mudanças estruturais sociais transformam as identidades pessoais.

Hall, no seu livro “A identidade Cultural na Pós-Modernidade” aprofunda as concepções do sujeito e a construção da sua identidade ao longo da historia. Deste modo, o século XVIII, caracterizou-se pela sua racionalidade, pelo pensar e agir conscientes. A frase “Penso, logo existo” de René Descartes caracteriza bem um sujeito com identidade centrada e estável. Na primeira metade do século XX, à medida que as sociedades modernas se tornam mais complexas e o conhecimento científico mais relevante, o sujeito compreende as suas condições biológica (indivíduo-interior) e sociais (sociedade-exterior). Contudo, e enquanto se caminhava para o fim do século, compreende-se que a identidade não é algo inato, mas que se forma ao longo do tempo e estabelece-se em grupo. As teorizações políticas e educacionais, as descobertas do inconsciente a emergência dos estudos linguísticos enquanto sistema social e não individual e o empoderamento do feminismo e do papel da mulher na sociedade; contribuíram para descentralização da identidade individual (o eu) e multiplicidade da identidade social (o outros).

Cultura, Sociedade e Comunidades

O indivíduo vive e estabelece-se em comunidades, socialmente hierarquizadas e culturalmente definidas. As culturas são representações das interrelações que se estabelecem, das afinidades que perduram e das tradições que se formam, designando-se de identidade nacional. Esta é diariamente reforçada por narrativas e símbolos divulgados pelos diversos media, e onde o Design poderá ter um papel essencial na construção, perpetuação e, até mesmo, na reinvenção da identidade nacional.

A enraizamento de uma cultura nacional é algo profundo e rizomático, onde o sentimento de pertença permite construir uma comunidade imaginada composta pela preservação das memórias colectivas do passado; pelo desejo da convivência e pela perpetuação da herança cultural do grupo. É justamente neste ponto , que multiculturalidade e globalização foram temas tão importante para Hall, afirmando que as nações modernas serão tendencialmente híbridas culturalmente, o que entra em conflito com ideia de nação onde as diferenças internas são ignoradas em prole do sentimento nacional.

A crescente mobilização e a evolução tecnológica, do século XXI, vieram permitir a integração e ligação constantes com comunidades (reais e virtuais), contribuindo para a fragmentação da identidade nacional, contudo esta não se desintegra completamente, mas abre a possibilidade à formação de novas identidades, estas híbridas e multi-referenciais.

Internacionalização da Identidade Nacional

A projecção externa das identidades nacionais são normalmente formadas em preconceitos basilares dos estereótipos criados, porém não traduzem integralmente as complexidades culturais que se estabelecem nem os conhecimentos populares que se formam.

Como disse anteriormente, o Design é responsável pela construção, solidificação e reinvenção das identidades culturais. Quebrar estereótipos e internacionalizar identidades.

“Favela Chair” (Campana Brothers) / “Neorustica” (Brunno Jahara)

No caso brasileiro a apropriação identitária deixa um sabor doce-amargo. Por um lado, a favelização, referente aos designers e marcas que acomodam e exploram a identidade do modo de vida dessas comunidades. Por outro lado, os projectos comunitários e sociais que através do design permitem impulsionar a economia local e promover o design-artefacto realizado por mãos brasileiras.

“Nossa inspiração é justamente o Brasil, nosso dia a dia, as situações que observamos (…). Admiramos a criatividade e agilidade mental de nosso povo, principalmente das partes mais frágeis de nossa sociedade, que, com pouco, constrói todo o seu repertório de vida”
- Humberto e Fernando Campana [1]

A internacionalização e mistificação da Favela, contribuíram para que esta se tornasse algo identitário como o samba ou Copacabana, transformou-a “produto” local, explorado turisticamente e apropriado pelas marcas de luxo enquanto “fenómeno de moda”. Neste processo as comunidades das favelas adaptaram-se e progressivamente a própria identidade comunitária local poderá vir a diluir-se.

“O design é reconhecido hoje por governos de diversos países pelo seu potencial de fomentar inovação e desenvolvimento. (…). No Brasil, este potencial vem sendo percebido (ainda que lentamente), e começam a tomar forma ações para melhor compreender e fazer uso desta ferramenta”
- Gabriel Patrocínio [2]

O Design, embora, um factor estratégico e de diferenciação, tem a potencialidade de contribuir para o desenvolvimento e melhoria da economia, trazer benefícios para a população, enriquecimento social e impulsionar o panorama cultural. No entanto é emergente que haja um reconhecimento e a inclusão do Design em equipas multidisciplinares e educar as futuras gerações de designers brasileiros a considerar a acção do design local e social, em prole do mercado de consumo. A transmissão identitária será o resultado da progressivamente compreensão do modo como Design pode afectar a acção humana e comunitária.

Na sequência dos Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro, a Google Art & Culture, lança uma experiência interactiva através do website — Beyond the Map — O título faz alusão às favelas do Rio, bairros construídos espontaneamente mal mapeadas, onde 1,4 milhões de pessoas (20%da população da cidade), vivem sem morada. O projeto pretende “mapear” estas regiões, revelar as suas gentes e as suas histórias, sendo um exemplo, onde a acção do Design (e não só) dá visibilidade à identidade comunitária.


Referências
 AL-SHARKI, Nashwa. Favelization and the Appropriation of Favelas in International Design in RioonWatch. 2016. | DUARTE, Frederico. “Fator-Favela”.2011 | FERLAUTO, Claúdio. Open up the Future in Eye Magazine. 2014 | HALL, Stuart. “The Question of Cultural Identiy” in Modernity Introduction to Modern Societies. | MARGOLIN, Victor. BUCHANAN. The Idea of Design. 1995 | PATROCÍNIO, Gabriel. “Diagnóstico do Design Brasileiro — Uma Resenha” in ADG Brasil | KERTZER, Adriana. Design — Favelization.

Publicação original presente no blog da disciplina Estudos Contemporâneos do Design, com o professor Víctor Almeida, a 26 de Novembro 2016.