Dimensões do Cartaz Político

A transição do mural à “wall”

O documentar de um acontecimento político através da artefactos de comunicação é provavelmente forma mais emocional de compreender as opiniões e os sentimentos vividas.


Foi justamente isto que Mauricio Vico pretendeu retratar na sua conferência “El Cartel Político en Chile entre 1970 y 2012 — El Gobierno de Salvador Allende y los Movimentos Estudiantiles” — a compreensão do panorama histórico, emocional e expressivo, em dois momentos específicos, através da análise da reprodução dos cartazes de manifestação política: o primeiro, a constituição da Unidade Popular e consequente governação de Salvador Allende (1970–1973); o segundo, os movimentos estudantis pelo melhoramento e financiamento das Universidades públicas, 2006–2013.

Enquadramento

A partir de finais da década 60 as relações de tensão entre a camada estudantil e o governo vigente tinham aumentado. A crise e fragilidade do governo Democrata Cristão anteciparam a vitória e constituição da Unidade Popular de Salvador Allende. Contudo, a asfixia económica provocada pelos Estados Unidos contra o governo de esquerda permitiu a queda da governação de Allende. E a 11 de setembro de 1973 dá-se o golpe de estado sob o comando do general Pinochet, instalando-se um regime de direita.

Após 40 anos [1][2], a camada estudantil volta a questionar, na governação da presidente Michelle Bachelet, proclamando melhorias na educação secundária e universitária chilena. As mobilizações iniciadas em abril de 2006 decorreram até junho, e voltaram a repetir-se em setembro e outubro do mesmo ano, conhecida informalmente como a Revolução dos Pinguins [3], devido ao tradicional uniforme dos estudantes. A adesão às marchas foi quase na totalidade das instituições do país, tornando-se no maior protesto de estudantes na história do Chile, superando as que ocorreram, em 1972 [4], durante o governo de Salvador Allende e seu projeto da Escola Nacional Unificada [5][6], e as manifestações, durante os anos 1980 contra as políticas do Regime Militar de Pinochet.

Dimensões do Cartaz Político Chileno

Nos exemplos visualizados na conferência [7] é possível compreender os contrastes na produção dos cartazes políticos da década 1970 e a produção em finais da primeira década do século XXI. Os primeiros traduziam a expressão individual de desenhadores e artistas, reunidos em comunidades estudantil representavam a identidade do colectivo. Cartazes de mensagens directa e direccionadas, de síntese iconográfica e plasticidades intimamente relacionadas com tendências expressivas internacionais.

Por outro lado, os movimentos juvenis e sociais a partir de 2006 caracterizam-se pelo distanciamento e descrença política, sem uma autoria identificada. Devido à necessidade de gerar união e número, optam por divulgar na internet e nas redes sociais, antes de sairem à rua em manifestação. As plasticidades em serigrafia ou em fotocomposição transportam mensagens duras e mais agressivas.

O cartaz político constitui a ferramenta de expressão por excelência, pela sua democratização, facilidade de produção e impressão. Transporta em si o sentido de reunião e comunidade, identidade colectiva e individual, ideologias subjacentes e apela aos valores universais de uma sociedade mais justa. Embora, muitas vezes, considerado como um formato “ultrapassado” não deixa de prestar a sua função — um instrumento de comunicação representativo de um colectivo social descontente.

Do Mural para a Wall

A rebelião, a crise e a crítica deixaram de ser afixados em muros — suporte democrático pertencente a todos — para passarem a ser divulgados e partilhados na Internet — espaço universal, globalizante e igualmente democrático [8].

O facebook, rede social por excelência, está estruturado por uma área dedicada às interações sociais e outra para informação e histórico pessoal. A área designada “social” corresponde à “wall”, um espaço democrático onde amigos e seguidores publicam e partilham as suas ideias, pensamento, críticas e pontos de vista para quem quiser ver. Este paradigma de utilização é algo comum à maioria das redes sociais, onde o espaço social é aberto à discusão e partilha.

Efectivamente, o cartaz têm vindo a perder eficácia nas suas funções mais comerciais e promocionais, o aparecimento da internet e alargamento das redes sociais contribuíram para o reenvolvimento do indivíduo (utilizador), em causas sociais, políticas e comunitárias.

O utilizador tornou-se participativo e influente, capaz de assumir o controlo e manipulação da própria mensagem. Paralelamente, a democratização das ferramentas e dos processos progrediram para a euforia da auto-produção. E é neste sentido que o cartaz resgata a sua função marginal, agitadora e viral. A facilidade de produção e a velocidade de networking permitem mobilizar opiniões e ideais.

Em panoramas de agitação ou crise o Design assume um papel de apropriação e subversão, pelas suas capacidades empíricas de comunicar, em acrescentar contexto e significação. Neste sentido José Bártolo mostra-nos dois exemplos: o primeiro, uma versão subvertida do cartaz I Want You for the U.S. Army como propaganda anti-guerra do Vietnam; o outro, o cartaz de Anthony Burrill, em serigrafia com grude recolhido do desastre ambiental da BP no Golf do México — The Oil & Water do not Mix.

Por outro lado, em situações tendenciosamente estáveis e onde o crescimento económico prospera, a produção do cartaz passa a fruição comercial. E se inicialmente a reprodução contínua dos artefactos surge da necessidade de manter o imaginário colectivo, por outro estes perdem o seu carácter emocional, enquanto representação de uma acontecimento e ideal. Bártolo indica-nos mais dois exemplos: cartazes da revolução comunista chinesa em formato souvenir e de impressão barata; e o outro os cartazes da revolução portuguesa da 75, estes miniaturizados e destacáveis, possíveis de ser colecionados.

Neste ponto é possível afirmar que a análise do cartaz político é algo indissociável da sua época de reprodução, sendo essencial a compreensão do contexto politico-histórico e das dinâmicas sociais, pois estes influenciam não só o discurso, como a linguagem e a plasticidade, transportando em si não só um valor documental, mas também uma dimensão narrativa e estética, contribuindo para multiplicidade das variáveis de investigação.

Porém, nos dias hoje e com adição das redes sociais, a investigação do cartaz político, ou dos artefactos para comunicação em contexto de manifestação aquire proporções imensuráveis, principalmente se o acontecimento tem visibiliade mundial. Nesses casos, qualquer pessoa pode sentir-se solidária e envolver-se criticamente e expressar a sua opinião visualmente e partilha-la. A mensagem chega a vários receptores, mas eficácia pode não ser imediata. Contudo em eventos com visibilidade circunscrita, como no caso dos estudantes chilenos, é possível recolher o espólio comunicativo e a mensagem torna-se eficaz, impulsionando a união e a coragem para se sair à rua.

José Bártolo e Mauricio Vico abordaram, nas suas masterclass, as duas problemáticas que podem ocorrer durante um processo de análise e investigação. Se por um lado, Bártolo refere a necessidade de foco e metodologia numa abundância de referências, por outro, Vico relata a dificuldade na escassez de informação e como essa necessidade o fez alargar o seu tempo de investigação para procurar e catalogar artefactos de comunicação, assim como, estabelecer contacto e conversar com pessoas que viveram aqueles acontecimentos.


Referências

[1] “El Afiche Político en Chile 1970–2013. Unidad Popular, Clandestinidad, Transición Democrática y Movimientos Sociales.”, Cuadernos de Historia — Scielo, Tomás Cornejo C., Jun. 2015 [2] “Los Gritos de la Calle: 40 años de Afiche Político en Chile”, DiarioUChile, Rodrigo Alarcón, Jul. 2015 [3] “Dossier 154: Revolta estudantil no Chile”, Esquerda, vários autores, 2011–2014 [4] “El Cartel Político del Gobierno de Salvador Allende (1970–1973)”, Monografia, Mauricio Vico, Set. 2014 [5]“La Escuela Nacional Unificada (ENU, febrero, 1973)”, Piensa Chile, Luis Rubilar Solís, Mar.2012 [6] “O Relatório sobre a Escola Nacional Unificada há 40 anos: a Batalha da Educação na Unidade Popular”, por Jorge Magasich, Correio da Cidadania, Nov. 2014 [7] 40 Años Afiche Politico en Chile, Mauricio Vico e Rodrigo Vera Manríquez [8] “Why the Activist Poster is Here to Stay”, DesignObserver, Rick Poynor

Publicação original presente no blog da disciplina Estudos Contemporâneos do Design, com o professor Víctor Almeida, a 14 de Outubro 2016.