Mediação Tecnológica e Simulação em Cenários Distópicos

Parte II

— Da televisão aos ecrã por toda a parte

“Agora, encontramo-nos num terceiro patamar, num terceiro grau: o ecrã digital, a Internet. A Internet altera de forma fundamental esta lógica de ecrã porque, com o cinema e com a televisão, o espectador tem um lugar passivo: vê e ouve, mas não pode fazer mais nada.” (Lipovetsky. 2010:157)

Os avanços tecnológicos e a democratização da internet vieram alterar definitivamente a nossa postura e o modo como comunicamos. Mediados por ecrãs desde do aparecimento do cinema e depois pela televisão, deixamos de ser espectadores passivos para utilizadores activos, com voz. Se o cinema transportou sonhos e aspirações, a televisão trouxe-nos o conforto, porém a portabilidade dos telemóveis e omnipresença da internet deram possibilidade da comunicação ser interrupta e interactiva, esta instantaneidade digital torna o presente demasiado efémero, fugaz e imaterial.

“Posto de outra forma, de hoje em diante, o universo do ecrã global é um universo de interactividade, que não é de todo como o universo do cinema, de passividade total. A dinâmica alterou-se radicalmente. Por um lado, este fenómeno acelera a individualização; por outro, reduz as distâncias. Através deste ecrã global, podemos aceder às informações de imediato. Temos, portanto, um universo do ecrã que contribui para a individualização e para a conquista de uma consciência planetária.” (Idem)

Relacionamo-nos através de uma rede global de transmissão instantânea de informações, ideias e opiniões, e em tempo real podemos responder, reagir sobre o que se passa ao nosso redor e no mundo. Porém tanta informação não está a produzir mais conhecimento, nem este dom da ubiquidade está a evitar estados de solidão e de individualismo.

Hoje questiona-se sobre a nossa relação com a tecnologia, e os possíveis impactos no modo como pensamos, comunicamos, interagimos e, até na forma, como experienciamos o mundo. A tecnologia está tal forma presente no nosso quotidiano, que muitas vezes, não é conscientemente apercebida: dispositivos e instrumentos que nos auxiliam diariamente na nossa relação com o mundo, que contribuem para transformar a experiência e a percepção humana. Ihde analisa esta capacidade transformadora da tecnologia, e enfatiza que qualquer relação com a tecnologia é sempre algo resultante de uma mediação — quer seja como uma extensão do corpo ou uma representação da realidade, [1] podendo ou não ser tecnologias autónomas e inteligentes.

— Distopias tecnológicas — Black Mirror

“The ‘Black Mirror’ of the title is the one you’ll find on every wall, on every desk, in the palm of every hand: the cold, shiny screen of a TV, a monitor, a smartphone.” (Brooker. 2011)

Black Mirror consiste numa série televisiva britânica, criada por Charlie Brooker em 2011, onde cada episódio pretende retratar uma distopia de um presente alternativo ou de um futuro próximo, mas muito familiar. As narrativas pretende extrapolar as possíveis consequências do uso prolífero da tecnologia e como o ser humano, tendencialmente subverte essa utilização . O nome procura reflectir isso mesmo, black — no sentido de estarmos rodeados por ecrãs; e mirror — pelo sentimento comum de desconforto e auto-questionamento, que surge ao fim de cada episódio, ao nos revermos em determinados comportamentos retratados na série.

“And often I wonder: is all this really good for me? For us? None of these things have been foisted upon humankind — we’ve merrily embraced them. But where is it all leading? If technology is a drug — and it does feel like a drug — then what, precisely, are the side-effects?” (Idem)

Brooker não pretende demonstrar a tecnologia como algo terrível, no entanto, as narrativas demonstram que a humanidade tende a dar-lhe uma utilização obscura e destorcida, quer seja para fins lucrativos e entretenimento, por perversão ou para colmatar estados emocionais, tendem a desafiar os limites dos valores éticos e morais.

Black Mirror tem vindo a ser comparada com série televisiva americana, The Twilight Zone de Rod Serling, quer pela sua estrutura de conto distópico, como pela forma como são abordados os temas. O autor e apresentador procurava promover o pensamento crítico nos telespectadores, questionando sobre os percursos cívicos, éticos e morais da humanidade. Extrapolava estórias sobre a guerra nuclear, o fim do mundo, viagens espaciais e sistemas de controlo totalitários. Hoje, Serling estaria a escrever sobre o terrorismo, sistemas económicos globalizantes, sobre manipulação e influência dos media, dos limites da privacidade e das relações hipermediadas humano-tecnológicas. Ao contrário das distopias dos meados do século XX, as narrativas retratavam futuros longínquos e avanços tecnológicos impossíveis, hoje os enredos são mais credíveis, como uma ante-visão de um futuro tão próximo que poderia ser já amanhã.

Ao percorrer os episódios encontramos sociedades e relações pessoais regidas e mediadas pela tecnologia, como em “The Entire History of You”, uma sociedade controlada e organizada, onde tudo é monitorizado e registado — cada indivíduo tem os olhos munidos por lentes digitais capazes de captar qualquer momento, gravando dados e imagens num implante atrás do ouvido. O esquecimento é impossível, e cada memória poder ser revisitada infinitamente.

Cena do episódio “The Entire History of You” — Realização: Brian Welsh. Argumento: Jesse Armstrong. T1E3

Black Mirror aborda diversas temáticas tecno-científicas, com o intuito de desafiar os limites morais e éticos, como em “White Bear” — uma mulher acorda todos os dias com amnésia, confusa e assustada percorre um longo e exaustivo dia, é perseguida, e teme pela sua própria vida. Por fim, descobre que aquela tinha sido a sua sentença pelo crime de homicídio que cometera no passado — iria reviver diariamente aquele dia e ser publicamente insultada. Aqui a justiça alia-se ao aparato e entretenimento, e torna as sentenças penais num espetáculo de audiências.

Cena do episódio “White Bear”— Realização: Carl Tibbetts. Argumento: Charlie Brooker. T2E2

No entanto, os episódios mais relevantes para a temática que tenho vindo abordar, são aqueles demonstram de forma explícita a ideia de simulacro: “Playtest” , “San Junipero” e “Men Against Fire” . O primeiro relata a estória de um jovem americano backpacker em Londres, prestes terminar a sua viagem, mas falta-lhe dinheiro para poder regressar a casa. Para isso, voluntaria-se para testar um novo sistema de jogos revolucionário — implante inteligente, colocado na base da nuca, capaz de compreender os medos e as ansiedades do seu hospedeiro. O jogo adapta-se ao jogador, criando cenários imersivos e hiper-realista, o enredo é induzido e altera-se dinamicamente, tornando-se impossível compreender quando termina o jogo, e onde começa a realidade.

Cena do episódio “San Junipero”— Realização: Owen Harris. Argumento: Charlie Brooker. T3E4

“San Junipero” é um simulacro por excelência. Num mundo futuro onde doentes terminais e idosos poderão ‘viver’ através de algoritmos e mundos digitais alojados em gigantescos servidores. O episódio retrata o amor entre duas mulheres que nunca se conheceram na vida real, mas que se apaixonaram virtualmente.

“Men Against Fire” retoma à tecnologia de implantes, mas a temática central do episódio consiste na problemática da catalogação de dados ADN e, como esta pode dividir a humanidade, discriminatoriamente, através de argumentos científicos. Num futuro instável de pós-guerra, as sociedades re-estabelecem-se sob um regime de terror e discriminação. Instituições e governos começaram a catalogar as pessoas através do seu ADN, primeiramente à procurar dos melhores candidatos para soldados, mas rapidamente compreenderam que era possível identificar os indivíduos mais susceptíveis a desenvolver doenças e outro tipo anomalias — estes deveriam de ser eliminados, na medida que, iriam tornar-se um encargo para o sistema de saúde e governamental. Sob este pretexto, surge uma nova divisão militar, à qual foram implantados pequenos dispositivos ligados ao sistema neurológico capaz lhes alterar a percepção e induzir comportamentos — a missão é eliminar os indivíduos que haviam desenvolvido mutações, resultantes da exposição a armas bioquímicas.

Cena do episódio “Men Against Fire” — Realização: Jakob Verbruggen. Argumento: Charlie Brooker. T3E5

Se analisarmos este episódio à teorização de Baudrillard, temos um simulacro extremo: os cadetes não vêem a realidade, esta é-lhes forjada e sugerida através dos implantes, o que lhes altera a percepção e induz os comportamentos, levando-os a perseguir e a matar estes supostos ‘humanos-mutantes’.

“Humans are genuinely empathetic as a species. We don’t want to kill each other, which is a good thing, until your future depends on wiping out the enemy.” (Arquette — psiquiatra militar)

A democratização de internet, a liberdade de expressão e a influência do media são os três variáveis, de uma equação que, tem vindo a tomar medidas desproporcionais num mundo onde se constroem mapas da dimensão do território (Google Maps) com detalhes minuciosos. Encontramos realidades exageradas e distorcidas, imagens replicadas infinitamente e informações imensuráveis incapazes de desenvolver conhecimento e pensamento crítico, e contribuindo para a perda gradual de empatia.

Embora teóricos e distopias retratarem cenários obscuros e futuros pouco romantizados, os seres humanos, na sua maioria, têm a necessidade de socialização e de estabelecer relações físicas, de procurar a corporalidade da experiência, aumentar conhecimento e estabelecer ligações emocionais, independentemente da evolução tecnológica ou do surgimento de novas linguagens, alguns valores irão subsistir.


Notas:

[1] Ihde identificar 4 dinâmicas na relações humano-tecnologia: incorporada, hermenêutica, alteridade e de 8 fundo. A primeira, surge como uma extensão do corpo humano, de carácter experimental, pode alterar e modificar a percepção da realidade. Normalmente, presente nos objectos do quotidiano, é uma tecnologia construtiva, tendo o intuito de auxiliar a realização de tarefas. Por exemplo, os óculos ou telescópio. Aqui a tecnologia torna-se ‘perceptualmente transparente’ de modo a não intervir com experiência. Por outro lado, as relações hermenêuticas fornecem uma representação da realidade, envolvendo instrumentos de medição que necessitam de ser lidos e interpretados. Por exemplo, os relógios ou termômetros. As relações de alteridade referem-se à habilidade da tecnologia ter algum grau de independência da interação humana. Por exemplo, robot ou os gps. Estas três primeiras relações diferem da próximo, uma vez que são classificadas como tecnologias que exigem atenção direta e focal. A categoria final está localizada na periferia da atenção humana. As relações de fundo são entendias como tecnologias ‘ausente-presentes’, pois estão de tal forma integradas no dia-a-dia que nem reparamos que interagimos com elas.

Bibliografia:

LIPOVETSKY, Gilles.“Entrevista a Gilles Lipovetsky” com Carla Ganito e Ana Fabíola Maurício in Comunicação e Cultura Nº9. 2010. p. 155–162. Disponível em https://goo.gl/IUPLDE. Última consulta em 23 de Janeiro de 2017.

LIPOVETSKY, Gilles. CHARLES, Sébastien. Os Tempos Hipermodernos. São Paulo. Editora Barcarolla. 2004

MANOVICH, Lev. The Language of New Media. Massachusetts. MIT Press. 2001