Mediação Tecnológica e Simulação em Cenários Distópicos

Parte I

Imagem 1: Matrix (1991), The Wachowski Brothers

— Representações da Realidade

Baudrillard (1991:7) inicia a sua teorização com uma pequena fábula de Jorge Luís Borges [1], esta refere-se à obsessão do ser humano em representar a realidade com uma precisão doentia, um mapa tão minucioso e detalhado que teria exactamente a mesma extensão do território, no entanto, pela sua dimensão o mapa revelou-se inútil e desvalorizado. “É o real, e não o mapa, cujos os vestígios subsistem aqui e ali, nos desertos que já não são os do Império, mas o nosso. O deserto do próprio real.” (Idem:8). O mapa é uma ideia afastada da realidade, uma abstração daquilo que representa. É possível abstrair o conceito ‘território’ (realidade) a partir do conceito ‘mapa’ (representação), deste modo o primeiro precede ao segundo, sendo que o segundo não pode existe sem o primeiro. Há necessariamente uma relação entre os dois, sendo possível distinguir um do outro, pois ainda não se perdeu a referência ao mundo real e objectivo.

Segundo Baudrillard, a cultura pós-moderna caminha progressivamente para uma inversão destes papéis. Hoje o mapa precede e/ou antecipa-se ao território, a representação constrói-se a partir de referências diluídas ou inexistentes — “A simulação já não é a simulação de um território, de um referencial, de uma substância. É a geração pelos modelos de um real sem origem nem realidade: hiper-real” (Baudrillard. 1991:8). Não há uma realidade objectiva, esta foi substituída por uma existência simulada ou hiper-real, não é falsa nem artificial, é uma cópia onde se perdeu o original (real), fragilizando futuras reproduções, pois estas serão produzidas a partir da cópia e não do original-real. A co-existência prolongada leva-nos a perder a distinção entre o real e o simulado.

— Simulação

A palavra simulação deriva do latim simulacrum e significa semelhança, representação ou imitação, surge associada às descrições escultóricas ou pictóricas de divindades, tendo uma conotação inferior — uma imagem sem substância.

Contudo o aparecimento da fotografia (primeira forma imagem técnica) em meados do século XIX vem dar uma reviravolta ao tema. Para Vilém Flusser (1985:10) as imagens produzidas pelos aparelhos de fotografia analógica transporta em si não só a representação, mas também, um fragmento do mundo real, uma vez que, a luz impressa no papel é parte constituinte dessa realidade:

“O mundo representado parece ser a causa das imagens técnicas e elas próprias parecem ser p último efeito de complexa cadeia casual que parte o mundo. O mundo a ser representado reflete raios que vão sendo fixados sobre superfícies sensíveis, graças a processos ópticos, químicos e mecânicos, assim surgindo a imagem. Aparentemente, pois, a imagem e mundo se encontram no mesmo nível do real: são unidos por cadeia ininterrupta de causa e efeito, de maneira que a imagem parece não ser símbolo e não precisar de deciframento.” (Idem)

Porém, Flusser (Idem) adverte que a aparente objectividade e carácter não-simbólico das imagens técnicas promove elevada confiança nas mesmas — como se víssemos o mundo com os nossos próprios olhos — reduzindo a capacidade crítica sobre aquilo que vemos. Na verdade, as imagens técnicas podem ser, igualmente, simbólicas, podendo ser manipuladas e codificadas. Aqui encontra-se, provavelmente, a diferença determinante para a ideia de simulação de Baudrillard — as imagens técnicas, pela sua capacidade de reprodução infinita são simulações puras que rapidamente perdem a sua relação com a realidade.

— Simulacros

A sociedade pós-moderna baudrillardiana tornou-se tão dependente destas representações e destes modelos que perdeu o vínculo com o real. O aparato, a perfeição e o ideal destas representações levaram a realidade as querer imitar. Agora, precedem e determinam o mundo real, substituem a realidade e significados por signos e símbolos, tornando a experiência humana numa simulação da realidade.

Nos fundamentos sobre a realidade e conhecimento [2], Platão dividiu a realidade em dois mundos distintos: o inteligível e o sensível. O primeiro é o mundo verdadeiro, real e imutável, povoado pelas ideias [3]. Neste mundo as ideias estão hierarquizadas segundo a sua importância ontológica, estando no topo a noção de Bem. O segundo, uma cópia do inteligível, é o mundo da materialidade, da mudança e da multiplicidade; aqui o conhecimento é obtido através dos sentidos. Para Platão as ideias são a causa de todas as coisas sensíveis, o que constitui um afastamento do mundo inteligível, logo contribui já uma dessemelhança (cópia), ainda que natural. Por sua vez, toda a representação do mundo sensível consiste como uma imitação da cópia ou simulacro, ou seja, a cópia imita a ideia (o verdadeiro real), e o simulacro imita a cópia. Simulacro, a cópia da cópia, evita um contacto directo com sua fonte e razão conceptual: a própria realidade (as ideias).

Baudrillard sustenta que os simulacros não são meras mediações da realidade (representações) “não se trata de imitação, nem de dobragem nem mesmo paródia. Trata-se de uma substituição no real dos signos do real” (1991:9). São um produto da simulação, que por sua vez, resulta da realidade. O real e o ficcional ocupam o mesmo lugar. O conjunto de signos produzidos pela simulação originam-se a partir da cópia da cópia, sem vínculos com a realidade ou o seu significado inicial.

A simulação pode ser pensada como uma linha temporal da imagem e/ou representação, perdendo progressivamente o seu valor — Precessão de Simulacros.

Esquema 1. Linha temporal da perda de referencial da Imagem.

Comunicamos e relacionamo-nos a partir de representações, e estas contribuem para nossa construção da realidade. As representações que, aqui, se formam, têm uma correspondência directa com o ‘real’ que pretendem representar, dando-lhes sentido — significação . Baudrillard designa esta fase é do “domínio do maléfico” (1991:13) onde a “imagem é uma má aparência” (Idem) da realidade. No estágio seguinte, as distinções entre a representação e a realidade rompem-se devido à proliferação das cópias reproduzíveis, típico da cultura de massas, transformando as imagens em mercadorias com valor de troca. Para Baudrillard isto é do “domínio do sortilégio”, da perversão, onde a imagem “finger ser uma aparência” do que pretende representar, valorizando-se as cópias reproduzidas, por insinuarem alguma existência do real. As imagens técnicas referidas por Flusser (1985:10) inserem-se neste estágio, pela sua capacidade de captar e reproduzir infinitamente a realidade.

Por fim, quando vínculo entre realidade e representação desaparece por completo, e as imagens perdem o seu referencial com real, é uma simulação. “A passagem dos signos que dissimulam alguma coisa aos signos que dissimulam que não há nada, marca a viragem decisiva.” (1991:14). Passamos a interagir sobre uma hiper-realidade, quando esta realidade simulada precede e determina o real, Baudrillard (1991: 14) denomina por simulacro.

“Dissimular é fingir não ter ainda o que se tem. Simular é fingir ter o que não se tem. O primeiro refere-se a uma presença, o segundo a uma pura ausência. Mas é mais complicado pois simular não é fingir”. (Baudrillard. 1991:9)

A actualidade designada por hipermoderna (Lipovetsky. 2010b:26), precede as sociedades pós-modernas de Baudrillard, mediadas pela artificialidade das simulações — cópias de cópias — que servem para mascarar a realidade. Um mundo onde há cada vez mais informação, mas cada vez menos significado.


Notas:

[1] “Naquele Império, a arte da cartografia alcançou tal perfeição que o mapa de uma única província 1 ocupava toda uma cidade, e o mapa do império, toda uma província. Com o tempo, esses mapas desmesurados não foram satisfatórios e os Colégios de Cartógrafos levantaram um mapa do Império, que tinha o tamanho do Império e coincidia pontualmente com ele. Menos afeitas ao estudo da cartografia, as gerações seguintes entenderam que esse dilatado mapa era inútil e não sem impiedade o entregaram às inclemências do sol e dos invernos. Nos desertos do oeste perduram despedaçadas ruínas do mapa, habitadas por animais e por mendigos; em todo o país não há outra relíquia das disciplinas geográficas.” (Suárez Miranda, Viagens de varões prudentes, Libro IV, Cap. XLV, Lérida, 1658). (Borges. 2000:64)

[2] Alegoria da Caverna, primeira parte do Livro VII de A República. “Sócrates quer que imaginemos um 4 grupo de prisioneiros algemados pelas pernas e pescoço. Eles só podem olhar para a parede da caverna e nunca para a sua entrada. Na parede da caverna são refletidas imagens de homens e animais. Essas não passam de sombras de objetos reais de fora da caverna, mas aqueles prisioneiros não sabem disto. Imaginemos então que um dos prisioneiros conseguisse sair da caverna. A primeira coisa que lhe aconteceria é que seus olhos não estariam acostumados à luz do sol. O que ele teria que fazer seria primeiro olhar para as sombras dos objetos, depois para os homens e animais e, por último, para as estrelas e a lua no céu. Depois que ele conseguisse fazer isto, a contemplação do Sol seria possível.” (Pimenta. 2013)

[3] A ideia para Platão, não é uma ideia no sentido moderno do termo. A realidade sensível é o único tipo de 5 ser plenamente real, em relação ao qual a realidade sensível é apenas uma sombra. É algo de objectivo, e imaterial, cujo o conhecimento dá-se através do intelecto.

Bibliografia:

BAUDRILLARD, Jean. “A Precessão dos Simulacros” in Simulacros e Simulação. p. 7–57. trad. Maria João da Costa Pereira. 1991. Relógio d Água. Lisboa.

FLUSSER, Vilém. “A Imagem Técnica” in Filosofia da Caixa Negra: Ensaios para uma Futura Filosofia da Fotografia. p.10–12. 1985. Editora Hucitec. São Paulo.

LIPOVETSKY, Gilles. “Hoje, há demasiado de tudo” Entrevista com Fátima Mariano in Jornal de Notícias. 04/04/2010b. http://bit.ly/2j51LuH\.