A kind of magic

Nadando contra a maré da maior parte das pessoas que sigo no Twitter, 2015 tem sido um ano incrível para mim. Viajei bastante, conheci gente maneiríssima, reencontrei alguma paz e meu processo de autoconhecimento está a pleno vapor.

Isso não quer dizer, evidentemente, que tem sido perfeito. Pelo contrário: hoje mesmo tive de tomar uma decisão difícil e que me entristeceu. Assim como não foi fácil a segunda-feira de novembro que me faz escrever esse texto.

Era a semana do meu aniversário e eu estava em Londres. Como qualquer pessoa, eu jurava que tudo seria incrível, que seria a melhor comemoração da minha vida, que os meus 36 anos ficariam guardados com carinho na memória.

Mas no meio do caminho tinha uma porta com a chave emperrada. Literalmente. Li.te.ral.men.te.

Tive de chamar um chaveiro, gastei mil reais com isso (juro), briguei com quem amava e fiquei sem ter onde dormir. Tudo o que conseguia pensar era mas que merda de você que acha que ALGUM aniversário seu vai prestar, Nádia. Mentira, pensei muito nos mil reais, também.

Achei um hotel em Earls Court, me senti sozinha e abandonada, quis deitar em posição fetal e chorar por dias. Mas eu tinha uma entrada para o show do U2 na O2 Arena para aquela noite. Consegui de última hora, depois de passar semanas procurando ingressos. Quem ainda vai a um show do U2 em 2015, gente?, você pode estar pensando. É, eles são muito anos 1990 e etc. Eu sei.

Porém a bonitona da minha irmã (bonitona mesmo) teve duas brilhantes ideias acerca do U2 (ela teve outras brilhantes ideias em várias áreas da vida). A primeira delas foi ser super fã da banda. Era 2 de novembro, faltavam 10 dias pro aniversário da morte da Ana e quando se perde alguém tão prematuramente ficamos sempre pensando sobre o que a pessoa ia gostar de fazer ou estaria vivendo naquele momento. Encasquetei que ela iria a aquele show se ela estivesse em Londres, que nós cantaríamos juntas as músicas velhas, faríamos cara feia pras novas, e na volta provavelmente dormiríamos num hotel melhorzinho do que o escolhido num momento de pânico.

Recolhi meus caquinhos, dei grazadeusa por meu bilhete do metrô ser válido até a região da O2 e partiu southbank!

O lugar é incrível, tudo funciona, não tem confusão, não tem cambista, é outra vida. Fiquei na pista meio que lamentando por não ter comprado o ingresso da arquibancada, bem mais caro. Até um holofote apontar para pertinho de mim e daquele canto sair… Bono Vox!

Tenho 1,65m de altura e já fui a alguns shows do U2. Nunca enxerguei nada. Tá bom, eu confesso! Nunca enxergo nada em show nenhum. Dessa vez, eu consegui ver o OLHO do Bono. O palco cortava a pista, que é do tamanho de uma quadra de vôlei, e a banda ficava indo de um lado pro outro. Fiquei maravilhada. O show vale um post só pra ele. Talvez eu lembre de escrever um dia.

Eis o formato do palco. Tem aquela parte redondinha ali, que é onde a banda fica a maior parte do tempo, e essa passarela, por onde eles passam para o outro palco. O telão é móvel e sobe, desce, dá uma reboladinha (mentira, mas a banda passa por dentro do telão)

Eu me diverti e foi curioso observar como os ingleses (não) interagem. Por dentro eu ainda estava me sentindo um lixo e queria, de novo, dar uma deitadinha de leve. Em posição fetal. Chorando. Como não era conveniente naquele momento, aguardei o final do show.

A outra grande ideia da minha irmã em relação ao U2 foi pedir para tocarmos uma certa canção no enterro dela. Quem diabos faz esse tipo de pedido quando tem vinte e poucos anos e não está doente? Bom, a Ana fez. Como sempre atendemos tudo o que ela desejou, tocamos a tal música. Claro, ela poderia ter escolhido um lado B de algum cantor super ultra desconhecido (ou cantora, pois aí as chances de ser desconhecida aumentam exponencialmente), mas nãããão, ela escolheu One. Assim ela faz a família inteira se entristecer nos momentos e locais mais bizarros, como num supermercado em Joinville*.

O show estava acabando e eu pensando “opa, só tenho que pegar uns cinco trens diferentes e já já estarei 100% deitada” quando ouvi os primeiros acordes de uma c e r t a música, música esta não muito presente nas setlists atuais, ainda mais como encerramento. Isso mesmo: One.

EIS QUE ME CAGO TODA.

Dessa vez, ainda bem, não literalmente. Eu olhava em volta e parecia que algo mágico acontecia. Que ela estava ali, dizendo “ô, meu amor, tem coisas mais importantes na vida que uma chave emperrada”. E, vejam, eu nem acredito em vida após a morte, mas se eu não acreditar na força de um amor de irmã, se eu não achar que ele ultrapassa qualquer filosofia, crença ou ciência…

Chorei. Foram poucas lágrimas. A sensação, todavia, mostrou-se avassaladora.

Saí da Arena, contei para a minha mãe (ela acredita nessas coisas de espírito e veio com o papo de que a Ana estava lá comigo e etc, vocês conhecem o roteiro) e entrei na gigantesca e organizada fila para o metrô. Uma neblina pesada cobria Londres e, ao entrar na estação, um guitarrista solitário cantava

One life

With each other

Sisters

Brothers

(35 anos de banda, 13 CDs, sei lá quantos singles e o cara me sai com essa?)

Aí eu já presumi que o universo estava de sacanagem comigo e que de fato eu teria o melhor aniversário da minha vida. “One life. You got to do what you should.” Sabe o quê eu não should nada? Ficar chorando sobre o leite derramado, porque eu sequer gosto de leite.

One life. É essa e é agora.

(no fim do ano eu sempre fico mei melancólica, mei pensativa, mei feliz, mei tudo ao mesmo tempo. segura que a retrospectiva tá só começando.)

*Seis meses depois da morte da minha irmã eu fui para Joinville a trabalho. Estava no supermercado quando One começou a tocar baixinho. Fiquei me sentindo mal, pedi licença às minhas colegas e saí correndo pro estacionamento, achando que lá eu não iria escutar a música. Risos pra mim: o autofalante da área externa tocava tudo altíssimo.