Beauvoir não te aguenta mais

Ai, Simoneta, eu imagino quão cansada você deve estar. Toda hora a mesma coisa. Se você pudesse voltar no tempo, começaria o capítulo Infância de O Segundo Sexo desse jeito? Imaginaria que no século XXI as pessoas seriam tão preguiçosas a ponto de não terminar nem o próprio parágrafo?

Pois eu tenho certeza que você escreveria igualzinho. Lacraria, causaria, arrasaria e sambaria em cima da Lápide em Montparnasse. A cada pergunta estúpida de repórter querendo uma explicação para a frase, você reviraria os olhos em desalento. De novo, isso? De novo, miga.

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher.” Número 1 na parada Spotify Academics de Frases Mal Interpretadas Intencionalmente Para Justificar o Injustificável e Enganar os Incautos Cuja Preguiça de Ler Um Parágrafo É Coisa Impressionante.

Beauvoir te julgando por ser tão preguiçoso e não ler o diacho do parágrafo inteiro

Beauvoir não quis dizer com tal frase que a mulher era um ser não-pronto, sempre em mudança porque, veja bem, sequer existia (ou há) tal possibilidade. Qualquer comportamento desviante da norma imposta pelos homens era considerado histeria, maluquice e, até hoje, mimimi. Ela diz, claramente, em diversas passagens de O Segundo Sexo, que a mulher é o Outro, e só existe o Outro porque existe o Sujeito, o Absoluto. O homem.

“A mulher determina-se e diferencia-se em relação ao homem, e não este em relação a ela; a fêmea é o inessencial perante o essencial.”

Qualquer estudo de gênero sério leva em consideração a construção social do que é ser mulher ou homem. Mesmo os não sérios tocam no assunto, pois querem mostrar que nossas diferenças têm algum caráter biológico justificando a inferioridade feminina e que a socialização não tem nada com isso. Mulheres são fracas e pronto, eles dizem.

Nos feminismos, parte-se do pressuposto básico de que não há nada que uma mulher não possa fazer, que nossos impedimentos são as regras escritas e não escritas no conjunto da civilização. O feminismo liberal, por exemplo, usa tal ideia para pensar a mulher como indivíduo, não como classe. “Lugar de mulher é onde ela quiser”, pena que isso só vale se você for branca, tiver dinheiro, for magra, não tenha sido assediada sexual ou moralmente no trabalho, (infinito) e, no meio do caminho, não tenha um homem te mandando calar a boca e te enchendo de porrada.

Eu vou para outro lado e não acredito na libertação se não for de todas nós, como classe. Porque existem duas classes baseadas no sexo — e uma delas é obviamente superior à outra, mesmo que um indivíduo homem não se ache opressor.

É bastante provável que este mesmo indivíduo consuma pornografia, jure que não quer dizer sim, não lave um copo (sanitário, nem pensar, eca!) e, cereja do bolo, diga que “buceta cheira a bacalhau” (“deus me livre, que nooooooooooooojo”).

Isso também é construção social? Lógico. Tenho eu de assumir um papel maternal e ajudá-los a desconstruir a masculinidade, enquanto tem uma mulher sendo espancada no Brasil a cada 20 segundos? É por eles que vou usar minha energia, meus saberes, meu tempo, meu pouco dinheiro?

Não cabe ao feminismo lutar pela “libertação” dos homens. Libertação entre mil aspas porque homens têm muito mais possibilidades de manobra do que qualquer mulher no que se refere a gênero; questões de raça/etnia, classe social, religião, geográficas e outras têm peso enorme nisso. Questões essas que, não esqueçam, também atingem as mulheres. Elas sempre carregarão esta opressão, a de gênero, possivelmente combinada com outras.

Reconhecer que homens sofrem pelos ideais de masculinidade não quer dizer que eles sejam oprimidos por eles. Deve ser bem chato precisar ter o pênis grande e sempre ereto, por exemplo, mas foram eles, os homens, que criaram um mundo falocêntrico e o reiteram, a cada dia, quando abrem um site pornográfico qualquer.

O androcentrismo é a norma e é continuamente legitimada pelas próprias práticas que ela determina. Mero desgosto ou incômodo não é opressão. “Sexismo não é meramente um preconceito, sendo também o poder de agir de acordo com ele” (Johnson, citado por Saffioti).

“A dominação masculina encontra assim reunidas todas as condições de seu pleno exercício. A primazia universalmente concedida aos homens se afirma na objetividade de estruturas sociais e de atividades produtivas e reprodutivas.” (Bourdieu, em A dominação Masculina)

Hoje li um texto dizendo que “criar uma essência masculina sustenta uma forma única de ser homem”. Concordo. Mas essa essência já foi criada — e não foi por nós. Quem dera tivéssemos tal poder…

Como diria Andrea Dworkin (ainda não te descobriram para te distorcer, Dedeia!), “para que os homens mudem o mundo basta que eles mudem o próprio modo de viver”.

Nem todo homem?

Todo homem.