I do (not?) belong here

Ela disse, com outras palavras e até em outra língua, “esse lugar não é para você”. Mal sabia ela que quem me avisa disso todo dia sou eu mesma. Basta a caixa do supermercado me perguntar se quero o recibo e eu não conseguir entender para um milhão de fichas caírem: I don’t belong here.

Mesmo assim, ela insistiu. Repetiu. Desnecessário: eu já não me sinto em casa porque eu não sei onde ela fica. É onde está a pessoa que mais amo na vida? Onde moram meus amigos, espalhados por aí? Onde guardo mementos, como fotos e lembranças de viagem? Nenhum desses lugares é aqui, onde me sinto intrusa, me esgueirando para não fazer barulho na cozinha depois que os outros foram dormir.

Eu sei que não pertenço. Quem decide é quem chegou antes, quem tem mais dinheiro, quem tem mais poder. E no dia em que tudo engrenava, ela mencionou mais uma vez a minha inadequação.

Quis chutar o balde, desapareci durante horas, pensei em colocar a viola no saco. Mas de vez em quando meus olhos brilhavam um tiquinho só ao descobrir um canto novo na cidade. Ou ao finalmente entender um aviso no metrô que vejo todos os dias há semanas, mas que até então não fazia sentido.

Hoje fui ao supermercado. Há dois meses entrar numa loja era motivo de stress imenso, pelo medo de levar comida de cachorro achando que era salame. Não entendi de novo quando a moça me perguntou se eu queria a nota, mas me senti confortável entre as gôndolas, ouvindo Under Pressure no fone, cabelo cor de uva, tatuagens nos braços, piercing no nariz. No final, talvez eu pertença a esse lugar, sim. Quem escolhe sou eu.

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