Mães podem ser abusivas (mesmo que não queiramos admitir)

Uma moça escreveu sobre sua mãe abusiva. Deve ter sido difícil: admitir que a pessoa mais importante e mais amada tem problemas é doloroso. A autora fez um relato pessoal e, aparentemente, mais comum do que gostaríamos de acreditar — dezenas de comentários de outras mulheres apontam que aquela história é conhecida e vivida por muitas de nós.

Outras mulheres resolveram desancar a moça, mesmo depois de tomarem conhecimento da idade da autora, ainda bastante jovem. A atitude me deixa absurdada por diversas razões, mas três se sobressaem:

  • a repetição do velho, desgastado e desonesto bordão “se eu nunca vi, não aconteceu”;
  • a falta de comprometimento em estudar o mínimo de teoria feminista antes de se arvorarem formadoras de opinião e emissoras de carteirinha do clubinho;
  • a deliberada decisão de ignorar o que foi exposto, bem como o relato de outras mulheres, também vítimas de relacionamentos intrafamiliares abusivos.

Sim, porque a gente não gosta de pensar nisso, mas mães podem ser abusivas. Podem dizer que os motivos expostos pela autora “não são tão graves assim”. Houve quem usasse como exemplo o relato de uma mulher em grupo feminista de que a mãe teria matado outra pessoa na frente dela, e que isso sim era abuso, não o que foi desabafado no texto original. Precisamos ir tão longe? Precisamos entrar novamente nessa competição de quem sofre mais?

Uma crítica repetida foi que a autora não abrangeu todos os aspectos concernentes ao patriarcado, à mulheridade e à maternidade. De fato, ela não o fez. Alguém esperava o contrário? Foi um post de blog — há livros de centenas de páginas que não dão conta de abarcar estas questões, complexas e diferentes a cada passo da história.

Falando justamente sobre história e patriarcado (e história do patriarcado), as pesadas críticas falham em mencionar que a ideia contemporânea de família é uma criação patriarcal. Historiadores e antropólogos apontam o núcleo familiar como conhecemos hoje como meio para manutenção e eternização da acumulação de capital.

Quando os homens descobriram que eram parcialmente responsáveis pela reprodução humana, criou-se o casamento e a monogamia, esta sempre mandatória para a mulher, não para o marido. Assim, garantia-se que a prole fosse “legítima”, não sendo necessária a divisão de bens quando o patriarca viesse a falecer.

A partir daí criou-se incontáveis amarras sociais para que a mulher permanecesse em casa, cuidando da família (mais uma vez, criada, inventada, consumada por contrato social) e, evidentemente, acreditando ser aquela sua função no mundo. Mistura um pouco de religião aí no meio e a mulher passa a achar que tal função é, também, divina. (lembrem-se que as religiões e crenças ligadas ao feminino e à natureza foram dizimadas durante a Inquisição e, por conseguinte, ficamos com religiões criadas e capitaneadas por homens.)

Os fatos narrados nos dois últimos parágrafos não têm a ver com feminismo — portanto, não há que se falar em correntes feministas, radicais, liberais, interseccionais. É história.

Evidentemente feministas encamparam o tema e há inúmeros trabalhos sobre as relações familiares; o papel da mãe; a hipossuficiência das filhas e filhos, sendo as crianças as mais dominadas-exploradas pois, como aponta Saffioti, “a família e o território familiar contêm hierarquias”.

Fiquei verdadeiramente surpresa com a ausência deste debate entre as críticas ao texto que acendeu a celeuma. O problema funciona em dois pólos, ainda que estes pólos existam em razão da dominação de gênero: a mãe carrega traumas decorrentes da vivência como mulher, mas tal fato não a exime de responsabilidade perante filhas, filhos e o restante das pessoas com quem ela tem relações afetivas.

Mulheres são abusivas em relacionamentos lésbicos, com amigas, com parceiros, com os filhos. Já que o tema agora circunda o território da família, fico com ele, uma vez que é impossível tratar de todas as nuances em um texto. Em Feminism is for everybody, no capítulo batizado de Feminist Parenting, bell hooks diz

O movimento feminista foi o primeiro movimento de justiça social a chamar a atenção para o fato de que nossa cultura não ama as crianças, que continua a vê-las como propriedades dos pais, e que eles podem fazer com elas o que quiserem. A violência dos adultos contra crianças é a norma em nossa sociedade.

hooks é ainda mais enfática ao criticar a teoria feminista por “não ter oferecido uma crítica e uma intervenção no que concerne a violência de mulheres adultas contra crianças”. A autora, negra e interseccional, chama a atitude de algumas mães de “sadismo maternal”.

Dizer que as mulheres não têm capacidade de escolher como criar filhas e filhos é revitimizá-las, é tirar-lhes o caráter de sujeitos, é reificar a ideia de que mulheres são passivas. Marilena Chauí e Maria Filomena Gregori chegaram a defender que as mulheres são cúmplices de seus agressores, teoria refutada por Saffioti, pois para esta não há que se falar em cumplicidade pois as mulheres não desfrutam de igual poder que os homens.

Mas Saffioti não retira a responsabilidade das mães no panorama violento que se vê nas famílias: “embora as mulheres não sejam cúmplices dos patriarcas, cooperam com eles, muitas vezes inconscientemente, para a perpetuação desse regime [de violência]”. A socióloga lembra até de uma frase corriqueira dita pelas mães: “você levará aquela surra quando seu pai chegar e eu lhe contar o que você fez”. A mãe exerce o poder patriarcal perante os filhos, ainda que este poder tenha sido delegado pelo pai.

Para quem está neste momento pensando “o pai às vezes nem existe”, faz-se necessário apontar que o patriarcado é também uma ideologia e todas nós a alimentamos. Mesmo não sendo mães, não raro nos imbuímos das funções do patriarca e “disciplinamos” crianças e adolescentes, segundo a norma vigente: a da violência. É o que Saffioti chama de “ordem social das bicadas” ou “pedagogia da violência”.

Admitir que mães podem ser abusivas, controladoras e invasivas não significa apagar os motivos pelos quais elas se tornaram tais pessoas. No entanto, o que vi nos últimos dias foi uma tentativa desrespeitosa de desmerecer o sofrimento de quem está na ponta mais fraca desta relação, como se a jovem não estivesse ela mesma ficando também traumatizada e sem conseguir entender como quem mais devia lhe apoiar não o faz (poderia entrar na questão do mito da mãe-santa, mas aí este texto ficaria ainda mais interminável).

Alison Bechdel, criadora do conhecido Bechdel Test, tem um “drama em quadrinhos” chamado Você é minha mãe?, no qual narra e analisa autobiograficamente a relação conturbada com a mãe. Mergulhando em Winnicott e Alice Miller, o livro traz situações semelhantes às descritas pela jovem brasileira cuja vida neste momento está sendo vasculhada.

Bechdel cita Miller: “a criança que reprime seus sentimentos para harmonizar-se com um progenitor é, em certo sentido, abandonada”. Em outro trecho: “o progenitor que utiliza o falso self da criança para apoio estrutural impede que a criança crie a sua própria estrutura”.

Trecho de “Você é minha mãe?”

É um livro em quadrinhos, deveria ser fácil e até divertido, mas cada página é um choque de realidade. Uma Duas, de Eliane Brum, também trata da relação entre mãe e filha — e, da mesma forma que a obra de Bechdel, a leitura é pesada.

Coincidentemente, os dois livros trazem uma ideia obviamente metafórica, mas que nos mostra como é difícil a relação entre mães e filhas, como estamos impregnadas de dor, culpa e ressentimento. “Escrevi para poder matar a minha mãe. Essa possibilidade única que a literatura dá. E talvez para amá-la”, diz Brum.

Como resolvemos esse impasse, então, já que ele resiste claramente, ainda que sempre existam aquelas pessoas pouco sensíveis que categorizam qualquer sofrimento alheio como mera frescura?

Mais uma vez, bell hooks:

As crianças precisam ser criadas em ambientes amorosos. Onde quer que exista dominação, inexiste o amor. Pais amorosos, sejam eles solteiros ou casados, gays ou hétero, em famílias monoparentais femininas ou masculinas, são mais propensos a educar crianças saudáveis, felizes e com excelente autoestima.
Acabar com a dominação patriarcal das crianças, por homens ou por mulheres, é o único meio de tornar a família um local onde as crianças podem estar seguras, onde elas podem ser livres, onde elas podem conhecer o amor.