Sobre xenofobia e relativismo cultural

Em recente viagem à Holanda, passei dias pensando se deveria ir ao famosérrimo Red Light District. Para quem não conhece, é uma região de Amsterdã onde prostitutas ficam expostas em vitrines.

O homem passa, escolhe, negocia o valor pelo vidro e, ao “negociarem o preço”, ele entra, ela fecha a cortina, acontece o que vocês imaginam. Pouco tempo depois ele sai e ela abre a cortina de novo, pronta para o “próximo cliente”.

Minha dúvida em ir até lá, a poucos metros de uma das principais avenidas da cidade, decorria do fato de eu não me sentir confortável com mulheres expostas em vitrines — e com a prostituição em si.

Na última noite, fui. Era domingo, a horda de jovens rapazes vindo de outros países europeus para fumar maconha e aproveitar as prostitutas já havia partido, e mesmo assim o local estava lotado. Muita gente nas ruas, homens e mulheres, tirando fotos e tratando tudo como um grande circo.

Nas vitrines, mulheres muito bonitas, branquinhas, magrinhas, loirinhas. Conversei com um morador da cidade e ele me disse que estas ficam à noite, quando o aluguel das vitrines é mais caro. Como o Red Light funciona 24 horas, durante o dia o que se vê por lá são as mulheres mais velhas, mais feias, cuja hora é mais barata do que das jovens estonteantes da noite.

Num país onde existem bolsas de estudos, onde uma creche custa 10 euros por mês, onde a cidade de Utrecht está dando “salários” (uma espécie de bolsa família, mas sem as regras daqui. ou qualquer regra) de 900 a 1,300 euros, quem são as mulheres nas vitrines?

Dois meses depois da terrível ida ao Red Light e num país fronteiriço com a Holanda, a Alemanha, centenas de homens (foca no gênero) atacaram mulheres (foca no gênero) em 31 de dezembro. Segundo as vítimas e as autoridades policiais, “eram imigrantes”, apesar da identidade dos mesmos não ter sido, ainda, sequer descoberta.

Publiquei um pequeno texto no meu Facebook a respeito do caso, colocando o ponto central no fato de que, independente de onde esses homens nasceram e viveram, eles acreditam que o corpo das mulheres é de livre acesso a eles.

Infelizmente algumas pessoas fizeram comentários altamente preconceituosos, reiterando que sim, os culpados eram os imigrantes, oriundos de países onde as mulheres são tratadas como lixo.

Agora, me respondam, sem querer fazer uma escala de valores do que é “pior” ou “melhor”, nesta balança de direitos humanos que alguém andou comprando na 25 de março: em qual país as mulheres são tratadas como gente?

Mulheres não poderem ir à escola é absurdo, horrível, e todos os outros adjetivos horrendos que podemos pensar? Sim. Elas serem baleadas por insistirem ir estudar, como aconteceu com Malala, é razoável? De maneira nenhuma. Serem apedrejadas até a morte por acusações de adultério? Absolutamente chocante. Trocadas por bodes? Penso que não há necessidade de comentar quão violentos estes fatos são.

Porém, quem adota discurso de xenofobia esquece, completamente, qual o papel do ocidente neste panorama. Quem foi colonizado, quem foi deixado de lado ao longo da história, quem foi explorado até tirarem o último bem, quem recebeu armas e treinamento para colocar estas e outras regras em prática.

Estas mulheres certamente vivem sob constante terror. Não há dúvida quanto a isto. Mas enquanto fica-se discutindo a nacionalidade dos agressores na Alemanha (tirando totalmente de foco o GÊNERO deles), esquecem do que acontece nos países desenvolvidos.

Segundo o último relatório da ONU sobre o tráfico de pessoas, a região que a organização chama de “Western Europe” (países como Alemanha, Holanda, França e Áustria) tem prevalência de tráfico de mulheres para exploração sexual (o tráfico de pessoas também existe para trabalho escravo e retirada de órgãos). De onde vêm estas mulheres? Ásia, África, América — e Europa Central (República Tcheca, Hungria, Polônia) e dos Balcãs (Bulgária, Croácia). É, aquelas loirinhas que servem de ponto turístico não só no Red Light, mas nos bordéis espalhados em todos os países “civilizados” da Europa, estes que estão sendo tomaaaaaados por imigrantes que não respeitam mulheres.

Em 2010, também segundo a ONU, 140 mil mulheres (foca no gênero) traficadas para a Europa estavam no mercado de exploração sexual em condições de servidão. Elas faziam 50 milhões de programas por ano, representando um lucro anual de 2,5 bilhões de euros.

Indo para outra prática muito combatida por feministas no mundo inteiro, entre abril e junho de 2015 o sistema nacional de saúde da Inglaterra atendeu 1,026 vítimas de mutilação genital feminina.

Eu poderia falar bastante a respeito sobre a história do estupro — como desde o século XIX, pelo menos (eu estudei esta parte da história), este é um crime reconhecido como perpetrado pelas classes mais baixas. Trabalhadores, imigrantes e negros sempre foram os mais visados pela polícia. Há mais de duzentos anos. E, para a salvação das mulheres, aparecem os homens brancos!

De forma alguma eu estou relativizando o que acontece nos países onde a violação dos direitos humanos acontece com mais frequência. Do ponto de vista da violência contra a mulher (foca no gênero), é melhor morar no Reino Unido e na Austrália, onde uma mulher sofre feminicídio a cada três dias, ou no Brasil, onde vivemos com a assustadora estatística de dez mulheres assassinadas por parceiros ou ex-parceiros ao dia?

Mas para as inglesas ou australianas, o sentimento de terror é maior, menor ou igual ao nosso? Nos países ora escrutinados pelos facebookianos especialistas em migração, há também militância feminista. As pessoas simplesmente esquecem disso, desconsiderando totalmente a batalha diária que estas mulheres empreendem.

Quando há séculos — e nos séculos seguintes — os europeus quiseram salvar estas nações de serem “bárbaros” e “selvagens”, vocês sabem muito bem o que aconteceu.

Mais uma vez: eu não estou relativizando a óbvia e incontestável violação aos direitos humanos e em especial das mulheres (foca no gênero). Quem relativiza é o turista tirando foto no Red Light, entrando em bordéis, acariciando (sic) meninas nas prais no nordeste brasileiro ou pagando por shows na Tailândia onde as moças, nuas e de pernas abertas, soltam bolas de ping pong pela vagina.

Não disfarce sua xenofobia com preocupação dos direitos das mulheres. A máscara já caiu faz tempo.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.