Ditadura do amor livre

Com colaboração de Thamy Almeida

Nada contra relacionamentos abertos, até tenho amigos que têm. Mas já aconteceu comigo e outras amigas um fenômeno, sintoma da popularização deste tipo de relação, que eu chamo “carinhosamente” de ditadura do amor livre.

Algumas pessoas usam a carta do relacionamento aberto para esvaziar as próprias mãos da responsabilidade emocional sobre o outro ser humano. Porém, uma relação livre continua sendo uma relação, continua tendo DRs, conversas e preocupação sobre o bem estar psicológico e emocional do parceiro. É, portanto, o exato oposto do que alguns de seus praticantes parecem compreender, já que ao invés de cuidar do bem-estar de uma só pessoa, você tem N outras preocupações.

Negar-se a isso é apenas negligente, a menos, é claro, que se esteja em envolvimentos que se resumam ao famoso “Netflix and chill”- se encontra, dá uma transadinha, ri deitado na cama, pensando nas coisas leves da vida, dorme junto abraçado e, após o girar da chave na fechadura, está encerrada sua responsabilidade emocional, até que se marque o próximo encontrinho e o ciclo se repita. Isto não é um relacionamento aberto. Nem mesmo uma relação é. É um lance casual, completamente saudável enquanto os envolvidos estiverem na mesma página.

Em um dos extremos, esse tipo de relação é apenas um “falow, vou pegar uma outra pessoa ali, você que lide com isso porque sou ~~~livre”. Isto quando não acham que todas as pessoas que não se relacionam exatamente como eles preferem estão completamente erradas.

Exemplo 1: a monogamia concedida em forma de favor.

O rapaz queria ter um relacionamento aberto e se abriu sobre isso com sua namorada. Ela, monogâmica, não se imaginava numa relação nesse formato e deixou isso claro. Ele, o adepto do conceito platônico de amor livre, fez o bom moço: “Quero estar com você e se, por esse motivo, eu precisar abrir mão dessa minha vontade, para mim está ótimo”. Está mesmo?

Começaram as acusações de que ele só está em um relacionamento monogâmico por causa dela, que ela poda sua liberdade de se relacionar da maneira que ele acredita ser mais sadio, que ele está fazendo um favor em continuar com ela em um relacionamento monogâmico, porque ele estaria mais feliz em uma relação aberta. Claro, nada disso dito de modo aberto e acusatório, e é exatamente esse o problema. Se ele fosse explícito assim, qualquer um poderia ver o absurdo da situação.

Mas não, ele era sutil e sempre carinhoso, manipulando a relação de tal modo que construiu dentro da namorada um sentimento de culpa e insuficiência, já que ela não apenas não era ~~~evoluída para estar em uma relação aberta, como não era suficiente para o cara ali, que estava se doando e se anulando por ela. Espera aí. Não era uma escolha? Por que a culpa é dela? Ela deixou claro que não queria aquilo e estava disposta a encerrar a relação para que ele fosse livre como queria, porque entendia que não deveria obrigá-lo a ser monogâmico. Mas é difícil pensar nisso quando se está no meio do furacão. Ela se sente culpada. Ela se sente errada. Ultrapassada. Indigna de ser amada. O amor livre se torna abusivo, opressor.

Exemplo 2: os adeptos das relações abertas que na verdade são apenas hipócritas.

Um rapaz costuma flertar com todas as amigas mesmo tendo namorada. Ele propõe um relacionamento aberto, ela nega, mas diz que entende se ele quiser terminar por já não conseguir ter um relacionamento monogâmico. Ele diz que prefere continuar com ela, mas a faz acreditar que ela é muito ciumenta, sem razão nenhuma. Mas ai de algum rapaz se aproximar da namorada, é um escândalo. Até que ele a trai, ela descobre, a história toda explode. Ela prefere se afastar e até se sente aliviada, apesar de machucada, em não estar mais naquele relacionamento.

— Querida, você está bem? — pergunta uma amiga do rapaz, adepta do relacionamento aberto, para a traída.

— Tentando colocar a minha mente no lugar, mas estou feliz de ter me livrado do problema.

— Vocês deviam ter aberto o relacionamento.

— Acho que, mesmo se a gente tivesse aberto, este tipo de coisa aconteceria. Ele não sabia se relacionar sem se envolver emocionalmente, além de que era manipulador, precisa de tratamento.

— Não acho que este seja o problema. Vocês só não queriam a mesma coisa… Ele queria ser livre.

— Se ele queria tanto ser livre, por que era ciumento e não deixava nenhum homem chegar perto de mim, mesmo se o cara fosse gay?

O amor, ali, era livre até a segunda página. Ele queria se relacionar com outras pessoas, sem que tivesse que abrir mão da exclusividade da companheira. O amor livre era, na verdade, uma desculpa para não precisar ter fidelidade ou lealdade. Pelo menos da parte dele.

É necessário que se entenda, pra ontem, que as relações podem tomar a forma que for mais satisfatória para as pessoas ali envolvidas. O combinado não sai caro, como dizem. Mas é preciso levar em conta também que ~essa tal liberdade~ não pode ser a válvula de escape pras inseguranças de cada um, que têm medo de estar sozinhos e, por esse motivo, se envolvem só até certo ponto, nem opressora de tal modo que a qualquer momento possa ser usada como moeda de troca, em que uma das partes está sendo tão incrível a ponto de conceder estar em uma relação no formato X ou Y e a outra devia erguer as mãos pro céu e agradecer por esse(a) parceiro(a) maravilhoso.

Os casos citados são apenas dois ínfimos exemplos do quão equivocada é essa noção. A gente pode até evoluir como sociedade rumo ao amor livre, mas, neste momento, a gente está fazendo tudo errado. Não dá para desmantelar e transgredir apenas na parte que nos interessa (poder beijar várias bocas) só para se livrar das partes difíceis que as relações trazem consigo. Pode até ser conveniente e divertido, mas é emocionalmente irresponsável. Tanto individual quanto coletivamente falando, porque tudo que estão conseguindo fazer é criar essa noção de abandono e superficialidade.

Não existe uma fórmula certa e rígida para se relacionar. Tem gente que funciona no relacionamento aberto e tem gente que funciona na monogamia. Porém, mesmo a liberdade pode ser ditadura quando é imposta, ainda mais sendo imposta pelos motivos errados. Ninguém tem a obrigação de aceitar apenas uma forma de relacionamento. Porque, no final das contas, as pessoas são e sempre deveriam ser livres para poder procurar e viver o amor que seja mais de boa para cada um.

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