Não existe glamour em startups

Aprendendo com uma startup #01

Existe um falso glamour por trás de startups. Em algum momento, trabalhar em uma startup se tornou algo cool.

É que agora eu trabalho numa startup, gata.

A começar pelo termo startup. De repente qualquer empresa pequena se tornou startup, principalmente as que estão começando a trilhar um caminho.

Pois bem, se você não sabe, só relembrar rapidinho:

Startup é qualquer negócio inovador que está tentando validar seu modelo de negócio.

Por validar modelo de negócio, você pode entender “tentando ganhar dinheiro com algo que ninguém conseguiu ainda”. A partir do momento que você valida o modelo de negócio, não é mais uma startup. Se você está pegando um modelo de negócio que já existe e está melhorando, não é uma startup.

Vão existir discordâncias aqui, a discussão “o que define uma startup” não é de hoje. É uma discussão velha (e chata).

O fato é que essa é a minha visão.

Voltemos ao glamour.

Foto: Maegan Tintari.

O mercado decidiu que startups são maneiras. Trabalhar em uma é legal, conhecer o fundador de uma é legal, estar em um ambiente com startups é legal, falar de investimentos, capital-anjo, venture capital é legal. Eventos de startup? Noooooossa, muito legal, ambiente inspirador e bastante networking.

O fato é que esse universo de startups é um saco.

Tudo o que você quer é colocar seu produto no ar, testar e perder o rótulo “startup”. Ninguém quer te ajudar a fazer isso, o que querem é te colocar numa vitrine e falar “olha, conheço esses caras”, "olha esse case", "viram o aporte daquele pessoal?".

Um amigo meu, deficiente visual, uma vez disse que detesta quando as pessoas tratam ele como super-herói.

— Vejam o que meu amigo cego consegue fazer.

Tudo que ele quer é ser normal.

No início é legal ser o centro das atenções, depois cansa.

Onde todo mundo enxerga glamour, empreendedores do caralho e ideias inovadoras, eu vou te falar o que existe: trabalho, muito trabalho, e incerteza.

Você não sabe se esse negócio vai existir daqui um ano, então você trabalha pra que isso jamais aconteça. Você não tem tempo pra se preocupar se a cadeira do escritório é ruim, se o café da tia é intragável.

Horário se torna uma mera formalidade. Você acorda no meio da madrugada porque a cabeça está fervilhando de ideias. Hora-extra? Você não tem tempo pra pensar nisso.

Você começa a achar que vai mudar o mundo. Ao mesmo tempo, falta uma ou outra conta pra pagar porque você tirou dinheiro do seu bolso pra apostar na empresa.

Você aprende a se organizar e a ganhar ritmo, senão o fervilhão de ideias mata sua produtividade. O fervilhão de ideias é capaz de matar o seu negócio. Organização é tudo, timing é essencial.

Seu time se torna seu maior alicerce, seu confidente e seu motor. Juntos, vocês têm certeza que vão mudar o mundo.

Você descobre que o primeiro investimento é só o começo da brincadeira. A partir do terceiro, fica mais sério do que nunca.

Se você acha que o investimento resolve tudo, ledo engano, ele só aumenta a carga de responsabilidade.

Você começa a ver que realmente está mudando o mundo.

Você perde amigos e eventos sociais, deixa de viver pra terminar um negócio rapidinho. Você começa a pensar que, de vez em quando, você precisa lembrar de viver.

Você pensa em desistir mas aí, calma, vou tentar só mais um pouquinho. — Foto: Antoine Beauvillain

Você precisa fazer mais de 100 reuniões pra quem alguém aposte na sua ideia. Depois que alguém aposta, surgem derivações disso.

Sentar pra jogar vídeo-game te incomoda, esse tempo podia estar sendo usado pra trabalhar. Netflix é o máximo mas, poxa, cada temporada é no mínimo 12 horas. Você não tem tempo pra isso.

Seus amigos acham o máximo o que você faz, mas eles jamais se arriscariam por algo tão incerto.

Onde enxergam glamour, só existe suor e dedicação.

Onde enxergam glamour, só existem pessoas tentando manter a sanidade enquanto criam algo novo.

Glamour é ter um emprego com grana certa no fim do mês, é poder se dar ao luxo de ir embora às 18h e só voltar no dia seguinte.

Glamour é saber que você pode falhar.

Glamour é poder se importar mais com eventos do que com seu trabalho. Glamour é poder assistir Netflix.

Glamour é poder sair mais cedo pra tomar uma cervejinha. Glamour é ter tempo pra fazer networking.

Glamour é reclamar do ambiente de trabalho. É achar que os “benefícios” podiam ser melhores.

Glamour só existe na cabeça de quem nunca viveu uma startup.

Morro de saudades da Netflix, mas odeio glamour.