Eu tenho medo.
Tenho medo de muitas coisas, na verdade. Tenho medo de agulhas, o qual já gerou mais desmaios do que eu consigo contar (um deles, inclusive, enquanto fazia uma tatuagem). Tenho um medo de andar de avião que ainda não foi totalmente superado mesmo depois de ter andado várias vezes. Por um breve período achei que tivesse medo de palhaços, mas aí assisti a um espetáculo de circo e percebi que não. Às vezes tenho medo de falar em público. Tenho um medo de baratas que só admito ter se alguma aparecer em minha frente. Durante quatro anos da minha vida, tive medo do vestibular. A depender do último filme que tiver assistido, tenho medo do escuro.
Tenho medo do futuro, tenho medo do passado. Tenho medo do presente também. Tenho medo de ter medo, e de admitir que tenho.
Percebo que meus medos mudam. Às vezes aumentam, diminuem ou somem completamente. E quando eles desaparecem, novos medos surgem e substituem seu lugar. No meio dessa metamorfose, consigo ver também que alguns medos parecem me acompanhar desde sempre. O medo do fracasso é um deles. Eu nunca consegui lidar muito bem com meus erros, independente do contexto em que eles aconteçam. Pode ser um erro num contexto acadêmico em que eu não sei a resposta de uma questão, pode ser um erro num contexto acadêmico em que eu sei a resposta de uma questão mas marco a alternativa errada sem querer. Tenho receio de errar com as pessoas e de não saber lidar com a frustração que isso traz (frustração minha e dos outros). E cada um desses erros parece me diminuir. Por isso, muitas vezes, me sinto insuficiente.
Ultimamente, cada vez mais, tenho percebido a manifestação desse medo em minha vida. A todo momento meu cérebro tem me contado mentiras de que sou um incômodo, de que eu sou uma pessoa impossível de se conviver. Muitas vezes, eu acredito nisso. Busco evidências de coisas mínimas que aconteceram e que podem fazer de mim um problema na vida das pessoas, expando e exagero até que elas pareçam argumentos convincentes o suficiente para me condenar à sentença de ser um fardo. Então, apenas aceito isso. Sou um fardo. E tenho muito medo de ser.
Dizem que o medo é um mecanismo de proteção, que ele nos deixa em estado de alerta para nos salvar de eventuais perigos. Eu não me sinto protegida. Na verdade, sinto-me vulnerável. Ainda assim, tento entendê-lo. Em alguns raros momentos de coragem, tento dialogar com esses medos que se embaraçam e se confundem em minha mente. Procuro buscar o perigo iminente que eles querem evitar e procurar julgar se ele é real ou não. Muitas vezes não é, mas o caminho que tenho que percorrer para chegar até essa conclusão é tão longo e cansativo que, às vezes, sinto que não vale o esforço.
Mas eu sobrevivo. Busco maneiras de lidar com eles e de ter a mesma generosidade comigo que eu teria com um amigo. Tento fazer com que eles não sejam paralisantes ao mesmo tempo em que aceito que, por vezes, eles inevitavelmente serão. Respiro e sigo. Ou apenas sigo, mesmo que não consiga respirar.
Às vezes tenho medo de sobreviver. Mas sobrevivo mesmo assim.
