Paredes Postais

Naianne Cajueiro
Sep 6, 2018 · 5 min read
Valparaíso — Chile (2016)

Quem nunca parou para fotografar em uma parede grafitada, com alguma figura ou frase massa? Confesso que eu sou do tipo de pessoa que não resiste quando encontra uma! Ainda digo mais, aproveito para registrar o look do dia.

O que têm nessas paredes instagramáveis?
Arte urbana e grafites massas!

Por isso, eu e Gabriela Pessôa, juntamos nossa paixão por essas paredes (e a nossa amizade) e criamos o @paredespostais para publicar imagens de paredes com identidades, arte urbana e intervenções humanas da nossa cidade e do mundo.

A minha relação com Arte Urbana e Grafite já tem alguns anos. Eles foram elementos de estudos da minha monografia de graduação em Design, em 2013. Relembrando esse conteúdo, após quase cinco anos, eu achei interessante trazer algumas definições e fatos importantes sobre os temas.


Sobre Arte Urbana

No período pré-histórico, os caçadores-coletores davam formas às pessoas, animais, lutas, plantas, crenças, vitórias e tudo que fazia parte do seu cotidiano. A pintura rupestre é o primeiro registro dos fatos da sociedade na história da arte.

Comparar arte rupestre e a arte urbana, apesar da diferença de tempo que as separam, mostra a necessidade que o humano tem de se expressar no cotidiano em locais urbanos.

Arte Urbana é uma manifestação artística feita no espaço urbano que pretende atrair a atenção da população tratando de temas de cunho social, político, econômico e cultural da sociedade. Arte vem do latim “ars”, que se define como as técnicas e os meios para se criar, fabricar ou produzir algo. Urbano também vem do latim “urbanus” e significa pertencente à cidade. Está relacionado à vida e a população que nela habita.

“Há uma preocupação artística e uma mensagem a ser transmitida. Além de visar o engajamento cultural, de representar a cultura popular e de decorar a cidade. A arte urbana exercita a comunicação e interage com a população nos espaços urbanos, nos quais todos têm acesso” (BARBOSA, 2013).


Grafite

Grafite vem do italiano graffiti, plural de graffito e, refere-se aos desenhos. Graffito quer dizer inscrição ou desenhos de épocas antigos, toscamente riscados a ponta ou a carvão em rochas e paredes. O grafite usa suportes diversos: telas muros, paredes, pontes, viadutos e qualquer superfície porosa pertencente ao perímetro urbano. Para a técnica se utiliza de materiais como lata de spray, tinta à óleo ou acrílica, aerógrafo, giz pastel oleoso, pôsteres, etiquetas, entre outros.

O repertório estético do grafite é variado e lúdico; se utiliza de cores contrastantes. Compõe-se por elementos reconhecidos pela massa como personagens de quadrinhos, vídeo clips, vídeo games, artes gráficas. As estéticas são: expressão plástica e figurativa; formas definidas pelo traço do artista e da massa; natureza gráfica e pictórica; imagens reconhecidas pelo inconsciente coletivo; repetição das formas por um matiz, herdado do movimento pop art; e repetição do estilo e dos elementos característicos de cada artista, quando feitos à mão livre.

As características conceituais do grafite são: subversivo, espontâneo, gratuito, efêmero; discussão e denúncia dos valores sociais, políticos e econômicos com humor e ironia; permissão da interferência humana no espaço urbano a fim de discutir, recriar e imprimir sua mensagem na arquitetura da metrópole; forma de democratizar e desburocratizar a arte, aproximando todo homem a produzir arte em um espaço aberto.

“O grafite é uma representação artística que transmite mensagens de uma sociedade de forma acessível por estar num ambiente público” (BARBOSA, 2013).

O grafite começou a tomar suas formas na cidade de Nova York, no final de década de 70. Mas a manifestação urbana só ganha notoriedade a partir da década seguinte. Alguns dos nomes importantes do grafite norte americano estão Keith Haring (um dos pioneiros a levar o grafite das ruas, becos e guetos para galerias, museus e bienais de arte) e Jean-Michel Basquiat (o primeiro afro-americano a ter acesso às restritas cenas de artes plásticas nova-iorquinas).

No cenário europeu, os grafiteiros ganharam espaço e foram responsáveis pelo movimento “Arte de Rua” na década de 80. Blek Le Rat foi o pioneiro na arte de rua francesa. Ele foi uma forte inspiração para o londrino, Banksy que começou fazendo intervenções urbanas com stencils nas ruas de Londres. Hoje, ele é um dos artistas urbanos mais conhecidos no mundo.

No Brasil, o grafite surge nos anos 60 com grupos de universitários que pichavam os muros com mensagens contra a ditadura. Nos anos 70, as gangues demarcavam seus territórios nos becos, muros e trens com o seu nome. O grafite só foi reconhecido como expressão artística no país no século 21.

O pioneiro do grafite brasileiro é Alex Vallauri. O dia do Grafite é comemorado em 27 de março em sua homenagem. Da cena atual podemos destacar os irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo, conhecidos como Os Gêmeos; e o Eduardo Kobra (que se considera um muralista). Se esquecer de mencionar o recifense Galo de Souza, que grafitou grandes muros da cidade.


Grafite x Pichação

Quando se fala em grafite, é importante salientar a diferença entre ela e pichação. O nome vem da Idade Média quando os religiosos da época escreviam com piche insultos nos muros das casas de seus desafetos. A pichação causa danos aos patrimônios públicos e privados e é considerado crime.

Na legislação brasileira, o grafite e a pichação em edifícios e monumentos urbanos eram classificados como atos criminosos segundo a Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998. A legislação considerava crime grafitar, pichar e conspurcar (sujar, manchar) mesmo com a autorização do proprietário do muro ou do estabelecimento comercial, sob a alegação de que a prática deixava a rua fora dos padrões comuns para a sociedade. Após treze anos, o artigo nº 65 foi reformulado e o grafite passou a ser reconhecido como expressão artística, enquanto pichar e conspurcar continuam sendo considerados crimes.


Fica a dica!

Os documentários “Exit through the gift shop” e “Graffiti wars” são ótimos para quem quiser saber mais sobre a história do grafite, dos seus personagens e das ‘tretas’ que rolaram.


Paredes Postais

O @paredespostais surge para estreitar, novamente, a minha relação com a Arte Urbana. Que venha arte, cores, grafites, interação e muitas paredes postais pelas ruas!


Fontes

BARBOSA, Naianne. O grafite vira moda: A arte de Galo de Souza como inspiração para artefatos de moda da Zalooka. Caruaru: Universidade Federal de Pernambuco/Centro Acadêmico do Agreste, 2013.

GITAHY, Celso. O que é graffiti. São Paulo: Brasiliense, 1999 (Coleção Primeiros Passos).

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