Confesso.
Sempre que alguém me pergunta por que escrevo, dou uma justificativa nova. Há vergonha em admitir para os outros que o faço numa tentativa de me auto-esclarecer, por que por fora a casa está toda organizada, cama feita, guarda-roupa arrumado, louça em dia, mas aqui dentro reina um pandemônio, pensamentos azucrinando dia & noite, noite & dia, como se eu estivesse em meio a orquestras de vuvuzelas em plena copa do mundo, o estardalhaço desesperador, uma maldição da minha própria cabecinha que não descansa.
Na virada do ano me meti a fazer metas em um caderninho, com letras miúdas e a lápis (o que pensando bem é um indicativo de que talvez tenha encarado esses objetivos de forma branda demais). A primeira delas, icônica: Stop over-analyzing. Me pergunto quantas vezes já me prometi isso, me coloquei essa meta. E estamos aqui, nesse alvoroço sem sucesso.
Over-analyzing, over-thinking, meu nome do meio é ansiedade. Logo quem está sempre aconselhando todos a não sofrer por antecipação, enquanto vive a imaginar situações e possibilidades. Criar é meu vício. Fantasiar realidades melhores, piores, mas que consigam acalmar os rompantes famintos de entendimento que me acometem.
Algo que a maturidade tem me trazido, graças aos céus, é lucidez quanto ao meu próprio manual de instruções. Enfim saquei: minha maior necessidade é entender. Sempre foi. Panorama é o alvo. Ligar pontos, criar teias complexas, validar prós e contras, sem apego ou julgamento de valor. Dançar agarradinha com o holístico, encontrar o sentido. E entender é das tarefas mais difíceis quando estamos tratando com gentes e seus universos íntimos, seus medos de botar o pau na mesa e se fazer um lago límpido para mergulho. Aí é quando entra o imaginar, o pressupor, o desvendar. O Xeroque rolmes curioso, meticuloso, fritando em ideias mirabolantes apenas pra, quem sabe, ficar mais fácil conviver e lidar uns com os outros. Panorama serve pra isso, pra dar tranquilidade em saber onde se está pisando. E ter cuidado. Põe cuidado aí.
O fato é que alguma coisa acontece com meu coração, é um padrão que me custa caro. Fico me perguntando quando exatamente esse padrão surgiu, se esteve aqui comigo o tempo todo ou se é mania do pesar da idade. No entanto, é padrão, quando o encantamento acontece não saber adiar, se posso pular de cabeça. E aí, depois que a tragédia já está anunciada nas primeiras linhas do primeiro parágrafo, Santiago Nasar levantando as cinco da manhã, vem o brincar de racional, auditoria dos sentimentos, vistoria na casa, e dá-lhe over-thinking. E sono perdido. E falta de foco. E angústia.
Então escrevo para organizar as ideias. Escrevo como um discurso, pra me convencer no que, por vezes, quero acreditar e pra lá do meio do processo perceber que não dá pra acreditar só por querer. É um esvaziar, vomitando frases inteiras para não sucumbir a loucura do pensamento que dá rasantes em tudo que é espaço da mente. Haja insumo para as minhas aspirações.
