Um boquete, um copo d’agua e responsabilidade afetiva

Conheci o famigerado principezinho na tenra infância. Tinha rosa, tinha raposa, tinha planeta, era inevitável me interessar. Sempre tive uma queda por inputs para a minha imaginação e pelo fantástico. Naquela época o conselho da raposa fez tanto sentido. Então veio o cinismo com a idade e eu já não me atrevia a proferir as citações sem risinhos irônicos ao final. Eternamente responsável é muito tempo até para mim, que sou um exagero ambulante.

Quando penso em responsabilidade afetiva a primeira coisa que me vem a cabeça é o principezinho. Quando você cativa algo, de alguma forma está sendo conivente com um começo de relação. Não precisa do peso da eternidade, mas há um compromisso mínimo em cuidar, que nem todo mundo tem. Quase ninguém, diz minha experiência nos últimos tempos.

Dia desses fiz aniversário de solteirice. É estranho dizer, geralmente se associa a comemorações e digamos que não foi exatamente como me senti quando me vi solteira após quase 10 anos. Não vem ao caso tratar do trauma a que sobrevivi, isso é assunto pra outro exorcismo, tricô, café e prosa. Me interessa chafurdar na lama dessa tal liberdade.

Eu reclamo. É parte da minha personalidade, talvez. Devido ao signo, decerto muita terra no mapa ou a lua em escorpião. Levou-me mais de um semestre pra começar a viver como solteira e lamentos todos os dias. Ainda não garanto que entendi o que se passa, mas tenho tentado. E me vi envolvida com gentes, muitas gentes, não tanto quanto pode parecer dizendo assim, porém gentes. E essas gentes, pessoas que surgiram ou pelo acaso ou por procura, oferta e demanda, tiveram seu valor. Talvez o que falte para muitos é essa noção de valor que as pessoas agregam nas nossas vidas. Muitas das vezes parece que o valor só é válido se for extremo. A riqueza que há em provocar um riso em alguém não é quantificada. Um jantar agradável. Um selinho sem pretensão. Nada presta. Só presta se ficar ali, construir laço, casa, lar. O que presta é o muito. O pouco se perde.

Pra lá da maioria dos que passam pelas nossas vidas não oferece o seu máximo. Eu admito, me poupo sempre que posso. Há desgaste e há também freio. Mas o que entreguei de valor esse ultimo ano foi o que de fato pude dar nos determinados momentos. Infelizmente. É terrível frustrar as expectativas de quem espera um todo e recebe um apenas. Um somente. No entanto pior é sair a francesa e deixar o nebuloso tomar de conta.

Expectativa. Do latim, ex(s)pectāre esperar, desejar, ter esperança. Aquilo que geralmente se deixa por conta do outro lidar, na falta da tal responsabilidade afetiva. Termo manjado, meio batido já. Favor não confundir com culpabilização. Ter responsabilidade afetiva com o outro não implica em se assumir como monstro da relação, preto no branco, vilão e mocinho, vítima e algoz. Ser responsável é sobre se esforçar para não ser um babaca. Se você pode conversar, converse. Se você pode esclarecer, esclareça. Se você é um jogador, assuma a posição. Pode dar preguiça, geralmente dispõe de energia, tato e de uma coragem que quase ninguém tem, no entanto é necessário e é justo. Tratar o outro como ser humano digno é mais do que justo.

Criar expectativa com o outro é quase como respirar, quase se nasce sabendo. Demora para um se dar conta de que entrou nessa espiral ao declínio. Cada um alimenta como quiser, pouca coisa boa pode sair disso. Em um romance tudo tem potencial pra virar expectativa, vale imaginar, vale interpretar, vale procurar os sinais certos, partir de pressupostos, comparar, sonhar. Pouca maldade, muito do instinto. Se enganar um pouco vai bem, as borboletas no estômago. Mas quem tá ali junto, e não é mero crush, não é platônico, quem tá ali te olhando nos olhos e sucumbindo a salivas e suores, não precisa ser eternamente responsável pelo cativo, mas momentaneamente sim. É sobre ajudar o outro a não nutrir os monstros pessoais que nos devoram as entranhas, arranham as paredes das vísceras, perfuram corações.

Daí que dizem: A dor é inevitável, o sofrimento opcional. A iluminação infelizmente não chega a todos imediatamente após repousar embaixo de figueiras. É uma luta diária não se entregar ao masoquismo fácil, um tanto de vigilância e de sabedoria para reconhecer as nossas próprias pegadinhas do Malandro diárias. E há sim um requinte de crueldade em se eximir da expectativa do outro numa virada de olhos. Não sejamos cruéis.

Por vezes me vejo num vício de justificar a inabilidade social alheia para excluir a possibilidade de sociopatia, um papel que sequer me cabe. Sim, é árduo ser franco, expor as próprias verdades, lidar com olhares trêmulos, lacrimejos, as vezes gritos, as vezes argumentos. Porém necessário, tal qual imposto de renda. Eu nem sempre consigo, tento. (ambos, ter responsabilidade e declarar a receita). No fim responsabilidade afetiva é sobre preencher lacunas. Os dois lados precisam fazer a sua parte, os que dizem, os que ouvem. E lembrar que somos adultos, não somos crianças… apesar do principezinho.