Meu medo de avião

Quando eu era pequena não tinha medo de avião. Ficava aterrorizada era com a figura do lobo mal em um livro da Chapeuzinho Vermelho, de uma coleção chamada Conte outra Vez. Parado, com os pelos eriçados e os dentes à mostra na porta do quarto da vovó, ele tinha um ar meio de predador, meio de louco. Um psicopata espreitando por detrás da porta. Às vezes, deitada e já pronta para dormir, me vinha à cabeça essa mirada maligna e eu ficava em pânico. Imaginava o lobo esticado debaixo da minha cama e me mantinha imóvel, toda tensa. Prendia o ar, para que ele não escutasse a minha respiração. E não sei como, acabava adormecendo.

Quando eu era pequena, não tinha medo de avião. Pelo contrário. Meu momento favorito era a decolagem. Gostava de sentir o tranco das rodas se desprendendo do chão e esperava ansiosa por aquela vertigem que cutuca o fundinho da barriga e faz o bumbum afundar no assento. Ficava apavorada mesmo é com o fundo da piscina do meu prédio. Quando abria os olhos debaixo d’água e só enxergava o azul, que dissolvia as linhas dos azulejos à medida em que se intensificava, imaginava o que que estaria lá no fundo. Criaturas horripilantes, com certeza, ocultas nas profundezas das águas cloradas.

Mas não tinha medo de avião. Na verdade, me empolgava com cada detalhe: do check in à espera no terminal. Da comida toda arrumadinha em mil potinhos e com gosto de geladeira até a televisão individual com filmes e séries mil. Levava livros, lápis de cor… Nada parecia bom o suficiente para aproveitar ao máximo aquele tempo entre as nuvens. Tinha medo mesmo era de ficar sem a minha mãe. Muitas vezes, enquanto estava na escola, imaginava que nunca mais a veria e chorava de saudade antecipada pela falta que ela me faria pelo resto da vida. Eu sabia que ela estava no trabalho, era só isso. Mas por um alguma razão eu acreditava que nunca mais nos veríamos. E ficava apavorada.

Hoje, não tenho mais medo do lobo. Nem de nadar até o fundo da piscina. Também não acho que cada vez que eu encontrar minha mãe vai ser a última (embora tenha certeza que o medo de perdê-la vai ser pra sempre). Mas sinto as pernas bambearem assim que passo pelo portão de embarque. Tudo mudou quando passei por duas experiências de voo bem ruins.

A primeira aconteceu voltando dos Estados Unidos. Depois de horas de atraso, troca de aeronave e mudança de rota, finalmente nosso voo ia sair de Detroit rumo a São Paulo e eu, exausta, peguei no sono antes de o videozinho com as instruções se segurança terminar. De repente, escutei aquele chiado de desligamento, uma bufada de motor parando e luzes se desligando. A energia acabou. Acordei em pânico, achando que já estávamos no ar e o avião ia cair por causa do blackout. Meu namorado, pacientemente, repetiu algumas vezes que ainda estávamos em terra firme. Mas meu desespero era tamanho que levei um tempo para assimilar e, enquanto isso, continuei gritando que íamos cair.

A segunda foi em um voo interno que peguei na Tailândia. Tive a brilhante ideia de voar na época das monções e o resultado foi que me senti dentro de um liquidificador a milhares de quilômetros do chão. O avião começou a balançar muito e perder altitude em quedinhas curtas, até inclinar o bico para baixo e começar a cair — pelo menos foi isso o que eu achei na hora. Foram uns 10 segundos de pânico em que eu só consegui pensar que minha mãe não ia nem conseguir enterrar meu corpo. As pessoas começaram a gritar, eu comecei a gritar e a menina que estava sentada ao meu lado vomitou. Foi péssimo.

Depois desses episódios, entendi perfeitamente por que o papa beijava o chão.

Desde então, passei um bom tempo em uma piração de tenho-certeza-que-vou-morrer-da-próxima-vez-que-subir-em-um-avião. Alguns pesadelos com acidentes aéreos (geralmente nas vésperas de alguma viagem) e previsões do apocalipse depois, percebi que a fobia tinha começado a me consumir mesmo em terra firme. Ficava com arrepios só de olhar um avião no céu e pensar que eu poderia estar a bordo. Sentia as mãos tremendo e a barriga doer só de pensar em escutar o aviso de “apertar os cintos”. E me imaginava constantemente sacudindo com turbulências violentas mesmo deitada na minha cama. Percebi que a coisa estava evoluindo perigosamente e comecei a pensar o que poderia fazer para freá-la. Além de meu trabalho exigir deslocamentos de avião vez ou outra, eu AMO viajar. É umas das razões da minha existência. E não aceito a possibilidade de perder a chance de conhecer novos lugares por ter não psicológico para voar. Até porque, como já relatei, eu sempre amei estar entre as nuvens.

Então, comecei a fazer o que a maioria das pessoas na minha situação faz: buscar uma explicação lógica para tentar desqualificar a fobia. Basta dar um Google em “medo de avião” para se deparar com listas, truques, dicas de como se preparar antes do voo, conselhos de psicólogos e claro, muitas estatísticas para mostrar que não faz sentido nenhum entrar em pânico por estar a 20 mil pés (ou mais) do chão. Comecei a me apegar nos números — as chances reais de acontecer um acidente são de 1 em 2.783.874 -, procurei as zonas mais comuns de turbulências para me preparar (e saber quais trechos evitar), pesquisei quais são os lugares mais seguros dentro do avião (estranhamente, onde em que eu me sinto mais protegida é o banheiro, talvez por ser bem apertado) e até fui atrás dos percentuais de sobrevivência em caso de acidentes (o que definitivamente não recomendo).

Por um tempo me agarrei a todas essas informações. Repetia mentalmente os números para mim mesma assim que pisava no aeroporto, em uma tentativa de acreditar que as chances de dar merda são pequenas. “Avião é mais seguro que carro”, dizia a mim mesma. “1 em 2.783.874”, repetia em mantra…

Mas nada disso me ajudava a controlar minhas reações quando durante aquela balançada na decolagem ou quando juro que ouvi um barulho estranho no motor. Pelo contrário. Minhas mãos continuaram suando, meu corpo, tremendo, e meu coração, a milhão.

Foi em um desses episódios de pura angústia que entendi o que estava fazendo de errado. É fácil usar a razão para esmagar as fantasias e medos infundados. Com o lobo da chapeuzinho ou com o monstro no fundo da piscina, ser racional é o melhor remédio. Não tem fantasia que resista. Mas com avião não dá. A queda é uma possibilidade concreta. Sim, pode acontecer. E acontece vez ou outra. Mas, por incrível que pareça, aceitar isso é o que tem me ajudado a manter a calma.

Me dei conta de que ao procurar números e estudos, na verdade eu não buscava me tranquilizar: só queria uma garantia. Usava as estatísticas para ter certeza de que meu avião não vai ser aquele um em mais de 2 milhões. Que se sentar no lugar mais seguro vou estar protegida. Que tudo vai ficar bem. Que não existe espaço para o erro. Mas existe.

O medo estava me fazendo sofrer por tentar controlar algo que não está no meu controle — e nem no de ninguém. Não existe acordo de imunidade. Não existe garantia. Sim, pode acontecer do avião cair. Assim como pode acontecer do carro bater, do médico apresentar um diagnóstico ruim, do chão começar a tremer, de ir comprar pão e não voltar para casa nunca mais. A lista de tragédias é longa, basta ler os jornais.

A questão é que não dá para passar a vida enrolado no plástico bolha. Não vou deixar de viver — nem de voar — só porque ainda fico aterrorizada quando o avião balança. Vou ter medo todas as vezes. Sei que vou. Mas em vez de me retrair inteira tentando me agarrar aos números, decidi que vou simplesmente me deixar levar. Da última vez que voei apenas fechei os olhos e repeti para mim mesma: não tem nada que eu possa fazer.

É claro que o medo ainda estava lá. Mas me senti aliviada de aceitar que na vida a gente não é piloto, é só passageiro. A verdade é que somos pequenos demais perto do céu.

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