O feminismo machista e a problematização das princesas Disney

O feminismo estourou na internet há algum tempo e sempre tem gente pra refletir, problematizar, questionar todo tipo de mídia baseado nisso. E isso é ótimo — é preciso que a gente reflita se nossas personalidades estão sendo glamourizadas ou ridicularizadas nas telas, e raciocinar o quanto isso pode nos prejudicar: seja a construção da nossa autoimagem ou de como outros nos vêem.

E se tem um assunto atemporal na internet, esse é a Disney. Particularmente as princesas da Disney. Tem fanart delas de tudo quanto é jeito, tem análises delas de tudo quanto é jeito. Nós nunca nos cansamos das belas e poderosas princesas da Disney… Nem que seja pra criticá-las e querer nos livrarmos dos arquétipos machistas delas (como se elas fossem a única coisa que definisse a infância, mas tudo bem. Elas também foram importantes, pois são representações.).

Essa problematização, porém, às vezes passa dos limites e acaba atirando no próprio pé. Se tem uma coisa que me irrita nesses posts que colocam as princesas Disney pra baixo é como eles são reducionistas com as personalidades das princesas. Vamos combater o machismo? Vamos! Mas precisamos desumanizar todas as características das personagens mulheres apenas para criticá-las por estereótipos? Isso não seria fazer exatamente o que os (e as) machistas fazem com a gente?

A Bela (A Bela e a Fera) é um dos exemplos preferidos do pessoal pra reduzir às cinzas. A Bela é uma garota cujo sonho é sair da vida do interior, viver as aventuras que ela tanto lê nos livros dela e sonha. Bela é uma garota que não dá bola para o homem mais poderoso da cidade, pois o acha um ignorante — e ele de fato é, e tenta a todo custo eliminar a personalidade da garota para ter uma moça bonita e obediente para procriar. Obviamente ela acha isso absurdo e segue sua vida sonhando com mais.

Do outro lado da história da Bela tem um monstro que a aprisiona até que ela se apaixone por ele, e muitos alegam que essa é uma história de síndrome de Estocolmo. Mas será que as pessoas sabem o que é síndrome de Estocolmo?

Síndrome de Estocolmo é quando uma vítima de pressão psicológica e abusos passa a ter uma relação de afeto com o seu abusador. Em muitos casos isso ocorre como uma forma de negociação, um sistema de defesa feito para que o abusador negocie ou amenize seus abusos.

E isso definitivamente está longe de ser o que a Bela faz durante todo o filme. Quem assistiu lembra que a Bela quebra todas as regras impostas pela fera: ela não janta com ele, ela sai do quarto depois que ele proíbe, ela vai até a cozinha depois que ele a proíbe de comer, ela vai até a ala leste quando ele explicitamente proibiu e quando ele desiste e manda ela ir embora de uma vez por todas, ela vai, mas ao vê-lo ferido após tentar protege-la, ela volta à sua própria vontade.

A Bela teve a oportunidade de ir embora e ver seu abusador morto, mas preferiu voltar. Não por questão patriarcal, mas porque ela é uma pessoa com uma moral forte o suficiente para voltar atrás e cuidar do monstro que a protegeu para que ela fosse embora viva — que ela já havia enfrentado e não tinha o menor medo. E também há a cena onde ele grita com ela dizendo que os remédios dela doem, e a resposta dela é simples: se impor e dizer que ele precisa disso, e que ele parasse de chorar, em outras palavras.

Isso não é síndrome de Estocolmo. E a partir daí ela passa a conviver harmonicamente com ele, não por medo, mas apenas porque ela se impôs e ele respeita os desejos dela. Ele muda após ela deixar bem claro que enquanto ele continuar sendo do jeito que é ela não vai nem olhar na cara dele. E só aí, quando não há mais abusos, ela se permite desenvolver algum sentimento por ele.

“Ah, mas é muito conveniente ela se apaixonar por um monstro rico! Caiu na dele após ganhar uma biblioteca.”. Ué, e mulheres são proibidas de se apaixonar por pessoas com dinheiro? Isso é um pensamento machista: se a mulher se interessou pelo homem, é por causa da fortuna dele. E não é bem assim, nem no caso da Bela. Sim, ele dá a biblioteca pra ela, e ela de fato se acabaria de ler ali, mas a relação deles se torna mais forte quando ela senta com ele e o ensina a ler. Uma mulher, simples, vinda do interior, ensinando o príncipe-monstro a ler, mostrando sua inteligência com carinho e dedicação. Uma professora, ali, um gesto forte que os uniu ainda mais.

No final do dia o monstro, já se perguntando se ela realmente gosta dele ou só está ali por obrigação, a liberta. E ela vai ver seu pai, pois morria de saudades dele, e queria dizer que estava tudo bem. Ela vai por vontade própria, e volta, também, por vontade própria. Não há Estocolmo, pois não é uma negociação: todas as atitudes dela de ir e de ficar foram decisões que ela tomou considerando seus próprios sentimentos. Antes, num momento de horror e raiva, e depois num momento de amor (pelo pai). E as decisões de voltar ao castelo também foram de sentimentos próprios dela, e não negociações.

A Bela e A Fera está longe do Estocolmo, e é uma história sobre amor e liberdade, pois a Fera decidiu que não dava mais para mantê-la à força no castelo pois as saudades do pai deixavam-na triste. Ele respeitou os sentimentos dela mesmo que isso implicasse que ele poderia perde-la para sempre, e tornar-se monstro para sempre. Mas há quem diga que é uma história machista e distorça todas as lições passada nessa história apenas para validar um feminismo que reduz as personalidades das mulheres à personagens sofridas que se libertam por serem interesseiras.

O mesmo acontece com Ariel (A Pequena Sereia): ela passa metade do filme cantando e se lamentando sobre como queria uma vida longe do mar, colecionando artefatos terrestres, aprendendo com uma ave besta o que eles significam, arriscando a vida em navios velhos e perigosos para coletar um garfo. O mundo lá em cima era maior que toda a sua vida no mar desde o início do filme, quando ela é atacada por um tubarão para coletar coisas banais ou larga o coral do Tritão, o homem mais poderoso do mar, pra colecionar suas “velharias”.

O mundo humano é fascinante pra ela, e o Eric é muito mais do que “um macho que ela se apaixonou e largou a boa vida”: ele é a oportunidade dela de realizar seu sonho de sair do mar. Ela não sacrifica sua voz pelo seu homem: quem diz isso é a vilã, pois este é o pensamento da vilã. E há quem, igual a Úrsula, reduza a pobre Ariel e todos os seus anseios e sonhos a um homem e depois a culpe por sua própria história. Como ser feminista se assistimos as personagens femininas e as desprezamos por suas escolhas, ignorando que elas são pessoas antes mesmo de seus romances surgirem?

No fim de Ariel, a culpam por quase destruir o reino do mar por causa de um macho. Novamente, não foi: ela gostaria de conhecer o mundo lá fora, mas seu ponto principal de partida não foi sua paixão por Eric. Foi depois seu pai destruir, desrespeitar e desprezar tudo o que ela tanto estimava e toda a sua coleção que demorou anos para montar. Após esse abuso de poder do homem — que reconhece seu exagero — ela se sente encurralada e que precisa fazer uma escolha definitiva, ou ficará pra sempre aprisionada no mar. Não foi o Eric, mas o pai dela que tornou crucial a sua escolha de deixar o mar, e pagar o preço com sua voz. Ela de certa forma também enfrenta o patriarcado, ainda que por amor à terra e, eventualmente, a um homem. Novamente: mulheres só serão feministas se não se apaixonarem por homens? Não conta em nada o fato dela ser apaixonada pelo mundo humano antes de se apaixonar pelo Eric?

Cinderela provavelmente é a mais menosprezada de todas. Uma mulher simples, doméstica a vida inteira de suas irmãs e madrasta, cujo sonho não era conseguir um príncipe por ser bonita, mas ir ao baile e dançar em um vestido bonito. É tudo o que ela pede à sua fada madrinha. Ela não pede o príncipe, não pede vingança, não pede uma vida melhor, apenas uma oportunidade de dançar e ter uma noite pra se lembrar para sempre.

O príncipe vem depois — apaixonado por sua beleza — mas em nenhum momento ela percebe que ele era o príncipe. Seu sonho é simples, como uma pessoa que viveu uma vida limitada pela sua própria família. Mas sempre vai ter gente pra reduzir a história da moça a uma mulher bonita e interesseira.

Não que essas histórias sejam exemplos de o que há de melhor no feminismo — claro que elas se encaixam de alguma forma no patriarcado. Mas tem de se reconhecer que elas também não são apenas aspectos negativos. Uma famosa por seu feminismo é a Mulan: é inegável que ela é uma personagem incrível, mas será que só somos incríveis se desenvolvermos papéis masculinos? Se “nos tornarmos um homem”? Não dá pra ser incrível e poderosa e também fazer parte do universo dito como “feminino” — que, aliás, é um contexto bem questionável? Só pode uma coisa ou outra, do contrário você é uma princesinha fútil cuja história deva ser questionada e desrespeitada?

Merida (Valente) cai nesse mesmo esterótipo: é refrescante ver uma garota tomboy que não quer casar, mas a própria também comete erros próprios que são ignorados em prol do feminismo. Ela também é uma personagem muito questionável, se pararmos para pensar, sobre em como ela quase sacrifica a vida de sua mãe para fazer valer suas vontades — e sua mãe, personagem muito forte ainda que se encaixe nos padrões patriarcais, também reconhece que a machucava com seus meios tradicionais e, ao seu modo, luta com ela. Mas pouco se fala da rainha Elinor, responsável por praticamente todo o reino e estratégias políticas, enquanto o pai só vai pra guerra e conta grandes histórias de violência.

Elsa (Frozen) é vista como exemplo de feminismo porque não se casa com um homem: mas será que foi justo da parte dela abandonar sua única família e o reino nas mãos de uma garota infantil e sem conhecimento nenhum do que se passava, prestes a casar com um homem que acabou de conhecer? Tudo isso para fazer um sapatinho com salto de gelo e um belo vestido e gritar como ela está melhor sozinha, ainda que a solidão trouxesse tanto sofrimento? Ou será que isso também não é reduzir a personagem?

Será que não dá pra respeitar as histórias das mulheres do passado, que sempre foram muito mais do que apenas estereótipos antes mesmo do movimento feminista existir, e perceber que somos pessoas e que sempre fomos incríveis aos nossos modos? Que há outras formas de lutar por seus direitos ainda que elas estivessem em um contexto bem menos libertador? E aceitar que somos personagens imperfeitas — da cinderela à Elsa — e que tá tudo bem em sermos, pois não somos bastiões da perfeição?

Até onde eu saiba o feminismo é sobre revindicar nossos direitos, não sobre sermos exemplos ideais de seres humanos. Tá tudo bem termos errado antes, tá tudo bem em errarmos hoje. Acredito que o que importa é que todas essas princesas, assim como nós, estão tentando à sua própria forma.