Conhecendo por dentro
Condomínio Princesa Isabel, uma moradia popular na região central de Porto Alegre

Uma faixa de 11 m de largura por 160 m de comprimento, um tecido urbano já típico e antigo de Porto Alegre, com edificações de até quatro pavimentos. Este é o Condomínio Princesa Isabel, localizado na esquina das avenidas Princesa Isabel e João Pessoa. Se você já pegou ônibus no sentido bairro centro na Azenha, provavelmente passou na frente. Quem olha de fora não imagina como é por dentro e nem como vivem os moradores. Não é comum uma moradia popular localizada em uma das zonas mais privilegiadas da Capital.
No apartamento 401, do bloco 14, de portão rosa vive Rosane da Silva. A sua história se confunde com a do Condomínio. Ela reside no local antes mesmo dele existir. Parte do terreno era do seu pai, Angélico Francisco da Silva. Na época era a Vila do Terminal, assim batizada por ser “vizinha de porta” do terminal de ônibus Azenha.
O pátio era grand, desde onde, hoje, fica o salão de festa do condomínio até o fundo que dá para a Avenida Bento Gonçalves. Ali morava Rosane, o marido Carlos Bastos, as três filhas e seu pai: seu Angélico. Ele vivia em uma casa separada. Foi o primeiro a chegar por essas bandas onde, na época, só tinha mato.
— Quando o falecido velho ganhou o terreno do meu padrinho a extensão era desde a João Pessoa. Não vendo necessidade de tanta terra, pegou apenas uma parte. Após, foram surgindo outras famílias. Um barraco aqui e outro ali. Mas o nosso terreno era o maior — conta, Rosane.
O projeto do condomínio é fruto do Orçamento Participativo de Porto Alegre com verbas exclusivamente públicas. Foram gastos cerca de R$ 10 milhões. O processo começou por volta de 1990.
— Um dia, eu vejo um pessoal da prefeitura, eu trabalhava na Secretaria Municipal de Obras e Viação (Smov), perguntei o que eles faziam aqui. Disseram que era um levantamento topográfico e que seria construído um condomínio. Na época estava fazendo uma casa de concreto, parei de construir — disse, Carlos.
O terreno do Silva foi desapropriado pela prefeitura. O que causou conflito. Apesar de ser área verde ele pagava IPTU e tinha usucapião. Entrou na Justiça e fez um acordo.
Na mesma região existia a Vila Zero Hora, na antiga Rua Cabo Rocha. O projeto não visava apenas os moradores do local. Foi cogitado que esses fossem morar na Zona Norte. Eles não queriam sair da Cabo Rocha e criaram uma associação para garantir que permaneceriam.
— Entre 10 que vivem aqui hoje, uns três são da Vila do Terminal, o resto é da Cabo Rocha — explica,Rosane.
Um projeto de moradia feito para pessoas periféricas, numa zona central, sofreu preconceito e resistência dos residentes do entorno. A associação dos moradores da Santana questionou a prefeitura.
— Muita gente não queria que nós estivéssemos aqui. Já ouvi muitas pessoas dizerem que esses “relaxados” não merecem um apartamento nessa zona. Na verdade os brancos não querem preto e pobre na volta — afirma, Bastos.
Com a construção do condomínio o comércio em volta muitos fecharam e pessoas também se mudaram.
— As pessoas tinham e ainda têm preconceito com nós moradores. As escolas da região chegaram a negar vaga para alunos do Princesa Isabel – conta, Rosane
São 230 apartamentos, de dois a três dormitórios, com tamanho de 50 a 60 metros quadrados. Os primeiros 58 foram entregues em fevereiro de 2005 e o restante em outubro de 2006. Os residentes assinaram contrato de direito real de uso válido por 30 anos e renovável ao final do período. O valor mensal a ser pago varia de R$ 17,50 a R$ 30.
— Esse condômino é a menina dos olhos do PT. Em matéria de obra de construção de moradia popular a melhor foi essa — afirma, Carlos
O local também possui creche, praça, associação comunitária, salão de festa onde são realizados cultos religiosos pentecostais e tem time de futebol para as crianças. Rosane e Carlos foram os primeiros moradores do condomínio, não se imaginam em outro lugar. As três filhas do casal têm formação técnica e Superior.
— Quando minha filha mais nova, Suellen, passou na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Ciências Contábeis, eu coloquei uma faixa Bixo para lado onde passa os ônibus. Foi a primeira no condomínio. Um dia estou no ônibus e uma senhora diz:
— Não é só maloqueiro que tem aí, o pessoal também estuda — conta, Bastos.
Quem passa pelo portão ao olhar a volta vê pessoas tomando chimarrão e crianças brincando. Eles vivem como todas as outras que não moram ali.
