Soldadas 24 por 7

Recentemente temos visto filmes que mostram alguns efeitos psicológicos comuns dentre os soldados que voltam da guerra. Eles não descansam, continuam atentos, como soldados, durante todo o dia, 7 dias por semana. Lembro-me de algumas cenas em que, ao serem despertados de surpresa, se colocam em posição de ataque contra quem está do lado. Já viram a cara das esposas assustadas enquanto as mãos do marido envolvem seus pescoços?

Não vou tecer argumentos para desmerecer aqui qualquer luta bem intencionada das mulheres por direitos e igualdades perante o sexo masculino, das quais eu também sou ávida defensora, mas cada vez mais sinto que muitas delas sacam as armas diante do movimento mais inocente. Ou até mesmo, do mais carinhoso.

A mais letrada sobre o assunto, certamente não sou. Mas acho interessante como que, nesse momento de madura primavera feminina, ainda se deixe de lado as questões que nortearam o comportamento masculino ao longo dos anos. Desde sempre foram encorajados a pensar que deveriam ser os fortes. Os que proviam, protegiam. Os que não poderiam chorar ou demonstrar sentimentos de forma muito livre, para não serem ridicularizados e chamados de afeminados. É preciso escrever aqui sobre os castigos absurdos dos quais os homossexuais foram e ainda são vítimas?

Vamos falar de Brokeback Mountain, filme que apresenta uma cena que revela a educação conservadora masculina. O pai do personagem de Heath Ledger o leva para um passeio de cavalo pelas montanhas. O objetivo é mostrar ao filho o corpo de um homem que apanhou até a morte, pois ser homossexual envergonhava os homens “de verdade”.

Estas questões masculinas valem também para os heterossexuais. Colin Stokes, comunicólogo americano, revela sua teoria de como filmes como ‘Star Wars’ ensinam a masculinidade de uma forma um pouco deturpada. E como filmes recentes como ‘Valente’, são capazes de corrigir um pouco a educação dos filhos. Assista aqui:

http://www.ted.com/talks/colin_stokes_how_movies_teach_manhood?source=facebook&language=pt-br#t-62371

Sim, vemos dicas desse condicionamento do exemplo mais assustador à comédia, quando um dos personagens do seriado Friends, Joey Tribbiani, o conquistador bobão, dá dicas ao amigo sobre mulheres. Em determinado momento da conversa ele diz:

“Be a man, just stop calling her.”

Conheço homens que brincam que namoro nunca dá certo, porque ou a relação termina ou termina em casamento. Pois bem, este é um pouco do outro lado. É importante conhecê-lo, especialmente porque este é o lado que moldou a sociedade desde sempre.

Mas deixando de lado homens criminosos que precisavam estar na cadeia, não podemos olhar o outro sexo como se fosse o sexo-vilão. Assim como as mulheres foram condicionadas a acharem-se inferiores, eles também foram condicionados, mas para acreditarem-se superiores. E diante de uma inexpressiva presença da mulher na sociedade, assim nasceu o conceito de um Príncipe Encantado, sensível, romântico, engajado no amor, que resgata a mulher e coloca-a no pedestal tão por ela merecido. Nós mulheres crescemos com esse sonho, não somente do homem perfeito, mas principalmente, da magia do amor.

Com a maturidade e a constatação de que o Príncipe do desenho não existe no mundo real, a donzela, hoje ciente de que foi condicionada, prega a liberação destas amarras. Acredita que a mulher se basta sozinha e não precisa de Príncipe nenhum (ou Princesa, dependendo dos gostos particulares). O que não deixa de ser verdade. Uma das grandes lutas femininas foi a da independência financeira. Sem falar que não somos metades à procura da outra metade, como dizia Fábio Jr. Somos um.

Porém, isso evoluiu para uma perigosa assimilação de que entregar-se ao outro, querer carinho, valorização e reconhecimento do outro é, no fundo, uma demonstração de fraqueza. A mulher quer se desvencilhar da estigma de fragilidade e o faz muitas vezes levantando suas armas dizendo “eu não preciso de você e o que você pensa de mim não me importa”. Há de se ter cuidado para não confundir respeito e poder da individualidade com o rechaço das autênticas demonstrações do amor.

Nós somos individuais, sim, porque precisamos SER primeiro, para depois compartilhar o que somos. Mas também somos carentes de afeto. Temos uma natural demanda por amor, de amar e ser amado. Somos também influenciados pelo exemplo e pelas mensagens que recebemos. Negar tudo isso é querer negar aquilo que nos faz humanos e naturalmente sociais. Precisamos ser gratos pela nossa individualidade, mas gratos também pelos que nos tratam bem, pelos que nos ensinam a sermos melhores, pelos que desejam a nossa felicidade, sejam homens ou mulheres. Nessa hora, pouco importa o gênero.

Quando chego do trabalho, muito cansada, e vejo que meu marido fez o jantar, aquilo pode ser visto como algo acima do gênero; pode ser visto como amor. Porque nós escolhemos como vemos as coisas, sabia? E se vemos desta forma, um círculo virtuoso se forma. Quando eu o agradeço pelo jantar, ensino a ele a me agradecer por ter feito o supermercado. E vice-versa.

Outro dia a gente percebeu que éramos uma combinação porreta. Ninguém queria limpar a casa. Estávamos jogados no sofá na maior preguiça. Mas decidimos nos dividir. Ele limpou os quartos e banheiro, eu a cozinha e as salas de jantar e estar. Eu cresci sonhando com um Príncipe Encantado, mas achei um Príncipe Parceiro. Muito melhor!

E esse tipo de homem deve ser incentivado, não silenciado ou humilhado. Quando um homem resiste ao seu condicionamento e adentra pelos territórios tradicionalmente femininos, é preciso reconhecer. É preciso incentivar. Da mesma forma que queremos incentivo, valorização e respeito quando nós entramos em territórios tradicionalmente masculinos.

Aqui vale pontuar algo importante: Homem não é obrigado a gostar de lavar louça, assim como a Mulher não é obrigada a querer entrar no mercado de trabalho. Conheço mulheres que adoram cuidar da casa e mulheres que detestam. E isso é apenas um retrato maravilhoso da liberdade. Então a mulher que lava louça, mesmo gostando da coisa, merece agradecimento.
Assim como o homem.

“Mas a maioria das mulheres não recebe esse agradecimento!!!”

É claro que isso precisa mudar. Mas posso garantir, pela minha experiência em casa, que a mudança não acontecerá através do mau exemplo. Se somos capazes de reconhecer uma boa ação e não a verbalizamos, só mostramos a eles que estas atitudes podem realmente passar despercebidas.

No fim das contas, passamos por incoerentes. Chamar homens que entram em contato com seu lado sensível (Anima, Carl Jung) e dizem “eu te amo” de “homenzinhos de merda” é ser incoerente. Primeiro porque declarar amor não é algo sem importância. Banalizar o amor é o pior que poderíamos fazer. Falar de forma honesta sobre o sentimento do amor é algo sério e não se distribui para qualquer um.

Segundo, porque da mesma forma que para eles não foi normal assistir mulheres arrebentando a boca do balão no mercado de trabalho (ganhando até mais do que eles), para nós não era normal ver um homem “dono de casa”. Hoje somos mais abertas a esta última ideia porque fomos nós que adentramos o território deles primeiro. E ser pioneiro traz algumas responsabilidades. Nós precisamos dizer a eles que andar em outro território é algo bacana de se fazer. Inclusive, há empresas que já perceberam isso e discutem temas que facilitam a presença masculina em casa, dentre os temas, a licença paternidade.

Precisamos incentivar os homens de cabeça aberta. Sem deixar de dizer àquele cara que julga e define mulheres que transam no primeiro encontro como depravadas ou galinhas, que ele não possui nada muito inspirador dentro de si para oferecer às mulheres ou homens. Homens que não contratam mulheres, que acham que o lugar delas é na cozinha, estes sim precisam refletir seriamente sobre suas opiniões e merecem a nossa total desaprovação (e aconselhamento).

Mas não os que agem para se aproximar de nós! É realmente um erro nos negarmos a reconhecer atitudes bacanas de um homem, simplesmente porque são… homens. É importante termos sabedoria para separar o joio do trigo, reconhecer as coisas boas e silenciar as ruins. Não estamos dando poder ao homem porque reconhecemos suas novas e boas atitudes. Estamos dando poder ao bom exemplo, ao ato da doação e gratidão. E é justamente disso que o mundo precisa.

Então, quando eu vejo um esmalte que incentiva e celebra a autêntica demonstração de afeto de um homem para uma mulher, acho válido. Porque imagino o quanto está sendo difícil para o Homem entender seu papel a partir de mudanças que nós mulheres conseguimos trazer para a sociedade. Não posso ser hipócrita e dizer que não aprecio as boas investidas masculinas. O romance não pode morrer. Não posso compactuar com a negação da verbalização da gratidão, não importa o gênero.

E nesse mesmo pensamento, também acho válido que outra marca de esmalte enalteça mulheres que fizeram a diferença. Ambas as marcas estão na mesma direção, se fomos avaliar bem. A primeira reconhece e convida homens para uma atitude masculina mais próxima e benéfica para nós; a segunda reconhece mulheres que merecem ser sempre lembradas pelas contribuições que deixaram para o mundo.

Acredito que o Feminismo não veio para definir o homem como o novo “Segundo Sexo”, aquele que deve ser anulado, calado, humilhado diante de qualquer simples menção. O Feminismo não é vingança. Para ser completo, precisa trazer o equilíbrio, respeito e liberdade entre os gêneros. Precisa traçar uma estrada de mão dupla. Por isso, o que muitos homens precisam hoje é abrir a cabeça. E se somos gratas aos bons exemplos, incentivamos o aumento destas atitudes positivas. Se somos capazes de reconhecer boas ações, colocamos mais concreto nessa estrada.

As repercussões desta tímida campanha de esmalte fazem com que eu sinta que algumas mulheres precisam saber quando deixar a armadura de lado. Precisam ir à luta, SIM, mas pelo que está errado. Lutar com todas as forças, mas sem deixar que o certo deixe de crescer e florescer. Ou seja, não vamos chegar longe se continuarmos justificando nossos comportamentos a partir dos erros do sexo oposto. Reconhecer quem não nos reconhece (ainda), be the bigger person. Yes, we can do it.

“Be the change you want to see in the world”. Mahatma Gandhi

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*Para ser sincera, a única coisa que me incomodou nesse anúncio polêmico do esmalte foi a exclusão das relações homossexuais. Eu sei como corrigir esse caminho, mas não posso dar a resposta de graça, certo?