Tomorrowland.
Um bom Storytelling não faz verão.

Na teoria, a marca Tomorrowland é um sinônimo de festival de primeiro mundo. Um evento de música eletrônica, que promete trazer ao frequentador a uma experiência inesquecível. O segredo deste enorme marco de entretenimento musical reside na união de show com parque temático. Infelizmente, um conceito que pode funcionar muito bem na Europa, quando cai na mão de brasileiros, parece piada pronta.

É triste assumir que nós não estamos preparados para absolutamente nada do tipo. Mesmo com muito esforço, estamos distantes de qualquer excelência na área.

A organização do evento estudou o local por um bom tempo, antes de começar um árduo trabalho de adaptação do terreno. Foram toneladas de terra levadas de um lado para o outro. Por exemplo, o palco principal foi desenhado para que funcionasse como um grande anfiteatro. Não há dúvidas de que este festival contou com o um enorme investimento em planejamento.

Mas a Tomorrowland é também um show de Storytelling.

Para quem não está familiarizado com o termo, uma das mais atuais ferramentas de Branding é criar um contexto ao redor da marca, uma história inspiradora, que busca gerar forte envolvimento, uma conexão emocional entre quem conta a história e o interlocutor, que é, em muitos casos, o consumidor.

Diante de tantos bombardeios de informação, uma boa história é sempre bem vinda, desde que seja verdadeira, e evidencie que a marca possui alma e um propósito de existir que vai além do lucro.

O tema da primeira edição da Tomorrowland no Brasil foi uma repetição dos primeiros espetáculos realizados na Europa e EUA: “Opening the Book of Wisdom”, ou “Abrindo o Livro da Sabedoria”, em português. Um pouco diferente da proposta do livro homônimo que é parte da Bíblia, O Livro da Sabedoria da Tomorrowland é aquele que coleta e guarda as boas memórias da vida.

Especialmente as boas recordações vindas de um lugar mágico e repleto de criaturas míticas. Dito isso, a decoração é realmente merecedora de aplausos. Andávamos por entre folhas gigantes, ornamentos fascinantes, livros suspensos no ar, e podíamos passear por uma vila inspirada no país idealizador da marca, a Bélgica. Se não fossem a cerveja, o waffle e as batatas fritas, era possível acreditar que estávamos realmente dentro de um Sonho de uma Noite de Verão.

Mas assim como a andorinha, um bom Storytelling não faz verão.

Não adianta contar uma boa história, se a experiência de marca não é recompensadora. Para começar, os preços dos ingressos eram realmente de outro mundo. Desde a primeira interação com o site de vendas, eram claras as tentativas de tirar mais e mais casquinhas do bolso do consumidor através das diversas opções extras. Felizmente ganhamos os nossos de presente — eu e meu marido. O valor do nosso convite, caso fôssemos comprar, era 1900 reais CADA. O pior é que fomos inocentes e achamos que a pior parte era o ingresso.

O esquema de chegada já mostrava o tamanho do programa de índio. As trilhas de terra adentravam na fazenda deixando a estrada pelo menos 5 quilômetros para trás. Para percorrer tal distância às 4 da tarde, uma hora. Este era o único acesso para quem não quis acampar na área exclusiva, chamada Dreamville. As trilhas atendiam aos taxis, carros e vans que cobravam R$100 por pessoa, por dia, para ir e retornar ao aeroporto de Viracopos em Campinas.

Os taxis e hotéis da região cobravam valores fixos por conta do evento. Estacionamento no local, através de compra antecipada, custava 150 reais. Na hora, para qualquer desavisado que acreditava em um país de preços justos, o baque: duzentos reais para estacionar seu carro em um campo de terra mal batida. Quem auxiliava o público andava com máscaras de proteção respiratória.

Uma vez estacionados, ingressamos em uma boa caminhada, de cerca de 2 quilômetros até chegar ao evento. Logo no segundo dia, o gerador ficou com preguiça e as luzes que permeavam o caminho deixaram de funcionar deixando os convidados caminharem no escuro. Vimos policiais, mas somente em um ponto específico da trilha.

Você pode estar achando que quando somos jovens, esses momentos de perrengue são parte da aventura. Porém, pensando no valor investido, a qualquer um que me apresente tal argumento, responderia que todo jovem brasileiro de 20 e poucos anos parece estar acostumado a jogar dinheiro fora. Ou achar que desconforto é sinônimo de experiência inesquecível.

Nos Estados Unidos, ao visitar o Magic Kingdom, por exemplo, automóveis normais pagam 17 dólares/dia, sendo que são disponibilizados trenzinhos para que os visitantes cheguem à entrada do parque.
Quem sabe entreter, faz de tudo para que as pessoas gastem energia DENTRO do parque, e não fora.

Para completar, chegar até a entrada do evento não era sinal de fim do suplício. No primeiro dia, muita gente começou a noite com irritação. Um problema no site fez com que muitos ficassem sem registro de ingressos comprados. Eu tive pena de quem estava na fila de “Troubleshoot”, o ‘SAC’ Tomorrowland. Também tive pena de quem tinha pouca autonomia para resolver os casos. Cheguei a ver atendentes que estavam quase chorando diante de tanta gente impaciente — e com razão.

Finalmente entramos. Dentro do festival, algo normal em festivais, mas bastante incomum em parques temáticos: Latas de lixo e chão são sinônimos. Mas para quem está acostumado e preparado para horas de música, o mais importante era garantir a sobrevivência. Para meu marido e eu, que somos caretas, importante era achar o que beber e comer.

Muitos dos locais próprios para o consumo de bebidas, logo no primeiro dia, passaram a servir apenas cerveja, água e refrigerante. Depois, só água e refrigerante. Mas nada era comprado sem antes trocar reais por “Tolkens”.

Cada “Tolken”, moeda local, custava R$ 5,55 reais. Ou seja, a ‘Tomorrowland currency’ estava mais cara do que a Libra Esterlina. Moeda forte tem essa Tomorrowland…
Mas como diz o ditado, “quem converte, não se diverte”.

Para ajudar, os caixas passaram a não aceitar mais cartões. Problemas de sinal, principalmente. Logo, voltamos ao mundo do passado, e em plena Tomorrowland, o dinheiro em papel era o que valia. O que não durou muito, porque, mesmo com o ingresso a preço de rim, muita gente foi roubada. Durante a performance de um dos DJ’s mais esperados, o Hardwell, testemunhei alguns arrastões.

No fim do dia, mais salgada do que a conta final de gastos, era perceber que toda aquela promessa de fantasia unida ao que supostamente há de melhor em música eletrônica, foi tirada de nós, após duros socos da realidade brasileira.

Meu marido é belga e conta que a organização do evento por lá é bem diferente. O estacionamento não custa esse absurdo e há pequenas vans que levam e trazem as pessoas para os locais de chegada. Tal serviço é gratuito. Assaltos e arrastões, muito, muito raros mesmo, para não dizer inexistentes. Um preço descomunal por alimentos e bebidas é ‘privilégio’ brasileiro também. Para que se tenha uma ideia, na Tomorrowland da Bélgica, água potável é distribuída de forma gratuita.

Há muitas iniciativas que poderiam inspirar os brasileiros a promover tais tipos de eventos, além da própria versão original Tomorrowland. Os parques americanos são benchmark para toda questão logística, estrutural e claro, o mais inspirador Storytelling.

A marca Tomorrowland certamente terá muito o que repensar se deseja continuar no Brasil, pois sentiu na pele que, em terras tupiniquins, não basta emprestar a história. É preciso começar do básico. E isso significa repensar o tamanho lucro, respeitando um pouco mais o bolso do brasileiro. Sinceramente, não tenho a menor intenção de recomendar o evento.

Para terminar a experiência, um toque de ironia: Durante uma das atrações, reparei em um estudante que estava que se agarrando nas grades para prestigiar o DJ Oliver Reiter.
Ele estava usando uma camiseta da Universidade de São Paulo, e na parte das costas dava para ler: “Só burro paga”. Pois é, nessas horas, a gente também tem que tentar se divertir e rir de si mesmo.
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