nosso encontro

Até janeiro de 2017 eu devo entregar minha dissertação de mestrado sobre Violette Leduc. Na aba ao lado, uma página em branco me espera indiferente.

Escrevi um total, faço agora as contas, de 184 páginas sobre Violette Leduc. Mas quero a página em branco. Das paisagens de destruição, a página em branco é a única bela. Da minha janela, eu a vejo; nela jazem mortas 184 páginas sobre Violette Leduc.

Não esperava nada diferente de você, disse minha orientadora. Ela sabia, como sempre soubera, que eu não entregaria as 184 páginas que já escrevi. Ela sabia, como sempre soubera, que eu abriria uma página em branco. Só precisa decidir, sendo assim, se você vai escrever uma narrativa ou um poema.

Não pode ser os dois? Eu perguntei. Não aqui. Qual é, então, a sua narrativa? O que você quer contar? Nosso encontro.

Há uma fotografia. É o encontro de um deserto e um mar. Pode ser o Namibe ou o Grande Deserto de Areia. Esse encontro, nosso encontro:

o mar que escorre

em queda

lenta

lava

que sorri surpreso para o deserto

e o deserto se põe

de braços abertos

sem se dar conta

de que estava na hora certa e no lugar certo

para um encontro que marcou

cuja data esqueceu e por acaso lá estava

nas coordenadas e horário corretos

Leduc escreveu eu sou um deserto que monologa. Repeti tanto esse enunciado: Leduc escreveu eu sou um deserto que monologa. Sempre para explicar Leduc para os outros. Sem ter compreendido que quem vagava no deserto era eu. Sem ter compreendido que o monólogo era meu. Sei agora.

Eu partirei como cheguei. Intacta. Preenchida dos meus defeitos que me torturaram. E o filme termina com aquele refrão si je manquais d’amour, si je manquais d’amour, si je manquais d’amour. Partirei como cheguei; estátua. Estátua preenchida dos defeitos que me torturaram. Ofegando na redoma de vidro meu ar viciado. Você não deve entregar um texto onde você não está mais. Não, não devo. Devo estar.

Para a página em branco: o estilo. Dar minha pele ao estilo. Que mar inunde deserto, que deserto escorra mar.

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