Safo que nos pariu

A poeta e professora Adrianne Rich nos faz um triste anúncio: a lésbica vive sua existência sem qualquer conhecimento de sua tradição e sua história. Não estamos nas apostilas das escolas. Nossa cultura não está nos manuais de artes. Raramente estamos na televisão e, quando estamos, é sempre sob os olhares externos que nos julgam ou não pertinentes. Para viver, é preciso buscar. Para nos conhecer no mundo, temos que perseguir nossos próprios rastros, passeando por aquilo que nos escondem.

Li que um dia em uma sala de aula alguém perguntou se existia algo como uma escrita lésbica ou livros lésbicos. Existem, ela respondeu. Existem e “são livros belos, inteligentes, emocionantes, que ninguém nunca nota realmente, exceto aquela que, passando por eles, reconhece o tremor, o grão de uma voz apaixonada, respirando subitamente como se o ar ambiente se dilatasse de seu peso cotidiano, se surpreendendo e se interrogando, como se um punhado de palavras a aproximassem agora de sua própria história”. Foi Nicole Brossard que relatou esse momento sobre os belos livros que encontramos. E tão logo os encontramos, sabemos, como se sempre tivéssemos sabido, que são nossos.

Brossard também escreveu que “uma lésbica que não reinventa o mundo é uma lésbica em vias de extinção”. Estamos, sim, nos filmes, nos livros, nas televisões, mas filmadas e escritas por olhares e mãos alheios, para olhares e mãos alheios. Olhares e mãos que nos apagam. Não nos enxergam o todo, mas a parte. Temos de reinventar o mundo para que possamos nos ver e, mais do que isso, nos criar. E o fizemos. E fazemos. Muito. A cultura lésbica não somente recria o mundo, ela cria mundos. Mundos onde a lésbica é sua própria heroína, sua própria criadora, sua própria vilã, sua cúmplice e parceira. Onde possui sua própria história, seus mitos e lendas, seus costumes e experiências. Quando caminhamos por essas paisagens reconhecemos o tremor. Respiramos melhor. O mundo tal como ele é, esse em que crescemos, torna-se de repente mais fácil, mais vivível, maior: mais tolerável. Existimos. Falamos de nós. Sobre nós. Para nós. Prazer similar ao de escutar uma música que adorávamos na infância.

Na Grécia, tivemos Safo. A poeta da ilha que nos deu nome. Nascer em ilha, Yourcenar disse, é seguramente um começo de solidão. Ao redor de Safo, sabemos, existia um grupo de mulheres jovens, cuja educação estava em suas mãos. E de Safo o que resta? Fragmentos. Papéis soltos ao vento. No livro Pessoas lésbicas: material para um dicionário, a página sobre Safo está em branco. Logo sobre ela, a que nos pariu, pouco sabemos. É isso que se lê na página vazia.

Mas inventamos Safo, porque sabemos que Safo existiu. Escrevemos sobre o estar somente entre pessoas lésbicas. Escrevemos sobre nossas paixões. Escrevemos sobre os duros olhares. Sobre os encantos. Radclyffe Hall falou sobre o poço de solidão. Violette Leduc nos contou Thérèse e Isabelle. Audre Lorde poetou Martha. Cassandra Rios nos cumprimentou logo no título: eu sou uma lésbica. Ebine Yamagi escreveu e desenhou seus mangás e nos disse que a alma é livre e cometeu ainda audácia, gritou para todos que ama sua vida. Alison Bechdel desenhou seu corpo rodeado de livros de tantas lésbicas, lésbicas que encontrou para poder se encontrar. Recolhemos as tiras de papel sáficas que os ventos carregam. Vasculhamos. Juntamos. Existimos.

Conceição Evaristo falou: escrevivência. Escrever é viver. Escrever é marcar que vivemos. A cada palavra, a cada linha: existimos. Sobrevivemos à extinção. Sabemos que sim, pois temos a memória. No livro O Corpo Lésbico, Monique Wittig tem um refrão: “Glória à Safo! Glória à Safo! Glória à Safo pelo tempo que vivermos neste sombrio continente!”. Do continente, vemos a ilha: de lá viemos. Reconhecemos nossos versos. Sabemos que eles estão em algum lugar. Temos que encontrá-los.

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