… esclareço a vocês, com um leve pesar: resta apenas uma vida, das sete que me foram concedidas.
(Introdução)
Conto 1
Ilustração: Yuri Coppe

Não espero nem peço que acreditem nas histórias que vou contar. Porém, não estou louco e, com toda certeza, não imaginei tudo que presenciei. Meu propósito imediato é apresentar uma série de acontecimentos. Os fatos em si não causam espanto, mas poderão parecer um tanto quanto bizarro no momento em que revelar minha identidade.
Antes de tudo, permitam que eu me apresente: meu nome é Noir. Como meu nome indica, sou negro como a própria noite. Morava em um enorme apartamento de alto luxo no bairro mais nobre e elegante da cidade. Tinha praticamente uma pessoa disponível para cuidar de mim, e, digamos, as minhas refeições, muitas vezes, podiam sair mais caro do que as roupas que está vestindo.
Já vi as pirâmides do Egito, o sol se pôr do alto da Torre Eiffel e a lua surgir de trás do Empire State. Porém, minha vida nem sempre foi assim. Como todos da minha espécie que vivem nas ruas, passava noites pelos becos escuros atrás de algo que saciasse a minha fome. Quase sempre, as únicas coisas que conseguia eram boas brigas para esquentar a alma gélida, e foi em uma noite especialmente fria, que ela apareceu.
Eu estava caminhando por entre latas de lixo quando ouvi pneus cantando. A luz forte vindo em minha direção não me permitiu ver o momento em que o carro bateu brutalmente no muro logo atrás de mim.
Assim que me recuperei do susto, circulei o carro para ver se alguém tinha se machucado, mas não havia nenhum movimento. Foi quando a porta do carro, então, abriu, e de lá uma mulher foi-se ao chão. O cabelo, notoriamente falso, vermelho e liso, tampava seu rosto. Ela abaixou mais a cabeça e vomitou. Vomitou muito. Deitou lentamente com as mãos entre as pernas e começou a chorar. Chorava soluçando. Um choro sofrido, angustiado, agonizante.
Aproximei-me e percebi seus trajes elegantes, porém imundos e rasgados. Cheguei mais perto, e ela se assustou. Tentou recuar o corpo, mas não tinha forças. Tirou os cabelos do rosto e notei o sangue descendo por sua testa. Mesmo com a maquiagem borrada e a aparência bastante prejudicada, via como era bela. Como seu corpo era praticamente perfeito. Como seu olhar era terno.
Ela enxugou as lágrimas e ficou me olhando por longos minutos. Eu não conseguia tirar os olhos dela: era bonita demais. Ela fez sinal para que eu me aproximasse e sussurrou, acariciando: “É verdade que vocês veem a alma das pessoas?”. Esboçou um sorriso triste e completou: “Você acaba de ser o primeiro e o único a ver o pior de mim”.
E assim, entramos na vida um do outro.
Antes que perguntem as razões pelo qual venho a revelar somente agora histórias extraordinariamente excitantes que presenciei, esclareço a vocês, com um leve pesar: resta apenas uma vida, das sete que me foram concedidas. Não, não importa agora como eu vim a perdê-las, pois no momento oportuno vou contar como tudo aconteceu.
O que realmente importa para você é tudo o que vivenciei ao lado da minha dona e que vou lhe contar. Digo de antemão para se preparar, pois não é para qualquer bichano, muito menos, para qualquer humano.