A chácara de ouro

Renan Costa
Feb 25, 2017 · 4 min read

Era um sítio. Ou uma chácara. Ou talvez uma casa com um quintal maior do que as casas geralmente tem. Mas não se engane, não era tão grande. Talvez fosse como uma enorme fazenda na minha infância. É típico daquela fase achar que as coisas são bem maiores do que realmente são. E quando você volta aos lugares, o primeiro pensamento é: Nossa como eu achava que isto aqui era bem maior.

E quantas lembranças eu tenho daquele lugar. Foi lá que aprendi a nadar. Quer dizer, na verdade foi na casa do vizinho da frente, porque na época ainda não havia a piscina que tomou conta do nosso campinho de futebol. Eu ainda tenho a foto do meu primeiro salto na piscina gigante do vizinho da frente. E mais uma vez, na verdade, não foi o meu primeiro salto. A foto que me remete a esta lembrança. E as lembranças longínquas se confundem, então eu prefiro pensar que a foto é do meu primeiro salto em piscinas na vida. E adivinhe? Da última vez que eu a olhei, ela também não era assim tão gigante.

A gente jogava bola no campinho da chácara (a partir de agora vamos chamar o local assim), corria em volta da casa, brincava de pique-esconde, jogava inúmeros jogos, na maioria das vezes com o baralho, e pulava na piscina do vizinho. Eu ainda gostaria de lembrar o nome daquele vizinho para não parecer ingrato. Quando a piscina estava sendo usada pelos seus verdadeiros donos ou não estava disponível, nos refrescávamos na piscina de plástico, daquelas de montar, e que a gente remenda com chiclete. Apesar dela também parecer maior, não suportava meus saltos e menos ainda os treinos de natação. A diversão era a mesma.

De um lado da casa a bola rolava no campinho. Depois de um tempo a tão sonhada piscina foi instalada no lugar do campinho. Decidimos transferir o bate-bola para o outro lado da casa, onde duas enormes mangueiras, que são realmente enormes, faziam o papel perfeito das traves verticais e com ajuda de uma madeira e um punhado de pregos, formavam um perfeito gol. Ok, o gol não era tão perfeito.

O ritual do futebol era simples, mas extremamente importante. Com o ancinho em mãos, retirávamos as milhares de folhas e os pedregulhos do caminho. Geralmente era um no gol e dois na linha, ou quando necessário, um par de chinelos fazia o gol do outro lado do campo. A principal regra era: quem chutou vai buscar.

A inauguração da piscina foi bem adiantada. Não aguentamos esperar o tempo indicado e entramos nela com a água barrenta como de enchente, com menos da sua metade cheia e ainda lotada de madeiras que seguravam sua estrutura. Nada disso importava, ainda mais naquele calor. Aliás, que lugar quente.

Depois mais um banho de piscina, que não faz mal a ninguém. Exceto pela vez que erraram no uso dos produtos para tratar a água e tivemos a pior dor de ouvido da história. A vó trazia os sacolés pra gente e vô sempre cortando o mato. Quando diferente, o vô estava resolvendo algum problema no telhado, geralmente na caixa d’água e a vó fritando peixe.

Alguns dias os dois iam à missa e eu que não era muito fã, esperava no carro. Depois a gente passava na carrocinha da gorda pra comer aquele hambúrguer e beber aquela Coca-Cola gelada. E na volta pra chácara, os dois pegavam o baralho para jogar paciência. Eu os ajudava e achava que era bom nisso, apesar de quase nunca armar um jogo para jogar sozinho.

Por vezes a resenha perdurava na piscina e em volta dela até bem tarde. E eu ouvia as histórias de como a geração anterior havia aproveitado. Tudo na simplicidade, e talvez por isso, na maior alegria. E a minha geração talvez tenha sido a última a aproveitar aquele lugar. A mais nova também conhece e foi algumas vezes. Mas não tanto e nem com tanta vontade como a nossa, que foi até mais devagar do que a anterior.

Agora o mato está crescendo bem rápido. A piscina ficando mais difícil de limpar. As viagens até lá bem raras. Para mim então, nem se fala. Eu sinto que não respeito aquele lugar como deveria. Não respeito o esforço dos meus avós para conquistá-lo. Não respeito as histórias que contamos e nem os vizinhos que moram mesmo lá.

Posso entender o apego deles, e a lógica em sugerir vendê-la. Mas definitivamente não fico feliz por isso. Feliz mesmo, se toda a família voltasse a se reunir por lá. Como fizemos algumas vezes recentes em outros “sítios mais apropriados”. E por que não lá? Por que é muito quente? Por que tem muito mosquito? Por que não é moderno? Por que não tem sinal bom de celular? Por que não tem wi-fi? Por que não é perfeitinho?

Devíamos citar mais motivos para ir, do que para não ir. Porque é um lugar cheio de memórias boas. Porque é o lugar que a vó e o vô conquistaram. O lugar que eles reformaram. Que uniu a família. E somou o trabalho de muitos. Que fez parte de muitas infâncias. E nos ensinou que compartilhar a felicidade é muito mais gratificante pessoalmente do que clicar em compartilhar. Que trouxe a paz necessária em alguns momentos, diversão e bagunça em outros. E tudo isso, muitas vezes, em apenas um final de semana.

Porque é nosso lugar.

Se venderem, a gente se acostuma, eles tiram o peso das costas, aliviam seus esforços, e o dinheiro provavelmente fará diferença. Não esqueceremos daquele lugar por isso. Será sempre a nossa chácara.

Se não venderem, a gente se reúne, tiramos o peso das costas deles, aumentamos nossos esforços, e com pouco dinheiro de cada um, faremos a diferença. Lembraremos daquele lugar também por isso.

Ela será para sempre, a nossa Chácara de Ouro.

Renan Costa

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São só palavras, ou só palavras são?