Carta testamental
Já pensaram como seria morrer? Cada vez mais me convenço que uma das chaves para uma vida plena é a consciência de que a vida no corpo é finita e que, por tanto, melhor é manter o foco no essencial. Como parte de um curso que faço, me foi proposto escrever uma carta testamental deixando coisas para alguém. Escolhi meus filhos e o resultado me surpreendeu. Compartilho com vocês.
Queridos filhos,
Vou-me indo desse para o outro lado da vida. Se estou indo, deve ter chegado minha hora, mas para ser sincera, ainda não quero partir.
A cada dia que vivo, me encanto um pouco mais com esta experiência humana. Às vezes um toma-lá-dá-cá; outras um sincronizado um-prá-lá-dois prá-cá. À medida que o tempo passa, vou percebendo que até mesmo o mais desengonçado dos passos, compõe uma bela dança: uma majestosa coreografia de amor! Então meus filhos, esta é a primeira coisa que gostaria de deixar-lhes: amor pela vida, tudo nela!
Não se iludam, como dizia o poeta: _ “há curvas na estrada”. Por isso lhes deixo outro segredo. O problema não é a curva em si, e sim como nos sentimos, segundos antes dela dobrar. Nessa hora, quando não se vê bem, é preciso esperança. Por isso recebam também a esperança como parte da minha herança. Pensando bem, a esperança lhes devolvo, porque foram vocês, com seus sorrisos, cuidados e encantos de criança, que me deram a certeza de que o futuro é bom!
Agora que já quase me vou, vejo ainda mais nitidamente o lado de lá. Então por último quero deixar um testemunho da vida eterna. Olhando aqui por esta greta, é engraçado, porque não se sente tão diferente, mas as formas que vejo são outras e são as formas dos meus sentimentos.
Minha alegria forma arco-íris que dão voltas e voltas, e encontram a alegria dos outros seres, fazendo um enorme espetáculo. Minha compaixão ultrapassa as fronteiras do tempo e espaço e jorram como bálsamo no coração daqueles que sofrem. Minha vontade de amor encontra vazão imediata e me enche de prazer.
Minha tristeza também tem forma. Ela é escura e me impede de ver o espetáculo que descrevi acima. Minha raiva é vermelha, caótica, constrói formas fugazes que repelem a harmonia. Meu medo constrói cenas terríveis que só eu, e os outros que compartilham dos meus medos podem ver. Todos eles me separam e me diminuem.
Esfrego os olhos, ponho mais atenção no olhar. Solto uma gargalhada! Nem as mais belas, nem as mais terríveis formas importam. Todas elas se dissolvem na grande luz de Amor.
Concluo por ora, que o céu sempre esteve dentro de mim. No entanto meus filhos, é próprio desta vida desfazer-se dos infernos que se formam dentro de nós. Há mil caminhos, mas todos eles passam pelo coração. É nele onde se expressa a Verdade e a Luz. Por isso deixo este último conselho: na dúvida, voltem-se para dentro!
É hora, preciso partir. Nunca se esqueçam que os amo, profundamente, aqui e no espaço. Sempre que precisarem, voltarei a estar perto. Confio na vida e em vocês e tenho certeza que ficarão bem. Também eu, estarei bem, não se preocupem por mim.
Beijos,
Mamãe.
Ps: Também escrevi para seu pai, lá expliquei direitinho quem gostaria que ficasse com o quê, as coisas e o corpo são importantes enquanto estejam por aí! Cuidem bem dele, do seu pai, ele e vocês são meus maiores tesouros.

