Desaguar

Desde que li seus versos não consegui calar os meus em mim. Respirei fortemente a cada manhã para não vomitá-los nos meus dias.

Arrumava minhas palavras em meio as minhas pernas tentando fugir das suas,

Mas elas abraçavam meus calcanhares, prendiam a minha respiração e a única saída era entregar para a dor a sua dor.

Porque elas me mostravam a fragilidade de amar, a minha e a sua.

E mostrava também a fortaleza que é ser mulher, se reinventar e não deixar de parir, com dor, o mundo todos os dias.

Se entregando ao desconhecido como um rio ao encontro do mar, com força e vastidão. Arrastando tudo que está a sua volta, sendo engolido e se tornando sal, sem deixar de ser doce.

Nas suas palavras repousou o amor que não chegou a ter, ele sempre esteve nos meus braços.

Sei que nelas cruzou ruas, sambas e noites farejando encontrar seu lugar naquelas mãos macias, mas é no meu corpo que elas deleitam.

Suas palavras expulsam a dor da partida, ele nunca esteve aí.

Porque construiu bem perto dos seus olhos, morada na nossa história, e comigo faz dias claros, serenos e possíveis, onde somos o turbilhão que é amar.

Carregar as suas palavras já não quero mais! Quero despovoar-me de você, de seu amor e de sua tristeza, pois sou das que amam demais, sofro demais.

Quero apenas a beleza escorregadia e pulsante de nós mulheres em mim, apenas a firmeza de você ser, quando não mais o outro estar… Nunca esteve!

Apenas a leveza que circundam seus movimentos de resistência em meio ao que dizem que somos e como devemos ser.

E na chuva fina que cai, deixo levar você de mim. Seus suspiros, dores, angústias, incertezas, amor…

Quero que seus escritos sejam apenas cotidianidades, o ir r vir da vida, a buzina do ônibus, o bolo de aipim barato vendido na esquina, a flor na janela da vizinha, o grito de Helena querendo pegar o gato, quero que me toca no que é essencial para existir.

Não os quero me revelando a pobreza de amar sem ser amado, a minha/ sua dor. Não! Quero sentar em tardes lentas e ler poesias para cristalizar a alma.

Solto agora essas palavras, depois de tanto ruminá-las, como que segurando sua mão.

Te levando para perto das águas : Escute-as!

Para além das palavras existem outros rios e dentro deles uma imensidão de cores, gentes, amores…

E viver é deliciar-se neles, mergulhar sem medo, com olhos fechados e mãos fortes para nunca deixar de poetizar as profundezas de nossos mergulhos, o afogar que é ser mulher.

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