Quando tive gravidez ectópica: ser mulher.

Demorou muito para eu conseguir escrever esse texto, já tentei inúmeras vezes mas ele nunca saia. Saia dor no lugar. 
Um passo pra trás, 
mas hoje ele sai.

Ano passado, eu estava em Pipa-RN com um amigo de Florianópolis que foi me visitar, e por algum motivo ele virou pra mim e falou: “Você está grávida”. Você sabe o que é entrar por um ouvido e sair pelo outro?! Eu achei tão improvável que não perdi tempo nem pra contestar aquela afirmação aleatória.
Cerca de uma semana depois, eu vim descobrir que ele estava certo, e liguei pra ele só para falar isso, foi quando indiferença deu lugar ao reconhecimento. Só que não foi tão simples assim.
Eu havia voltado da Argentina a poucos meses, lembro que assim que cheguei marquei vários médicos, de nutricionista a ginecologista. Queria fazer um check up geral, estava há 4 meses fora. Lembro que a maioria eu consegui consulta para pelo menos 1 mês depois. E aí podemos começar essa narrativa..

Meu irmão estava com pneumonia, teve que ficar internado no Hospital do Coração em Natal cerca de 6 dias, e eu estava como acompanhante dele em tempo integral durante todos os dias, não sai em nenhum momento daquele quarto de hospital. Até que em um desses dias eu lembrei que eu tinha ginecologista e o primeiro pensamento foi “não tenho como sair daqui, não acredito que vou ter que remarcar essa consulta”, e resolvi olhar minha agenda pra ver onde era o consultório que para a minha surpresa era na mesma rua do Hospital do Coração, então fui para a consulta. Era uma quarta-feira, ao chegar lá a recepcionista falou que a médica teve que atender uma cirurgia e que todas as consultas daquele dia ficariam para o seguinte, quinta-feira.

Na quinta-feira voltei, e falei para ela “Doutora, eu só marquei essa consulta pra pegar uma indicação de anticoncepcional e fazer um check up, passei um tempinho fora, mas nos últimos dias tive umas cólicas muito agressivas e um sangramento estranho”. Ela me mandou sentar para fazer um exame de toque e logo em seguida, me passou um BHCG (exame para detectar gravidez) e uma Ultra intra ulterina. Na mesma hora pensei “Me fudi” haha.

Gente, aquele consultório tinham aproximadamente 7 ginecologistas obstetras, 2 médicas fetal e um laboratório. Eu não fazia noção disso quando marquei, achei essa médica no aplicativo do plano de saúde.

Tudo bem, com o laboratório ali dentro, fui na hora fazer o BHCG e tentar marcar a ultra. A ultra só consegui para terça da semana seguinte, porém eu iria ministrar um mini curso na Universidade Federal do Rio Grande do Norte nesse dia, e pedi pra colocar para sexta-feira. O BHCG consegui na hora, ainda lembro da moça que tirou o meu sangue falando “Tomara que você esteja, vem tanta mulher aqui tentando engravidar” e eu na minha cabeça “Pelo amor de Deus moça, eu não sou uma delas” haha e por fora não conseguia sair uma palavra de tão nervosa que eu estava. Após recolher o sangue ela disse que poderia me falar se foi positivo ou negativo em 20min, mas o resultado só depois de uma hora. Fiquei esperando na recepção e então depois de 20min vejo aquela mulher de longe andar em minha direção sorrindo e fazendo um sinal de positivo com as duas mãos. Nessa hora eu levantei já tonta da cadeira e não enxergava e nem ouvia nada ao redor, até que ela chegou segurou meus braços e disse, você está gravida. 
Eu voltei na mesma hora no consultório da ginecologista e disse “Eu to grávida, a senhora vai me acompanhar né? vai cuidar de mim né?”

Ela me acalmou, riu, deu parabéns e passou vários exames para eu fazer no dia seguinte, na sexta-feira.
Eu voltei para o Hospital do Coração, olhava pro meu irmão naquela cama, olhava para as quatro paredes daquele quarto e mandei uma mensagem para uma amiga “assim que você sair do estágio, passa aqui no hospital, é sério”, aquela menina estava na minha frente em menos de meia hora, dizendo “eu fugi do estágio” rindo, e disse “o que houve?”. Fomos para uma área comum do hospital e eu contei tudo para ela, começamos a ligar para vários laboratórios para marcar a ultra para a sexta-feira do dia seguinte e não da semana seguinte como já estava marcado. Sem sucesso. Disse pra ela relaxar, que quando eu fosse fazer os outros exames eu tentava um encaixe.

Ela foi embora e eu fiquei ainda sem saber o que pensar e sentir, só queria falar com a outra parte responsável depois de fazer a ultra e saber como estava tudo.

No dia seguinte, ao acordar para ver se meu irmão tinha tomado café, eu ouvi uma voz dizendo “Iasmin”. Fiquei confusa e deitei de novo. Uma hora depois acordei e fui no laboratório fazer os outros exames, e já pedi para me encaixarem na ultra. Foram 4 horas ainda em jejum esperando me chamarem para ultra. Mas ufa, consegui uma vaga! 
Ao entrar no consultório da médica fetal, que ficava ao lado do da ginecologista, ela logo me disse “Olha a nossa impressora tá um pouco ruim, o resultado só sai amanhã”. Ok por mim, deitei lá para que ela começasse o exame, foi quando essa mulher ficou com uma cara de assustada falando “Não tem nada no seu útero, não tem nada aqui”. Eu estava sozinha ali, comecei a sentir um desespero e perguntei o que isso significava, quando ela disse “Talvez essa gravidez não possa ir pra frente, mas a ginecologista que vai te dar um diagnostico, to imprimindo o resultado do exame, você precisa levar AGORA pra ela, entendeu?”

Gente, agora é que eu não conseguia pensar em nada mesmo. De forma automática peguei aquele exame e levei no consultório ao lado. Quando a médica abriu o resultado, tirou o óculos e levantou dizendo “Como assim?” “Fernanda, pode ser uma GRAVIDEZ ECTÓPICA você precisa fazer um BHCG quantitativo agora que o resultado saia hoje, lá no Hospital do Coração eles entregam no mesmo dia, esse é meu telefone me ligue assim que tiver com o resultado em mãos”. 
Primeiro WTF gravidez ectópica! Nunca tinha ouvido falar disso na vida. Procurei no google e então começou a descer lágrimas na mesma hora, enquanto caminhava para o HC. O mais interessante é que eu estava completamente sozinha, mas senti o amparo de uma equipe espiritual ao meu redor, era como se tivessem de 4 a 5 pessoas ali comigo, foi muito forte.
Já esperando a chamada pro exame, liguei para aquele que seria o pai e disse sem gaguejar e sem dar boa tarde “Estou grávida, é de risco posso morrer, to fazendo exame” não lembro ao certo o que falei mas foi algo nesse estilo. Ficou imaginando o fucking susto que ele levou? Pois é, imagina o que eu tive também.

Gravidez ectópica é quando o óvulo se implanta em outras estruturas do útero, a mais comum é nas trompas de falópio. E foi o meu caso.
As trompas são muito finas e não aguentam o desenvolvimento de um feto, por isso a gravidez é de risco, pois se não descobrir a tempo pode estourar a trompa, ocasionar uma hemorragia interna, e por fim levar à morte.

Repeti o exame no sábado e na segunda. Na terça-feira levei os resultados para a ginecologista e assim que ela viu, falou “Fernanda, preciso que você faça uma ultra agora, de urgência e já fique em jejum que talvez você se opere”. Mais uma vez, agi de forma automática e sai atrás de alguém que fizesse uma ultra de urgência. Fiz, estava com 2 meses e ao sair da sala, o médico, um senhorzinho me disse com uma voz de afago e sabedoria “Boa cirurgia filha”.

Entrei novamente no consultório da ginecologista entregando os exames, ela me olhou e disse “Vá agora para a PROMATER, você precisa operar, se esperarmos até amanhã você pode morrer”.
Olha só esse destino, a antiga dona da PROMATER foi minha pediatra e do meu irmão quando éramos pequenos. Meu irmão vivia internado com pneumonia lá, e quando pequena eu vivia saltitando por aquele hospital, indo na brinquedoteca, e roubando a sobremesa do meu irmão (sorvete de chocolate) hahah. Vinte anos depois, era eu quem a PROMATER ia acolher.

Ao chegar no hospital a ginecologista estava na recepção com uma cara de pressa falando “Filha qual seu nome completo, já estou preenchendo a sua ficha, vou mandar alguém da enfermaria vir te levar”.

Tirei a minha roupa, coloquei aquela roupa super fashion de hospital e fiquei no centro cirurgico esperando me chamarem, eu olhava ao redor e tinham várias poltronas desocupadas só eu sentada de frente para a TV. Eu estava tão apavorada que adormeci, acordei e pouco tempo depois me levaram.

Ao entrar na sala de cirurgia eu não conseguia emitir nenhum som, meus olhos esbugalhavam, logo eu toda livre, que adora uma aventura estava naquele momento morrendo de medo de morrer. Deitei naquela cama e o anestesiologista olhou pra mim e disse “Fernandinha, fica tranquila, eu vou cuidar de você como se fosse a minha filha”. Eu continuava sem conseguir emitir um som e com olhos arregalados. A ginecologista e obstreta veio, como um anjo mesmo, me olhou com calma e passou a mão no meu cabelo “Vai ficar tudo bem”. 
E então ele aplicou a anestesia e foi quando as minhas pernas começaram a parar e com um enorme grito preso foi quando eu consegui falar, ou melhor, berrar “minha perna, ela não tá mexendo, minha perna, me ajuda por favor”. Claro que me deram algo e minutos depois eu apaguei.

Acordei na maca, dentro do elevador sendo levada para o quarto, pedi meu celular e mandei uma mensagem pro rapaz dizendo que tinha sido tudo bem e que já tinha saído da cirurgia.

No mesmo dia no final da tarde eu fui pra casa, era quarta-feira três dias antes do dia das mães, com a minha mãe do lado, vários antibióticos, remédios para anemia em decorrência da quantidade de sangue que perdi, e com uma trompa a menos, a direita.

A partir desse momento era eu por mim, minha familia e alguns poucos amigos. A outra parte responsável se isentou depois da cirurgia, afinal eu tava viva né. haha 
Um dia depois tive uma reunião da organização que fui voluntária uns anos, eu deitada na cama e a pessoa sentada. Continuei trabalhando. Passei a semana chorando muito, sem poder andar direito, me sentindo sufocada naquela cama, tomando mais de 4 remédios por dia, mas eu tava viva né haha.

Passou um mês, passou dois, passou três AH agora já podia voltar a fazer força, três fucking meses depois. Quatro meses e entreguei um evento num shopping da cidade. Cinco, seis, 1 ano e aqui estou pra dizer:

1- Pílula do dia seguinte pode impedir a chegada do óvulo no útero, seu médico não vai te dizer isso, então você pode ter uma gravidez nas trompas, e se não descobrir a tempo pode morrer;

2- É você por você bebê! Afinal, enquanto você estiver viva pode passar pelo que for, mesmo “sozinha”, a carga pode ser muito pesada pro outro lado da história. Mas você, meu bem, você é mulher. Já sobrevive nesse mundo com todos os olhares e preconceitos desde que nasceu. Nós somos o “sexo frágil” mais forte dos mundos;

3- O que não te mata, te deixa mais forte.

Obrigada aos amigos que seguram minhas mãos e passam as fases do CHEFÃO comigo. Estamos juntos na luz também! ❤

E para todos os garotinhos desse mundo, o trecho que li hoje no facebook da Djamila Ribeiro:
“Todos nós — todos os que a conheceram — nos sentíamos tão higiênicos depois de nos limparmos nela. Éramos tão bonitos quando montávamos na sua feiúra. A simplicidade dela nos condecorava, sua culpa nos santificava, sua dor nos fazia reluzir de saúde, seu acanhamento nos fazia pensar que tínhamos senso de humor. Sua dificuldade de expressão nos fazia acreditar que éramos eloqüentes. Sua pobreza nos mantinha generosos. Até seus devaneios usamos para silenciar nossos próprios pesadelos. Nela, afiamos o nosso ego, com a fragilidade dela reforçamos nosso caráter, e bocejávamos na fantasia de nossa força.
E era fantasia, pois não éramos fortes, apenas agressivos; não éramos livres, meramente autorizados; não éramos compassivos, éramos polidos; não bons, mas bem comportados. Cortejávamos a morte a fim de nos chamarmos de corajosos, e escondíamos da vida como ladrões. Substituíamos intelecto por boa gramática; mudávamos os hábitos para simular maturidade; rearranjávamos mentiras e as chamávamos de verdade”.
Toni Morrison, in: O olho mais azul.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.