O monólogo da Lavadeira

(Entra no ônibus, senta e inicia diálogo com a pessoa ao lado)

Não, eu não me arrependo não. Se eu pudesse voltar no tempo, eu faria tudo de novo. Tim tim por tim tim. Ele mereceu o fim que teve. Fim, por que pra mim ele morreu. Você também está indo pra Madureira? Eu morava com ele lá. Vou te contar o que aconteceu. Do jeito que esse motorista vai devagar, a gente só chega em casa amanhã, né?

O Paulo é um canalha. Bom de papo que só, podia vender ar-condicionado pra pinguim. Nunca foi pra faculdade, mas sabia um pouco de tudo, sabe? Levava qualquer pessoa no papo, até quem era doutor. Ele contava tanta mentira, que era casado com um monte delas. Gritava pra quem quisesse ouvir que a mentira era uma verdade que esqueceu de acontecer.

(Pega um cigarro e põe na boca) Acho que ele tinha depressão, não aguentava ficar sozinho. (Faz o movimento de acender com um isqueiro) Ai desculpa, eu esqueço. Força do hábito.

Ele era o típico homem de balcão de “butiquim”. Ele vivia pelas ruas e eu pelos tanques. Lavadeira profissional. Tá pensando o que? Já lavei roupa de muita gente importante. As roupas contam histórias. Já parou pra pensar nisso? O tanto de cheiro, marca de batom e bilhete no bolso que tem nas roupas? Menina, já descobri cada coisa… Acho que me tornei investigadora de roupa, você pode me dar a roupa que for e eu faço uma investigação certeira. Se bobear te digo até aonde a roupa foi. É tipo um dom.

E foi cheirando a roupa do Paulo que descobri que o filho da puta tinha outra mulher. Perfuminho vagabundo e cheiro de escova de formol, dessas pra alisar cabelo. Só podia ser cabelereira e como o Paulo não tinha um tostão pra botar o pé fora de Madureira, a mulher era de lá.

Você tá pensando o que? É claro que eu fui em cada salão que tinha no bairro. Eu perguntava o preço do pé e mão e observava. Eu sei o tipo do Paulo. Ele gosta de loira, anca larga e blusa curta, muitos brilhos. Mulher-dama, se você sabe o que eu quero dizer. Me levou duas semanas até eu achar quem era.

E aí o que? E aí que eu planejei uma vingança. Eu pensei em cada detalhe, eu queria acabar com ele. Naquele mesmo dia eu fui ao mercado, mas não conseguia parar de pensar nele, e tudo que eu via de comida me dava vontade de tacar nele. Eu queria fazer tiro ao alvo de ovo com a cara dele.

Então eu fiz um plano. Quando ele chegou em casa, as roupas dele estavam espalhadas pelo chão, eu apaguei as luzes e acendi umas velas, me escondi atrás da porta munida de ovos, pepino, batata e tomate.

Quando ele chegou, achou que tinham cortado a luz. Veio andando devagarinho, tropeçando nas roupas, entrou na cozinha e pimba! Pimba na cara dele com ovo, pimba de tomate na testa, pimba de batata naquele chicote de barriga que ele chama de pinto. Ele não me via e foi pimba pra tudo quanto era lado. Ele que falava pra cacete, só gritava “égua!”, a última batata, acertou a cabeça e ele levou um tombo feio. Levantou cambaleando e eu gritava “sai daqui! Você sai daqui!”, “mentiroso!”. E ele foi. Joguei as roupas pela janela, e gritei pra rua inteira ouvir “ANCORETA”.

A moça ao lado olha pra ela e pergunta: O que é isso?

Acho que é puta velha que ficou feia, mas isso não importa. Ele também não sabe. E deve estar pensando até agora.

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