7 itens importantes para aproveitar melhor um aconselhamento técnico

Dicas rápidas para não deixar um bom aconselhador simplesmente desistir de você.

No desenvolvimento do meus produtos tem gente me ajudando bastante no processo de pegar ideias que me são preciosas e atendendo a meu próprio pedido se colocarem a estraçalhar, destruir, criticar e desmontar nossas criações ou iniciativas, separando os que tem de bom e colocando os pontos ruins ou ainda crus em evidência.

É normalmente pelo exercício do pensamento crítico que uma ideia em estágio pré-operacional começa a andar pra frente ainda no campo imaginativo, antes que se comece a gastar recursos em execução.

Imaginação e intuição são ferramentas poderosas. Einstein previu as ondas gravitacionais em 1916, em custo operacional de ZERO dólares. As ondas foram medidas 100 anos depois em uma aposta de 250 milhões de dólares, como mostra essa matéria da revista Science de 1993 quando o projeto foi anunciado. A missão de coletar as ondas na realidade estourou em muito esse orçamento, chegando a mais de 62o milhões de dólares até agora. Tudo isso aqui embaixo construído e replicado em duas cidades americanas para provar uma coisa que já funcionava na cabeça de Einstein.

Um dos braços do Observatório LIGO em Livingstone, Lousiana. Tem um outro desse aí trabalhando em uníssono em Handford. Foto divulgação de CALTECH / MIT / LIGO Laboratory.

Acho que o exemplo acima mostra bem o poder da imaginação. Vou voltar agora para o campo do aconselhamento técnico como uma das mais importantes ferramentas imaginativas. É sobre isso que gostaria de dividir algumas coisas com vocês:

  • Tenho uma crença pessoal que aprender a ser aconselhado é uma arte que vem antes de aprender a aconselhar.
  • Que o aconselhamento quando rola uma "química" tem uma beleza que é de benefício mútuo entre aconselhado e aconselhador.
  • Esse tipo de diálogo carrega uma exigência existencial no campo do empreendedorismo — a oportunidade onde as pessoas com diferentes experiências se solidarizam para mudar algo importante no mundo.
  • É muito mais do que uma simples troca de ideias sobre um tema ou de uma pessoa depositando conhecimento no outro.

Em uma espécie de corrente do bem hoje atuo nos dois campos: recebo o aconselhamento de pessoas que estão nos estágios que desejo conquistar e ajudo pessoas nas situações onde tenho capacidade de contribuição. Isso me faz conhecer um pedaço das dores do aconselhado e do aconselhador.

Divido aqui algumas notas mentais em relação as situações onde estou com o chapéu de aconselhado. Todas as vezes que alguém está avaliando algo que eu co-criei, preciso lembrar que:

1. Fui eu que busquei o aconselhamento. Eu procurei a pessoa. Quando ela respondeu, doou um tempo para mim. Devo valorizar esse tempo.

2. Não é a forma que deve me fazer avaliar a qualidade do feedback e sim o conteúdo e as reflexões que o aconselhamento vai provocar. Não importa se veio agressivo, cru ou direto demais. Se o conteúdo foi bom então a conversa terá valido a pena. Há excelentes aconselhadores com grau de eloquência incompatível com a envergadura técnica da pessoa. O objetivo prático do aconselhamento é fazer o feedback da pessoa alimentar o meu processo imaginativo. Conflito e ênfase são catalizadores da imaginação. Quando estou no papel de aconselhado, não devo onerar o aconselhador a necessariamente ter que manter polidez durante o raciocínio.

Aqui o exemplo de um campeão que não tá ligando se o interlocutor vai gostar da forma do aconselhamento. Eu gostaria de levar umas broncas do Bernardinho. Créditos da foto pela Agência EFE, da Espanha.

3. A pessoa de fora olha a minha criação sem a relação emotiva que eu tenho com o objeto criado. Se eu escolhi uma pessoa qualificada para um aconselhamento, a analise dela estará num campo técnico. Uma crítica a minha ideia não é uma crítica a mim ou ao meu trabalho. "Eu não gosto disso" é sempre diferente de "eu não gosto de você".

4. Devo prestar atenção, anotar, refletir, estudar e aplicar o resultado da reflexão. Deixar a pessoa falar até o final. Repassar os pontos de entendimento. Fazer perguntas que propiciem que eu realmente entenda o ponto de vista do aconselhador, mesmo que momentaneamente eu esteja discordando de maneira irresistível.

5. Devo lembrar que é burrice de minha parte começar a defender meu ponto de vista antes da pessoa completar o raciocínio dela. Isso me faz perder a chance de compreender um outro ponto de vista na plenitude e de promover mudanças reformulando a tese OU de resolver as deficiências de comunicação que eventualmente levaram meu aconselhador a entender erroneamente determinados aspectos do assunto em questão.

6. É burrice se fechar ao próximo aspecto da pauta por estar discordando agressivamente do aspecto atual. As vezes o aconselhador simplesmente não sabe que você já tratou determinado problema. O insight revelador pode estar dois minutos adiante, quando a sua raiva interna passar. Antes da conversa acabar, não posso desqualificar o interlocutor que eu procurei por discordâncias pontuais ou pela sinceridade apresentada em um feedback.

7. Não devo retornar a um aconselhador com um problema repetido. Não posso voltar a conversar sem atuar nos pontos que o aconselhador tenha sugerido na conversa anterior, apresentando de novo o problema sem avançar em nada. Ele vai sentir que o feedback dado entrou por um ouvido e saiu pelo outro, preferindo investir o tempo dele em outra pessoa.

Em considerações finais..

As pessoas sérias normalmente são corridas e não vão dar reforço positivo quando alguma coisa não estiver boa na visão delas.

A porrada pode vir. Faz parte. Quando ela vem pode ser pela pessoa enxergar algo de bom em você. Muitas vezes o problema que você colocou na mesa desperta um processo imaginativo que faz o aconselhador revisitar momentaneamente problemas duros que ele já tenha vencido ou que ele já tenha visto dando errado várias vezes.

Esse confronto de ideias, de apresentar uma discordância, sempre tem um custo. É por isso que tem gente que escolhe nunca criticar: Esses serão péssimos aconselhadores. E quem não aceita críticas sempre será um péssimo aconselhado.

Alguns de meus mais marcantes aconselhadores foram porradeiros. Tive professores, líderes e mentores com posicionamento crítico aguçado ao longo dos últimos anos. Alguns deles hoje são meus melhores amigos. Isso me ensinou a engrossar um pouco a casca e também a não ficar de frescura com as pessoas em que eu eventualmente esteja em condições técnicas de aconselhar.

Os tempos atuais estão trazendo desafios especiais. Devemos cultivar os nossos bons aconselhadores e bons aconselhados para manter o nosso processo imaginativo sempre afiado. Obrigado pela leitura e por favor anota aí nos comentários o que você concordar ou discordar a respeito disso. Valeu! 😅