A brevidade de todas as coisas

Ontem morreu um ator famoso, afogado num rio. Uma tragédia como todas as mortes diárias ao redor do mundo. Quase instantaneamente a internet brasileira entrou em choque e todos passaram a falar da brevidade da vida.

Ontem o meu dia foi particularmente ruim. Talvez por eu ter vivido a maior parte da vida no século XX, sem computador, sem internet (ganhei o primeiro computador aos 18 anos, em 2001), sem celular, eu ainda tenho dificuldade com certas urgências. A onipresença — que eu sempre aprendi ser uma característica somente de Deus: “O Senhor é onipresente, onisciente e onipotente”, me ensinou minha avó — passou a ser um requisito indispensável na vida e carreiras modernas. O imediato tornou-se regra. Enfim, me senti tremendamente impotente diante dos desafios que me foram colocados para aquele dia e isso me trouxe uma angústia que há muito eu não sentia. Às vezes a gente faz tudo certo, mas dá tudo errado. É duro quando temos de viver não com a conseqüência de nossas ações, mas com as prioridades do resto do mundo.

Voltando à morte do ator, houve uma catarse coletiva sobre a brevidade da vida. O ator em questão estava trabalhando, aproveitou que teria a tarde livre após o almoço e resolveu dar um mergulho no rio com uma colega também atriz. Ela se salvou, ele foi levado pela correnteza e encontrado morto horas depois. Bastou para que as pessoas lembrassem o que todos sabemos, mas escolhemos, por razões de conveniência, esquecer: a vida acaba de uma hora para outra. Nem todos nós vamos encontrar a morte após rito da velhice ou da doença, alguns de nós vamos simplesmente morrer depois do almoço…

Mas não é só a vida que é breve, a brevidade é uma característica de todas as coisas. Eu me lembro de um professor na faculdade (de comunicação) que uma vez disse que somos todos uns alienados, pois achamos que vamos voltar vivos para casa sempre, quando na verdade temos pouco ou nenhum controle sobre o momento em que vamos deixar este mundo.

Talvez por praticidade, escolhemos fazer a montagem do filme da vida na sequência cronológica dos acontecimentos. Entretanto, a verdade é que a vida não segue essa ordem: ela é a soma dos momentos, e não dos dias e horas. Não é à toa que quando voltamos a um lugar especial ou quando retornamos a ver pessoas que amamos, mesmo depois de anos, parece que a despedida foi ontem ou há poucos dias. Reconhecemo-nos naqueles lugares e naqueles olhares, independentemente do tempo que ficamos distantes. Para nós parecem ser apenas instantes, e de fato são. O mais importante da vida está nos instantes que transformam acontecimentos por vezes corriqueiros em momentos inesquecíveis: um lugar, um abraço, um olhar, uma palavra, um beijo.

É certo que algumas situações nos reclamam essa consciência de que tudo é breve e de que devemos estar disponíveis para aquilo e aqueles que amamos. De que devemos estar mais disponíveis para olhar nos olhos do que para ficar o dia inteiro colados numa tela de computador ou no celular, mas essa consciência deve ser constante, sob pena de cometermos o erro de vivermos a vida que o tempo e o espaço apresentam para nós, e não a nossa própria vida.

A nossa história é livremente editável por nós. Simples assim. Não é o tempo que domina o que vamos lembrar ou esquecer ou o que somos, mas a importância que damos a esses instantes únicos, a esses encontros com os outros e com o mundo. Pela lembrança continuamos a existir. A lembrança é onde o passado é presente, aliás, o passado, na maior parte das vezes, só é passado pelo critério cronológico. Nosso presente não é o dia do calendário, mas aquilo e aqueles que nos acompanham no levantar da cama, no palpitar do coração, no encantamento da vida. Se você pensar quânticamente, a verdade é que não partimos, e sim nos transformamos. Nossa vida se mistura com a vida os outros, nossa história se mistura com a história dos outros, e é nessa interseção que está o precioso da vida. As coisas boas não necessariamente acabam, viajam conosco para onde quer que formos e acompanham a vida daqueles que impactamos positivamente.

Nossa história não é um livro só, mas vários livros, escritos a cada encontro. Portanto, os encontros não são capítulos em um livro maior, mas livros próprios, que não precisam acabar nas despedidas. O importante não é escrever um final espetacular para cada um desses livros, mas cuidar para que cada frase seja composta com o melhor de nós, pois não é a vida que é breve, mas todas as coisas o são, e uma vez conscientes disso, é preciso buscar a beleza de cada instante, agarrar cada oportunidade de alegria, não importa o quão breve ela seja, pois não temos o menor controle sobre qual será a nossa última cena.