A Última Dança

Imagem por Helle

— Emma! Emma! Venha aqui ver uma coisa…

Andrew chamava pela esposa em torno de trinta vezes ao dia, sempre que se deparava com algo que considerasse interessante. Fossem os pássaros exóticos que pairavam sobre as videiras no jardim de casa, fossem as flores de maracujá doce que desabrochavam fora de época; tudo era um evento digno de ser contemplado. Ela, contudo, havia muito que se desligara do mundo físico — ao menos era o que sua consciência demonstrava.

Desde que o Alzheimer avançou a ponto de incapacitá-la, Emma tornara-se um ser apático e inerte. Não era nem uma sombra da mulher inteligente, talentosa e cheia de vida por quem Andrew nutria um amor que já durava quase sessenta e três anos. O ateliê dela permanecia intocado desde a última vez em que fizera uso de sua máquina de costura movida a pedal, a qual pertencera a sua tia-bisavó ou algo que o valha. Andrew a mantinha em perfeito estado de funcionamento até hoje: lubrificava cada mecanismo, polia os pontos de ferrugem, substituía as agulhas oxidadas, trocava as correias de couro que de tempos em tempos ressecavam pela ausência de uso e lustrava os acabamentos em madeira de lei com uma regularidade quase suíça. Para ele tratava-se apenas um hobby, exercitado nos intervalos em que a esposa não dependia de seus cuidados. No fundo, porém, era uma forma de acalentar a esperança de vê-la fazendo novamente o que mais amava.

Se a condição de Emma era incapacitante, Andrew não apresentava o melhor de sua saúde havia tempos. Os check-ups regulares mostravam um sangue saudável e, até então, nenhum traço do maldito câncer que vitimara seu filho mais velho fora identificado. Sua visão, no alto de seus seis graus de miopia e uma hipermetropia de família, estava ótima. Seu coração já falhara uma vez, alguns anos antes; desde que duas safenas e três mamárias foram-lhe implantadas, contudo, sentia-se como um garoto outra vez. Era óbvio que não desfrutava mais do mesmo vigor e jovialidade de sua juventude, porém orgulhava-se de encarar todas as atividades domésticas diárias com um ímpeto e energia dignos de inveja. Tarefas simples como varrer a casa, lavar os pratos, cortar a grama e os arbustos, além dos cuidados dedicados a Emma, eram realizadas com satisfação e alegria.

Ainda assim, a rotina de Andrew era quase espartana. Saltava da cama invariavelmente às seis da manhã, independente do dia e das circunstâncias, e às onze da noite já estava ao leito, quase sempre cansado, porém com o senso de dever cumprido.

Preparar o café da manhã. Alimentar as aves visitantes. Despir, banhar e vestir Emma. Desjejum. Remédios. Se inteirar das notícias do mundo pelo jornal da cidade. Um cochilo matutino, antes da moça do restaurante próximo trazer o almoço. Dar de comer a Emma. Almoçar. Levar Emma para a siesta. Lavar pratos. Tirar o lixo para a rua. Varrer a cozinha, a casa e só então terminar a leitura do jornal. Levar Emma para o jardim ou, quando o tempo estivesse muito ruim, para a sala da lareira, em frente a varanda envidraçada que dava vista para o jardim florido. Quando Emma estivesse bem (ou num dos rompantes de lucidez que a acometiam de forma cada vez mais esporádica) arriscava um passeio mais demorado pelos campos próximos de casa.

Os filhos apareciam de vez em quando, porém numa frequência que diminuía ano após ano. A mais assídua era a caçula, Selenne, a qual inclusive morara com eles um curto período, após uma separação conflituosa. Mas isso fora há tanto tempo que Andrew lembrava dessa época quase como um período da infância da filha. Nigel, o único homem que restara entre os filhos, visitava-os apenas na véspera de Natal. Era uma criatura fria e solitária, a qual nunca casara ou dera netos a eles. Ainda assim, sempre que os via, deixava a casa de Andrew e Emma entre lágrimas mal escondidas. Nora, a mais velha dos quatro, havia anos que não os visitava; soubera por Selenne que morava agora na França, com um marido e filhos franceses. Andrew queria conhecê-los um dia. Quem sabe vender a velha casa onde criara seus filhos e na qual vivia com Emma há mais de cinquenta anos, pegar o dinheiro e gastar numa viagem pelo mundo. O sonho de levar a esposa novamente a Paris, onde estiveram na lua de mel, já o deixava satisfeito e servia como esperança de um futuro generoso.

O tempo, contudo, era cruel mesmo com um homem saudável e ativo como Andrew. Havia dias que se sentia extenuado, e ficava ofegante ao varrer as folhas caídas embaixo das videiras. Em alguns momentos, flagrava-se prostrado enquanto regava suas flores, ou descobria que esquecera a leiteira sobre o fogão até o leite fervido transbordar e derramar por todo o lado. Deixar a chaleira ferver até quase secar já acontecera pelo menos três vezes, e não foram poucas as ocasiões em que dormira enquanto lia o jornal, ou mesmo se passava no horário do almoço apenas para encontrar a refeição diária já gelada deixada pela moça do restaurante sobre o banco de madeira da varanda, ao lado da porta da frente.

O maior temor dele, sobretudo, era deixar Emma desassistida. Selenne certa vez oferecera ajuda, mas Andrew recusara de forma categórica. Dissera ela que Nora inclusive se prontificara a mandar dinheiro mensalmente para que pagassem uma cuidadora, contudo ele considerara a proposta uma afronta. Sua aposentadoria como representante comercial não era generosa, porém supria suas necessidades e cobria os custos médicos de Emma com absoluta dignidade. Queria apenas que os filhos se fizessem mais presentes; a cada visita de Selenne e Nigel, percebia que Emma apresentava um pequeno sinal de melhora — seus lapsos de lucidez quase sempre ocorriam alguns dias após essas ocasiões. Mais que visitas aos médicos e remédios miraculosos, Andrew sabia que eram os filhos que faziam bem à Emma e, por tabela, a si mesmo.

A rotina diária já começava a cansar Andrew de forma que, aos poucos, seus dias tornavam-se mais curtos. As noites de sono já não mais o revigoravam; sentia os braços pesados, as costas doíam como nunca. Cuidar de Emma tornou-se extenuante. Concomitante a isso, os filhos passaram meses sem aparecer ou dar notícias. O telefone celular que Nigel dera a eles simplesmente não tocava, com exceção de vendedores robotizados que ligavam com relativa periodicidade. Por consequência, o mato e as ervas daninhas se assomavam em meio às flores e arbustos que com tanto zelo cultivava no jardim. Cipós parasitas surgiram meio às videiras, o que dificultava o crescimento das uvas e dos maracujás doce. Às vezes a louça acumulava-se na pia de um dia para o outro, e varrer a casa tornou-se uma atividade semanal — quando muito.

Andrew tornara-se mais apático, um tanto desligado e perdido entre lembranças antigas. Flagrara-se prostrado, revivendo antigos acontecimentos de seu passado como se fossem o presente cotidiano. Antigos colegas de trabalho agora frequentavam sua casa como há cinquenta anos, nos jantares que Emma e ele promoviam aos sábados para jogarem carteado e ouvirem música através do grande rádio valvulado da sala. Quase sentia novamente os odores das loções, das cigarrilhas, das bebidas e das comidas que preparavam nessas ocasiões, mas via-se mais como um espectador do que como o protagonista desses momentos. Às vezes, o odor de broa de milho recém-saída do forno invadia-lhe o nariz e arrastava-o até a cozinha — apenas para observar Emma, Nora e a pequena Selenne num sábado à tarde, preparando quitutes para o café da manhã do dia seguinte enquanto ele, Nigel e Robert consertavam a cerca após um temporal de verão.

Reviveu os momentos em que acompanhou os filhos ao alistamento militar; os protestos por melhores condições de emprego durante a crise econômica algumas décadas antes; as discussões com os rapazes quando mudavam as vestimentas e a aparência física por conta da moda das bandas de rock n’ roll; a doença e a luta de Robert contra o câncer; a despedida amarga de Nora… Diversos pontos de sua vida revividos em flashes esparsos e difusos, assomados em momentos tão distintos que Andrew por vezes se via absorto e solitário em meio aos campos próximos de casa, já com a noite avançada.

Em função de tamanha confusão, foi até certo modo surpresa para ele quando ouviu, certo dia, um característico som cadenciado vindo do ateliê de Emma. Um rangido compassado, acompanhado do farfalhar de tecido o atraiu até lá, apenas para encontrar a esposa sobre a máquina de costura novamente, depois de tantos anos.

Ela movia o pedal da máquina com desenvoltura, levando o tecido por sob o ataque ritmado da agulha e da linha com a mesma habilidade e precisão de outrora. Sua amada parecia-lhe curada, revigorada de alguma forma repentinamente mágica. Seus cabelos, contudo, não estavam castanho-avermelhados como em suas lembranças difusas: estavam prateados, tal qual ela usava desde que perdera o discernimento por conta do mal que a afligia.

Andrew parou à porta do ateliê, observando a esposa com um sorriso tão largo no rosto que mal conseguia conter as próprias lágrimas. Quando levou a mão magra e manchada à boca e soluçou, ela voltou-se para ele, encarando-o com uma jovialidade totalmente livre da sombra que a dominara anos antes.

— Andrew! Onde está seu smoking, homem? Esqueceu-se do nosso baile?

Ele não sabia o que dizer. Caminhou até a esposa e a beijou por um tempo impossível de ser mensurado, sendo correspondido como se voltassem, por um instante, a ter vinte anos.

Saiu do ateliê, atravessou o corredor a passos largos e decididos, ingressou no quarto e abriu o armário embutido. O cabide ensacado com seu smoking estava tão empoeirado que o fez tossir. Desensacou-o, liberando um forte odor de anis e lavanda — Emma ensinara-o a usar tais ervas para espantar o mofo. Vestiu-o em frente ao espelho oval da penteadeira, fechando o nó da gravata borboleta marrom café com uma perfeição invejável.

Calçou os sapatos de festa que guardava havia anos e mantinha sempre engraxados e lustrosos. Por fim, trocou os óculos por uma armação Yves Saint-Laurent que usava apenas em ocasiões de gala. Olhou-se novamente no espelho, e gostou do que viu. Sentia-se tão jovial que os finos cabelos brancos que restavam em sua cabeça pareciam até mais escuros, bem próximos do tom castanho claro de sua juventude.

Retornou decidido à sala, apenas para encontrar Emma à sua espera vestida quase como uma rainha em seu vestido recém cosido. O semblante dela era radiante, quase como na vez em que se conheceram. Os olhos cinza esverdeados dela emoldurados por seu cabelo castanho avermelhado tornavam-na tão linda quanto uma deusa celta. O sorriso de ambos brotou de forma espontânea, antecedendo o demorado beijo que trocaram.

O sol do entardecer iluminou a janela da sala, banhando as videiras do jardim num tom dourado que se alastrava por toda a casa. Emma parecia não ter mais de vinte anos, enquanto Andrew aparentava mal ter cruzado a casa dos trinta. Ambos se encaravam, inebriados pelo que sentiam um pelo outro.

— Me concede esta dança, minha senhora…?
 — Que danç —

Uma música passou a soar no ambiente, o que abriu um largo sorriso no rosto de Emma. Uma antiga canção de Glenn Miller e sua big band invadiu a sala num volume crescente, conduzindo-os de forma espontânea aos primeiros passos de dança. Não tiravam os olhos um do outro, como que completamente apaixonados mais uma vez.

— É tão bom tê-la de volta, Emma… 
— É maravilhoso estar de novo com você, Andrew…

O rosto dela encontrou o peito dele, enquanto ele a cobriu com seu queixo. Permaneceram assim por muitos e muitos passos de dança.

Logo o sol se alinhou ao horizonte, derramando seu brilho quente e dourado diretamente sobre eles. Emma se desvencilhou de maneira graciosa de Andrew, tomando-o pela mão enquanto se dirigia à porta da rua.

— Vamos? 
— Aonde, Emma? 
— Dançar sob o pôr do sol até o amanhecer. 
— Mas logo estará noite, e — 
— Quem se importa, Andrew? Somos só você e eu. Não devemos nada a ninguém.

Ele assentiu. Deixou-se levar por ela até os campos, dançando com leveza ao som de Glenn Miller enquanto os raios de sol levavam-nos embora, rumo ao infinito.

Na porta da casa, uma figura singela, vestida de camisa, gravata e casaco gabardini observava ambos com as mãos nos bolsos, enquanto singravam o horizonte em sua dança. O semblante de satisfação ao observar os dois só se desfez quando outra figura, impecavelmente vestida num terno cinza chumbo, camisa preta e gravata azul marinho, parou a seu lado.

— …Obrigado. 
— Não há porque agradecer. 
— Sempre há. Tudo poderia ter sido muito mais doloroso. 
— Seus pais são almas bondosas, Robert. A transição pacífica do mundo material aos planos superiores é reservada apenas às pessoas dotadas de real bondade. 
— Eu sei disso, pelo tempo que já estou aqui. Ainda assim, sou grato por tê-los auxiliado. 
— Nada que um pouco de luz natural, algumas flores e pássaros cantantes não compusessem o cenário de imersão ideal. O restante foi trabalho único e exclusivo das mentes deles. 
— Bom saber… — Robert, o filho de Andrew e Emma, restou tranquilo. Fizera pelos pais o que lhe estava ao alcance, ainda que com a ajuda de seu amigo. Alisou o terno cinza chumbo, enquanto o amigo agora caminhava em direção ao sol poente. 
— Nos vemos em breve. 
— Digo o mesmo… — Assim, o amigo estendeu os braços, irradiando-se num facho de luz que mesclou-se com o próprio Astro Rei antes de desaparecer no crepúsculo.

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