Duas Balas
Conto originalmente publicado na página ‘Nada Além de um Conto’ no Facebook em 10 de Dezembro de 2015.

Duas balas.
Era tudo o que restara de munição no revólver de Thomas Willburn.
Mas só a mãe dele (que Deus a tenha) o chamava assim.
Entre seus comparsas, preferia — para não dizer que EXIGIA — que o chamassem por seu nome de guerra: Tommy Bullett.
Era a alcunha pela qual ficara conhecido durante a Secessão. Lutar ao lado dos confederados contra os porcos yankees era até hoje uma honra para ele, filho de agricultores escravocratas da Louisiana. Não à toa, ainda ostentava uma bandana com a stars and bars atada ao joelho direito ferrado por um disparo certeiro durante a batalha de Gettysburg — dizia que a dor da patela esmigalhada lhe lembrava do que perderam naquela Guerra.
E não haviam perdido apenas a disputa com os nortistas.
Terras de muitos escravocratas que financiaram os confederados foram confiscadas pelo governo de Washington. Pessoas de bem, ricas e prósperas, se viram repentinamente jogadas na miséria. Esmolando trabalho e comida nas terras que outrora lhe pertenceram. E, como se tamanha desgraça não lhes fosse suficiente, viram suas propriedades divididas e entregues a colonos europeus.
Irlandeses. Prussianos. Escoceses… E negros.
Não seria surpresa se muitos veteranos daquela guerra infame, agora jogados à mendicância, acabassem à margem da sociedade elitista e europeizada que se enraizara em Washington. Havia nem cem anos que seus bisavôs expulsaram os ingleses de volta àquela ilha embarrada e fedorenta, e não seria agora que esses migrantes pulguentos e sarnentos ocupariam aquela terra que era sua por direito. Não que ele conhecesse a Inglaterra para saber detalhes; ingleses fediam. E isso era o suficiente.
Era por isso que Tommy Bullett tinha prazer em matá-los.
Certa vez invadira, junto com seis comparsas, um rancho de ovelhas no Tennessee apenas pelo boato de que os donos eram irlandeses e guardavam suas reservas em potes de ferro embaixo da casa. Nunca encontraram os potes, mas a mulher sardenta do irlandês compensou o prejuízo do grupo. As crianças não chegaram a dar trabalho, ao contrário do homem. Três disparos de rifle não foram capazes de derrubá-lo. Ainda feriu Jesse Riso-Duplo com um gancho de lareira antes de ter os miolos estourados com um disparo certeiro na têmpora. Chegou a sujar com os estilhaços de osso as botas de Jack Coyote, que o praguejou antes de cuspir fumo em cima do cadáver trêmulo. Uma pena. Estava divertido ver o homem furioso e urrando como um touro.
Foi uma questão de tempo até o bando de Tommy Bullett migrar do extermínio odioso para o roubo puro e simples. Esses colonos, ao contrário dos esfomeados mexicanos que fugiam da sua própria guerra ao sul do Texas, saíam da Europa trazendo suas riquezas pessoais — mesmo sendo unânimes em seus lamentos ao afirmarem que deixaram tudo para trás quando cruzaram o oceano. Mentirosos. Gananciosos filhos de uma lazarenta sifilítica, era o que esses ratos europeus eram. Tão avarentos que começaram a financiar a abertura de estradas de ferro rumo ao Oeste, avançando sobre as terras dos malditos nativos escalpeladores. Que os deixassem lá, com seus bisões e mustangs. Ninguém os queria por perto; por que ir até eles? Tommy jamais entenderia.
Nem mesmo quando as notícias davam conta de que estações de trem eram construídas numa rapidez impressionante, levando progresso e riqueza até onde ninguém antes se arriscaria, fez com que Tommy e seus comparsas entendessem.
O mundo estava em transformação, e homens como Tommy Bullett e seu bando eram avessos a mudanças. Mais que isso: eram uma amostra inefável do anacronismo vigente naqueles tempos de pujança vista com desconfiança. Por isso seu ódio à nova realidade que brotava naquela época só fazia aumentar.
O seu bálsamo? Matar e roubar. Matar era um vício, e roubar era uma diversão. E Tommy fazia ambos com indisfarçado prazer.
Encontrar seu rosto estampado em um cartaz ao lado da entrada do saloon de Santa Madre o fez rir. Ofereciam dois mil dólares americanos a quem o capturasse, vivo ou morto — pelo menos fora o que Jack Coyote lhe dissera, já que era o único do bando que sabia ler. Tommy sempre desprezara as letras: achava que entendê-las era perda de tempo. Seu velho e leproso pai dissera até seus últimos dias que tudo o que um homem precisa saber é guiar seu cavalo, beber seu whisky, engatilhar sua arma e arrancar as calças de uma mulher. E Tommy dominava bem as quatro coisas.
Seus homens já haviam tomado o saloon quando Tommy resolveu entrar. Seu cigarro de palha amarfanhado da última cavalgada — um dia e uma noite desde Fresno, onde pilharam uma adega e violaram duas rameiras — mal queimava. O dinheiro que roubaram de um posto do Bank of America em Hill Valley já estava no fim — cigarros, bebida e alfafa para os cavalos ficavam mais caros à medida que se distanciavam de Albuquerque –, de modo que precisavam se reabastecer.
E o Expresso Pagador passaria pela estação de Santa Madre naquela noite.
Acomodaram-se na estalagem sobre o saloon. Pagaram pelos quartos, a bebida, a comida e as mulheres — e, ainda que o dinheiro fosse insuficiente, o taberneiro não ousou reclamar quando Jesse Riso-Duplo empurrou-lhe o maço de notas sujas de sangue com um sorriso nos lábios grotescamente partidos.
A abordagem ao trem seria, obviamente, no final da noite. O Expresso viajava mais leve de madrugada, para pegar velocidade e permanecer seguro contra assaltos. Mas precisava reabastecer a caldeira — e entre Santa Madre e Albuquerque seriam pelo menos trezentos quilômetros sem fontes d’água. Seria naquela noite mesmo, decidiu Tommy. Pisco One-Eye hesitou, e Jack Coyote cortou-lhe a garganta. Sem desertores, sem delatores. Era o código de conduta dos Confederados. À sua moda, Tommy Bullett tinha sua própria honra.
Acabaram com duas garrafas de Old RedEye antes da meia-noite, e mais outras tantas de gim ordinário foram secadas antes das duas. Só então desfrutaram das mulheres e dormiram.
A placa de carvalho da estação trazia os horários entalhados em baixo-relevo, como se aquela tabela fosse rigorosamente a mesma há trinta ou quarenta anos. Parecia mais velha que o próprio Tommy Bullett, respeitado pelos outros por seus cinquenta e três invernos — ainda que a fisionomia áspera lhe desse pelo menos dez anos a mais.
Três deles se espalharam pelo deque. Dingo Quatro-Dedos, Jack Coyote e Jesse Riso-Duplo à frente, já que eram os mais jovens e os de gatilho mais rápido. Tommy permaneceu na porta da estação, à espera do trem. Pequeno One-Eye (irmão de Pisco) e Bill Pussy’sbane ficaram com os cavalos, nos fundos.
O Sol já se ameaçava por trás das Rochosas, no horizonte. O cansaço e a ressaca eram gritantes. Intimamente, todo o bando pensara em desistir.
Menos Tommy Bullett.
O apito soou ao longe. Todos levaram a mão às armas.
O deslizar da composição sobre os trilhos elevou a tensão a níveis cortantes. Como esperado, o trem corria leve e rápido. O vagão do Tesouro era discreto; soava irônico transportar milhões em espécie, ouro e títulos num reles compartimento de feno. Engodo para incautos, sabia bem Tommy.
A composição desacelera e para. A penumbra da alvorada ainda dominava, com o céu alaranjado acima. Os homens se aproximam do vagão, com Dingo Quatro-Dedos subindo e puxando a porta corrediça…
Federais.
Quatro deles. Derrubam Dingo com um tiro certeiro antes mesmo que pudesse vê-los.
Jack Coyote despeja o tambor num deles, que cai com seis caroços no peito.
Jack, seu imbecil!, pensou Tommy. Viu-o tombar com dois disparos na cara e uma arma vazia na mão.
Jesse Riso-Duplo correu em direção à estação, atirando a esmo com sua Winchester’22. Foi presa fácil.
Tommy buscou refúgio quando os federais saltaram ao deque e avançaram rumo à estação.
Restam três, pensou instantes antes de outros dois surgirem de trás da composição. Definitivamente, ele não gostava de surpresas.
Três rifles Spencer e duas Colt — uma 1860 e uma maldita 45. E o federal lazarento com ela fora quem derrubara Dingo e Jack.
Dividiram-se em dois grupos, quando ouviu os cavalos a galope nos fundos. Pequeno One-Eye e Bill ainda desovaram uns bons caroços, mas caíram ante a precisão dos Spencer. Um homem bom com um rifle Spencer valia mais que vinte imbecis com o melhor revólver. Disso Tommy sabia bem, e seu joelho o lembrava todos os dias.
Mas ele era Tommy Bullett, e sabia que não era a arma e sim o homem que fazia a sua própria lenda.
Com precisão, derrubou dois federais. Uma bala para cada homem, dissera-lhe sua velha mãe antes de incorporar. Levava esse lema com carinho até hoje.
A Colt 1860 lhe arrancou um pedaço da orelha. Não gostava mesmo dessa orelha, pensou enquanto estancava o sangue. Devolveu a gentileza com um caroço logo abaixo do queixo do federal.
Restavam dois. O Spencer e o 45.
Precisão e velocidade. Precisava superar ambos.
Por isso era conhecido como Tommy Bullett.
Arrancou o chapéu côco do Spencer enquanto ele ainda mirava. Viu o sangue correr na testa do desgraçado, que mesmo assim queimava o anteparo de Tommy como um demônio. O Colt contornou a estação, buscando outro ângulo. Tommy o perdeu de vista, enquanto se viu com o tambor vazio mais uma vez.
Buscou o cinturão, e só encontrou duas balas.
Uma bala para cada homem.
Praticamente ouviu sua velha mãe recitando aquela frase ali à sua frente.
Os desgraçados vociferaram algo. Tommy ignorou.
Sentiu a perna fraquejar. Escorou-se abaixo da janela. Viu uma pequena poça de sangue. Levou a mão ao quadril…
Malditos.
Uma bala para cada homem.
Carregou o tambor do seu Remington com as duas últimas cargas.
Ouviu eles gritarem novamente.
Renda-se e viverá, disseram.
Viver para quê?, pensou. Para dar espetáculo numa forca a um bando de imbecis?
Tentou levantar. Sua perna esquerda já não obedecia mais.
Seu velho joelho direito gritava.
Ergueu as mãos. O Remington salpicado de pólvora e sangue acima da cabeça.
Faz bem em escolher viver, disse o federal com o Spencer.
Usou a outra perna para se apoiar e erguer-se. As mãos ao alto.
— Thomas Willburn, você está —
— Eu… Vivo.
Era só uma chance. Um movimento. Engatilhar e bater, dissera seu velho.
Um pléc. Dois. Primeiro o 45, depois o Spencer.
Mais dois federais caídos.
Tommy sorriu. Mas o sangue que invadiu sua garganta desfez seu júbilo.
Maldito Colt 45, pensou.
O furo embaixo do mamilo selou sua certeza.
Pelo menos deixaria esse mundo com uma convicção.
Matar federais era tão bom quanto matar yankees.
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