Eve

Conto originalmente publicado na página ‘Nada Além de um Conto’ no Facebook em 19 de Novembro de 2015.

Imagem por Rituporn Gogoi

A mesa de aço inox gelado cortando suas costas foi a primeira coisa que Eve sentiu quando despertou.

Eve? Esse era seu nome? Ela não sabia. O nome apenas lhe veio à cabeça. Sequer sabia onde estava.

O ar era levemente aquecido, mas ela sentia frio — seu corpo, encharcado por um líquido viscoso, arrepiava com a lufada constante que soprava pelo duto de ventilação até a mesa.

Tentou se levantar. Seus braços e pernas, presos por grilhões de aço escovado, não se moveram.

Forçou-os. Uma, duas, três vezes. Sentiu os parafusos do grilhão direito cederem. Forçou um pouco mais…

Braço livre. Livrou o braço esquerdo com a outra mão. Arrebentou a cinta de nylon afivelada à cintura como se fosse papel. Enfim, os pés.

Estava livre. Mas nem tanto.

A sala, apesar de controladamente aquecida, era fria e morta como um laboratório — a despeito dos ladrilhos escuros até o teto. A única abertura parecia o duto de ar, que mal comportaria uma caixa de sapatos. Não havia portas.

Não aparentes.

Tateando a parede, Eve encontrou uma fresta entre dois ladrilhos. Puxou-os. Arrancou a cerâmica e o reboco, alcançando uma complexa tranca metálica. Forçou-a, no que levou uma forte descarga. O líquido viscoso fluiu a corrente elétrica por seus cabelos encharcados, latejando sua cabeça como um sino e fazendo seus mamilos doerem.

Isso só fez a raiva brotar em seu cerne.

Ignorou a descarga seguinte, usando o retesamento muscular forçado para entortar a abertura para dentro. Só então chutou-a, arrancando-a com tranca e dobradiças junto, fazendo-a voar pesada através de um corredor mal iluminado.

O caminho estava livre.

Superou a porta arrebentada e ganhou o corredor, que seguia numa leve curvatura à esquerda. O assoalho, um deque metálico quadriculado, cortava seus pés descalços enquanto corria.

Mal percorreu em torno de cinquenta metros quando a iluminação esmaeceu, dando lugar a luzes de emergência avermelhadas. E uma sirene ensurdecedora preencheu o corredor.

Gás lacrimogênio fluiu do teto, bloqueando sua visão. Olhos e garganta queimavam, mas, obstinada, ela seguia.

Não sabia o porquê, mas algo dizia em seu inconsciente que precisava sair daquele lugar.

Logo uma porta lateral se abriu, brotando dali quatro homens armados.

O espocar luminoso de disparos cortaram a cortina de fumaça em sua direção. Não desacelerou, nem quando o impacto dos projéteis lhe acertaram o peito.

Acertou o primeiro que encontrou com um soco. Sua máscara e o capacete separaram-se com o impacto. Eve apenas avistou o rosto do homem desprovido de sua mandíbula, emoldurado por arregalados olhos em choque. Deixou-o em espasmos quando o segundo acertou-lhe a maçã do rosto com a coronha do fuzil.

Foi como ser acariciada por um bebê.

Dobrou o fuzil como um pedaço de arame, rasgando o segundo atacante ao meio com as mãos. Viu os vultos dos outros dois se afastando, entre rajadas de disparos esparsos.

Com rosto salpicado de sangue alheio, superou os dois despojos e prosseguiu — mas se viu contida por estranhos flashes de sua memória.

Agulhas. Bisturis. Um bloco cirúrgico. Cirurgiões e militares fardados sobre ela. Serras circulares. Próteses. Ganchos de açougue. Uma lixeira repleta de órgãos.

Retomou a consciência escorada na parede. Alisou seu corpo nu e rosto à procura de cicatrizes, sem resultado. Só depois seguiu.

Se aproximava de uma porta dupla, quando uma escotilha de segurança desceu pesada à sua frente. Quis voltar, mas outra igual fechou seu retorno. As luzes, o gás e a sirene estridente cessaram. Mas, mesmo no breu absoluto, ainda enxergava.

Dois pequenos dutos expeliram algo. Uma faísca brotava dos objetos…

Um clarão. 
Onda de choque. 
Estilhaços. 
Seu corpo ricocheteando pelas paredes reforçadas como uma bola de borracha.

Demorou a se reerguer. Estava atordoada, mas sem nenhuma fratura. Apenas pequenos ferimentos superficiais, que manchavam agora seu cabelo dourado.

Avançou contra uma das escotilhas, agora severamente avariada pelas explosões. Derrubou-a após três golpes — apenas para deparar-se com um pelotão de fuzilamento duplo à frente.

Munição pesada — artilharia antiaérea, que cortava as paredes de aço como se fossem madeira fina. Projéteis esborrachavam-se sobre sua pele; outros ricocheteavam em si e vazavam as paredes. Mal conseguia abrir os olhos. Sentia-se atacada por um enxame de marimbondos furiosos.

Uma voz de comando cessou o ataque. Estava ajoelhada, com as mãos à frente do rosto. O pelotão abriu-se, permitindo a passagem de alguém. Caminhava decidido, com passadas pesadas sobre o deque metálico.

— Levante-se, Eve. — A voz era grave, porém gentil.

Estendeu-lhe a mão, oferecendo ajuda para erguer-se. Ela, instintivamente, aceitou.

Ao pôr-se de pé, olhou o general nos olhos — e outra leva de flashes desconexos jorrou em sua cabeça.

Ora era ela uma menina num balanço, vendo o general na varanda de uma casa, ao lado de um homem de cabelos negros e curtos. Ora ela estava com frio, pendurada como um corte de carne num dos ganchos de açougue. Órgãos sangrentos sobre uma mesa. Material cirúrgico sujo. Homens armados. Tudo fluindo numa velocidade inconcebível.

Cerrou os olhos, levou as mãos às têmporas e gritou. O general recuou, mas não a tempo de escapar de seu golpe no peito.

A mão atravessou-o como se fosse um boneco de espuma. Pedaços de osso e pulmão vieram colados na sua pele.

Outra saraivada de artilharia pesada. Arremessou o corpo do general contra o pelotão, desestabilizando-os. Cruzou por eles em velocidade, deixando-os para trás.

Venceu o extenso corredor e alcançou uma sala de descontaminação. Pensou em voltar, mas ouviu os homens se aproximando. Acionou outra escotilha de segurança em sua retaguarda. Só então seguiu adiante.

Aquela sala lhe trazia novos flashes de memória, mas menos frenéticos que os anteriores. Aqueles eram mais ordenados, como que sobrepostos — um intenso deja vù em looping semelhante ao de uma pessoa com hábitos rigidamente rotineiros.

Atravessou a descontaminação, a sala pressurizada e as estufas, para então deparar-se com uma porta dupla transparente. Luzes do outro lado atraíam-na. Atravessou-as…

Para então deparar-se com dezenas. Centenas de tubos enfileirados. Conectados a cabos e mangueiras, borbulhando como grandes aquários.

Ou úteros artificiais.

Cada um deles contento uma cópia perfeitamente idêntica à própria Eve. Algumas imperfeitas, como se ela ainda estivesse num estágio fetal aparentando treze ou quatorze anos. Algumas até menos.

Em choque, ela apenas percorreu o corredor central, observando-os sem reação.

Então, o alarme soou mais uma vez.

Válvulas foram abertas remotamente, fluindo aquele líquido viscoso do interior dos tubos.

Ao olhar para o mais próximo, Eve observou uma delas abrir os olhos.

E, no mesmo instante, outro flash invadiu sua mente.

Pelos olhos de sua irmã, ela se enxergou no centro do corredor.

Este Conto faz parte do projeto Tales from a Thousand Words, cujos contos são publicados pelo Autor em seu Perfil no Medium e na Página Tales of Wonderland no Facebook. Para acompanhá-lo, siga-o no Facebook | Twitter | Medium.

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