Fernando B Fisch
Jul 22, 2017 · 5 min read

Imagine que você tenha tudo. Tudo o que a vida tenha de bom para te oferecer. Uma carreira bem sucedida ou um emprego estável em uma área que você tenha orgulho de trabalhar. Uma família que te ama [inserir aqui o seu próprio conceito de família]. Amigos que se importam e estão sempre ali por você. Você tem também um bichinho. Um cachorrinho ou um gato. Ou uma calopsita. Ou um peixe. Uma iguana? Uma píton amarela. Você também tem uma casa confortável. Tem um Wi-Fi semi-decente (porque é esperar demais uma conexão Wi-Fi que seja realmente boa). Tudo que a vida possa te oferecer de bom… Todo o necessário para ser… Feliz…



Daí os celulares dos membros de sua família tocam. Ou aquela pessoa que mora com você chega em casa mais cedo. Ou aquele seu amigo pra quem você liga praticamente todos os dias sente falta da sua ligação. E eles têm aquela sensação de que algo está ruim. Está errado. Alguma coisa saiu do eixo, porque… Você, de repente… Não está mais aqui. Em um momento em que você ficou sozinho por tempo suficiente, você tomou nas mãos a oportunidade de tirar a própria vida. Quando você fez isso, ninguém entendeu. Porque você era uma pessoa boa. Todos diziam e reforçavam que não estavam dizendo isso porque você partiu. Era a verdade… “Era feliz”. “Era uma pessoa boa”. “Transbordava empatia”.



E as pessoas ficam bravas. Te xingam. Te chamam de covarde. Como pode alguém tão bom, com o espírito tão gentil, “desistir” desse jeito? Abandonar sua família, seus amigos, seu trabalho, seu bichinho? Cara, as pessoas ficam realmente furiosas. Porque estava tudo bem, não haviam motivos pra você fazer isso! Estava tudo bem!



E começam as explicações. “Não tinha religião, faltou Deus!”. “Era frescura, queria chamar a atenção de todos! Pois bem, conseguiu!”. “Não se importava com o que tinha, egoísta! Como foi capaz?”.



Enquanto isso, no seu passado…



Você fazia um esforço descomunal para fingir que estava tudo em paz. Levantar da cama, beijar seus familiares, sorrir. Tomar café, escovar os dentes, sair para trabalhar, voltar. Olhando para trás, tudo o que você tem hoje é tudo com que você sempre sonhou, quando, na adolescência, as coisas ainda pareciam mais fáceis - ou o futuro parecia menos sombrio, como uma esperança à qual se agarrar.



Mas ainda assim, todos os dias era difícil. E você se olhava no espelho e só conseguia pensar “O que há de errado com você? Está tudo certo…! Por que você não consegue se sentir bem??”. E porque estava “tudo certo”, você nunca falou para ninguém. Afinal, o que diriam? Como conseguiriam entender que… Na sua cabeça… No seu peito, na sua alma, havia uma escuridão que a cada dia que se passava se tornava mais densa, mais espessa… Mais irresistível. E você se odeia cada dia mais porque em algum momento você perdeu a capacidade de apreciar tudo o que há de bom ao seu redor. Se culpa por não conseguir rir daquela piada. Se censura porque não conseguiu curtir aquela saída com os amigos. Se deprecia porque dormir bastante lhe parece muito mais atraente do que um momento com aquela pessoa especial. Afinal, se está tudo bem, por que não parece que está tudo bem?



E todos os dias você se forçava a seguir adiante. Porque você precisava. Afinal, estava tudo bem. Está tudo bem, eles todos estão dizendo. Algo de racional em sua mente também está te dizendo isso. Está tudo bem… Está tudo bem… Está tudo bem… Eu vou ficar bem… Eu vou ficar…



Eu vou…



No presente, você não aguenta mais… Seu corpo dói, seu peito oprimido, sua mente está destruída, sua alma dilacerada. Sua família não é conforto, seus amigos não são alento. Dói respirar, dói viver, dói sentir. Tudo o que é ruim é exacerbado, o sofrimento é intolerável, a dor insustentável. A época de pedir ajuda passou três saídas atrás… E você não consegue mais. Quando você vislumbra a saída, na sua cabeça ela não vem como uma saída simples, muito pelo contrário. Claro que você pensa na dor que vai causar a quem te ama. Na verdade é só no que você pensa. Quando as coisas chegaram nesse ponto… Não é a saída fácil. É a mais difícil.



Não tem Fé que resolva, porque não importa no que você creia, milagres não acontecem todos os dias. E sempre existe a sensação de que Deus tem coisas muito mais importantes do que você para se preocupar.



Sucesso? Não é o bastante, porque tudo parece vazio, sem propósito. Já faz tempo que ter o que você sempre quis não basta.



Amor? Família? Até isso se tornou doloroso. Porque são sentimentos carregados de culpa. Uma culpa que não cessa. Porque você os ama, sabe que que é amado. Mas você não consegue se sentir pleno com isso, não é o bastante e você se sente a pior das criaturas, porque não é capaz de se sentir pleno com a sorte incalculável que tem. Família, amigos, amor… Palavras que são quase sinônimos pra você. Mas que agora carregam o terrível e insuportável peso da sua incapacidade.



Não tem saída fácil.



Não tem resolução fácil. Você chegou a tomar os remédios prescritos, você chegou a falar com um psicólogo. Seu diário tem desabafos que você não faria nem para si em plena consciência. Dentro do que você conhecia e conseguia… Você realmente tentou… E até este ponto você venceu. Porque cada dia foi uma vitória. A cada dia você mereceu uma medalha, porque você conseguia levantar da cama e terminar o dia sem estar onde você está agora.



Daí outro sentimento de culpa, outra sensação de fracasso. Você perdeu… Você foi derrotado. E então você se entrega pra que não precise mais lidar com toda a dor, a culpa, a frustração… Com a humilhação diuturna que o simples ato de viver se tornou…



Mas mesmo após sua partida, as pessoas vão te culpar. E vão procurar outros culpados… Mesmo após tantos anos de esforços repetidos pra que você não se tornasse um fardo pra ninguém, você se torna um fardo póstumo. Tem que existir um culpado. Por que ninguém percebeu que você precisava de ajuda? Por que ninguém te ouviu? Por que deixaram que chegasse a esse ponto? Era tudo o que você não queria, foi por isso que fez o que fez… E agora é tudo o que resta. A culpa é sua? Tudo bem, você aguenta. Mas a culpa é dos outros…? Não, maldição! Não é culpa de ninguém… A dor é minha, o fardo é meu e foi eu quem o soltou…



Não há paz…



Não deixarão que haja paz…



Passam-se os dias, os anos… Você será lembrado com carinho, reverência, nostalgia… Como seria se ainda estivesse por aqui…? Ninguém jamais saberá…



A vida seguiu.

(Texto/desabafo de autoria de um(a) grande amigo(a). Não, não é uma despedida. Sim, ele/ela está bem. Apenas pediu por anonimato, como forma de preservar seus familiares de sobressaltos desnecessários.)

Fernando B Fisch

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Escritor independente, Podcaster errante, Viking de Final de semana e Estudante de Letras, História, Demonologia, Bruxaria e Ocultismo em tempo integral.🤘🖖