O Encontro

Conto originalmente publicado na página ‘Nada Além de um Conto’ no Facebook em 12 de Novembro de 2015.

Imagem por Ahmad Turki

— É nessas horas que tu sabe que tá ferrado… — disse Eddie antes de levar outro soco que o fez cuspir o sétimo dente direto ao abismo entre os dois prédios onde estava quase dependurado.
 — Já disse… — O brutamonte, cujo nome até ali ele não entendera se era Moorcock ou more coke, acertou-lhe mais vez, no qual terminara de esfacelar o último osso inteiro de seu nariz. — …pra tu calar essa merda de boca!
 “Ok, ok…” — A resposta de Eddie veio apenas mentalmente, já que a constelação que invadiu sua visão em função da dor lancinante não tinha como deixá-lo pronunciar nada sem que desmaiasse. De início acreditou que aguentaria uma boa trocação com o grandalhão, mas, depois do primeiro golpe recebido — um soco que reverberou como uma pesada tijolada de granito abaixo do olho — o resto da “discussão” seria, pelo menos, tentar se manter vivo.
 E estava falhando miseravelmente.
 
Chegara sozinho ao pub quando mal passavam das onze da noite. Encostou sua chopper em frente à porta envidraçada, adornada com um luminoso cafona num beco perdido qualquer. Não conhecia aquela porção da cidade, logo estranhou quando o segurança da casa — um afrodescendente de quase dois por três — surgiu das sombras com um palito de dente mastigado na boca, um maço de dinheiro na mão e uma cara de poucos amigos.

— Já fechamos. — Disse ele num tom de voz que evocava um híbrido de urso com gorila.
 — Tô ligado. — Eddie abaixou o suporte da chopper com a biqueira reforçada de seu coturno. O raspar metálico contra o paralelepípedo sujo compôs o hiato perfeito para o que encadeou a seguir. — Teu patrão que me chamou aqui, grandão.
 — Hm. — Eddie morreria sem saber se aquilo fora um resmungo gutural ou uma expressão de surpresa vinda do gigante de ébano. Enquanto tirava a corrente de sua cintura para prendê-la à moto, ouviu a frase mais inteligível vinda daquela criatura à porta.
 — Cinquenta libras. — Pronunciou o porteiro numa sonoridade gutural intimidadora.
 — Pelo quê?
 — Entrada.
 — Mas eu sou convidado, cacete!
 — Regras da casa.
 — Mas que…

A contragosto, Eddie enfiou a mão no bolso, puxou a carteira e entregou uma nota de cinquenta ao armário negro antes de ganhar o interior do pub. Esqueceu até mesmo de acorrentar a própria moto, diante da irresignação. O neon bruxuleante da entrada estava o deixando de mau humor. Isso era certo. Precisava de uma IPA para relaxar. Beber e descontrair antes de tratar de negócios com o Sr. Ipswich era uma necessidade mais que do urgente.

O barman não tinha boa mão pra servir um pint de IPA decente. Espuma rala, colarinho estreito e a cerveja praticamente no mosto deixavam-na quase como água de bateria velha de tão adstringente, mas Eddie não a refugou. Pelo menos a textura era boa, e o lúpulo deixava-a digna. Desperdiçar aquele néctar decadente — e as cinco libras que lhe custaram — seria um crime contra a Coroa, mesmo que estivesse pouco se lixando para essas coisas tipicamente inglesas.

Chamaram-no praticamente no mesmo instante em que secou o copo, como se o esperassem parcimoniosamente.

— Senhor Gustaffsen?
 — Em pessoa. — Disse enquanto limpava a boca no punho da jaqueta de couro.
 — Acompanhe-me, por favor.

Seu interlocutor também era um armário, mas bem menos intimidador que o postado na entrada do pub. Tinha até um mínimo vocabulário, em vez de grunhidos quase incompreensíveis. Se apresentou com um nome esquisito, que Eddie não gravara — cerveja quente e potencialmente alcoólica tinha esse poder amnésico momentâneo. Seguiram pelo salão decrépito do bar, contornando a pequena pista vazia onde possivelmente alguma stripper suburbana esfregava os peitos e a bunda nos clientes em horário comercial. Prendera a corrente da chopper de volta à cintura no mesmo momento em que alcançaram uma estreita escadaria, onde o Senhor-Nome-Estranho tinha certa dificuldade em emparelhar os ombros entre as paredes.

Poucos degraus ascendentes, e logo atingiram um típico gabinete decadente de casa noturna, absolutamente digno da decrepitude do pub num todo: carpete marrom desgastado pelo tempo, paredes com forração de madeira dos tempos da Segunda Guerra, luminárias e armários enferrujados, papel de parede amarelecido pelo alcatrão e cortinas mais encardidas que um mendigo da Trafalgar Square se somavam a um cheiro rançoso de cigarro fuleiro, suor incrustado e cerveja choca. A luz amarelada misturada a luminosos publicitários de gosto duvidoso espalhados pelas paredes transportavam Eddie a uma pequena sucursal do Inferno em plena Londres.

Ao fundo, uma velha escrivaninha de carvalho à frente de uma janela fechada emoldurava a figura roliça e tensa do Sr. Ipswich. Careca como uma bola de futebol e ostentando um bigode que faria muitos mafiosos sicilianos se matarem de desgosto, o homem parecia prestes a morrer de falta de ar — visto que o pescoço que desaparecera entre seu peito e a cabeça parecia estrangulado por uma espécie de medalha desproporcionalmente grande para ser usada como pingente.

— Senhor Gustaffsen. Sente-se, por favor. — Numa tentativa miseravelmente falha de expressar boas maneiras, o Sr. Ipswich fez menção com a mão estendida para que se aproximasse.

Desconfiado, Eddie aproximou-se e se sentou sem nada dizer, sempre sob a escolta do Senhor-Nome-Estranho. A voz entediada e insegura do Sr. Ipswich deixava-o ressabiado, especialmente pelo contexto em que se encontrava.

— Quer beber alguma coisa?
 — Tô de boa.
 — Hm. Certo. — O desconforto do homem roliço aumentou de maneira visível. — Acredito que saiba por que o chamamos aqui.
 — Faço ideia.
 — Mesmo?
 — É. Eu acho…

Sr. Ipswich transbordou seu desconforto saltitando e se reacomodando sobre a cadeira. O ar da sala era viciado demais… Mas não era só isso que o incomodava. Seu pingente era grande demais, sua gargantilha era pequena demais, sua camisa era apertada demais. O homem estava prestes a explodir num derrame tamanho seu próprio incômodo em existir — e Eddie percebia isso com certa indiferença.

— O que sabe a nosso respeito, Senhor Gustaffsen? — Sr. Ipswich arregaçou as mangas dobradas de sua camisa de cetim preto até os cotovelos, apoiando-os sobre a mesa enquanto cruzava os dedos roliços das duas mãos à frente do rosto.
 — Só sei o que preciso saber. — Eddie estava imóvel, mas não menos tenso ou relaxado. Era apenas a sua própria maneira de demonstrar desconforto. Indiferente, deu de ombros, contente com sua resposta.
 — E o que você sabe, exatamente?
 — Que vocês vendem armas.

Sr. Ipswich denunciou imediatamente por seu olhar arregalado que não estava preparado para uma resposta não incisiva. Fuzilou o Senhor-Nome-Estranho parado logo atrás de Eddie como se fosse uma convocação sumária, o que o fez atendê-lo prontamente. Parou ao lado da cadeira de Eddie, posicionado de forma estratégica num ângulo fora de seu campo de visão primário.

— Bem… — Sr. Ipswich levou o indicador à gargantilha, como quem tenta afrouxar a corda da forca. — Não entrarei no mérito sobre como essa informação chegou a você. Quero apenas saber se podemos contar com seus préstimos serviços…
 — Que tipo de serviços? — A presença do brutamonte ao seu lado deixara Eddie incomodado.
 — Do tipo facilitador… — Sr. Ipswich fez menção de se abaixar atrás da mesa, tingindo seu próprio rosto numa tonalidade ruborizada que fez Eddie ter a nítida impressão de que o homem fosse explodir. Antes disso ocorrer, contudo, ele trouxe de uma gaveta baixa um pacote de papel pardo recheado com um sólido volume retangular, o qual deixou sobre a mesa na exata distância entre si e Eddie.
 — Antes que faça qualquer pergunta, deixe-me fazer algumas considerações, Senhor Gustaffsen… — Sr. Ipswich abriu a boca amarfanhada do pacote e introduziu sua mão roliça através dela, puxando um maço de notas de que faria um lingote de ouro sentir vergonha de sua própria existência. — Meus empregadores têm alta admiração por sua pessoa. Não é todos os dias que temos um ex-combatente de elite do Real Exército de Nossa Majestade transformado num piloto de provas de corrida clandestinas e com todas as conexões no Exército e no Serviço Secreto que você possui, e ainda por cima frequentando o submundo de Londres com tamanha liberdade e desenvoltura…
 — E…?
 — E, bem… — Sr. Ipswich empurrou sugestivamente o tijolo de notas na direção de Eddie, que sequer reagiu. — Meus empregadores pagariam uma, digamos… — O arqueio de sobrancelhas do homem seguiu-se por uma apontada com seu queixo papudo ao volume sobre a mesa. — …Quantia obscena para saber quem intermedeia o fornecimento de armas para o Real Exército de Nossa Majestade.
 — É? Bom saber. — A indiferença de Eddie foi tratada com deliberado pouco-caso.
 — Não queremos forçá-lo a dar nomes ou informações que coloquem sua reputação em xeque, Senhor Gustaff — 
 — Eddie.
 — …Eddie. Então. Sua posição de relevância nesse contexto é o maior bem a ser preservado neste processo. Tudo o que queremos são apenas dados impessoais. Nada de nomes, patentes ou cargos. Meus empregadores são pessoas discretas, que como tal trabalham em sigilo e estão acostumados a receber informações seletivas e fracionadas… — Enquanto a tensão não o consumia, o velhote roliço até que falava bem, pensou Eddie. — Não queremos atrapalhá-lo nem causar-lhe problemas com isto. A nós, nos basta um número de celular. Um endereço residencial, um nome de escola, uma estação de metrô ou mesmo um estabelecimento frequentado habitualmente. Apenas informações suficientes para contatarmos a pessoa certa — 
 — Quanto tem aí?
 — P-perdão…? 
 — Nesse tijolão aí. Quanto tem?
 — Ah, sim. — Sr. Ipswich perdera completamente a linha de raciocínio com a interrupção. Hesitou alguns segundos antes de sentenciar. — O que vê aí não é um pagamento adiantado ou mesmo um bônus, Eddie. Isto é uma amostra.
 — Do quê?
 — Do quanto tais informações nos são valiosas… — O velho fez menção novamente de empurrar a pilha na direção de Eddie. — Queremos sua colaboração, ainda que esporádica. Precisamos de sua posição privilegiada dentro do submundo londrino para saber com quem negociar, a quem recorrer, de quem barganhar. E você, meu caro, é um dos poucos com livre acesso entre esses diversos núcleos.
 — Então, só o que vocês querem é saber quem negocia armas da fronteira pra dentro da ilha… Ou tô errado? — Até àquele momento, Eddie não fizera menção de exibir uma expressão facial sequer.
 — Precisamente! — Sr. Ipswich mal conteve seu ímpeto, desferindo um pequeno soco na engordurada mesa de carvalho. — Precisamos de um observador, e ninguém melhor do que você para desempenhar essa função…

Eddie refletiu sobre a questão por longos e intermináveis quinze segundos, até que seu silêncio trouxe tanto incômodo ao Sr. Ipswich que ele se viu obrigado a preencher o vácuo sonoro mais uma vez.

— A título de prêmio inicial, meus empregadores pediram que lhe fosse entregue esse montante após este nosso encontro, Sr. Gustaff — 
 — Eddie.
 — Eddie. Claro. E respondendo o que foi perguntado, aqui estão cem mil libras esterlinas não rastreáveis, as quais você pode fazer bom uso desde agora como lhe couber mais satisfatório… — Sr. Ipswich parecia triunfante diante da sua proposta, mas o novo silêncio vindo de Eddie — ou o mesmo de antes, já que ele quase não abrira o bico em quase dois minutos — fora a resposta mais dura dada ao homem do bigode de mafioso. 
— Claro que, se for da sua preferência, poderemos pagar-lhe em Euros… — O sorriso sarcástico na boca desprovida de lábios do velho deixava Eddie tomado de asco. — Dinheiro igualmente livre de rastros, pronto a ser usado em qualquer parte do mundo. — Apesar de aparentemente satisfeito com a proposta oferecida, a ansiedade de Sr. Ipswich deixava-o instável como uma criança nervosa. 
— E então? O que lhe parece…? 
 — … Cem mil libras…
 — É uma boa soma.
 — Eu tava feito na vida com essa bolada aí. — Intrometeu-se surpreendentemente o brutamonte ao lado de Eddie.
 — Moorcock, por favor.
 — Pois é. — emendou Eddie. — Cem mil é grana pra caralho.
 — E é apenas uma pequeníssima fração do que pode ganhar nos oferecendo seu auxílio. Pense na independência financeira que esta soma lhe d — 
 — Tô pensando é noutra coisa… — Disse Eddie, apoiando o queixo sobre o punho cerrado pela primeira vez na conversa.
 — E o que seria, exatamente…?
 — Vai dar um trabalhão do diabo enfiar esse tijolão inteiro no teu rabo.

Sr. Ipswich e Moorcock não tiveram reação diante da sentença. O hiato que tiveram para assimilarem o que Eddie disse foi a deixa para ele levantar-se da cadeira de súbito e, ato contínuo, erguer pé e chutar a escrivaninha contra o velho roliço, virando-a sobre ele e prensando-o contra o parapeito da janela.

Moorcock tentou segurá-lo, mas Eddie livrou-se dele num safanão brusco. Empurrou a cadeira em que estava sentado contra as pernas do capo, desequilibrando-o. Sem pensar muito, Eddie desvencilhou-se do brutamonte e deixou o gabinete em disparada. Ao chegar à escada de acesso, contudo, deparou-se com o barman subindo os degraus numa velocidade pouco convidativa.

Com uma garrafa na mão, o barman não deu trabalho para Eddie, que o chutou de sola no meio do peito, fazendo-o cair escada abaixo. Moorcock enfim o alcançou e tentou imobilizá-lo por trás com uma chave de braço, mas uma torção de pulso bem executada livrou Eddie e colocou o brutamonte temporariamente de joelhos.

Era hora de fugir daquela pocilga.

Eddie retornou ao gabinete do pub e o percorreu como um rastilho de pólvora, alcançando uma escada interna que dava acesso ao terraço do prédio. Ouviu passos pesados seguindo-o escadaria acima, no que teve a ideia simplista de trancar a porta anti-incêndio com um cabo de vassoura abandonado pelo caminho. Sabia que não os seguraria por muito tempo, contudo teria, pelo menos, a brecha suficiente para pular ao prédio do lado e descê-lo até o beco, onde pegaria a chopper e sumiria de Londres por uns bons meses — talvez até realizasse seu antigo sonho e revivesse os tempos de adolescência ao lado do tio rabugento mudando-se para Birmingham por um período, pensou ele enquanto percorria o terraço atrás de um pontilhão de incêndio que desse acesso a um prédio vizinho…

…Até que a garrafa certeira arremessada por Moorcock acertou sua têmpora.

Uma confusão de cacos de vidro, sangue quente e faíscas cerebrais ocasionadas pelo impacto jogaram Eddie de joelhos sobre o terraço. Levou a mão ao ferimento por instinto, ensanguentando-a numa profusão que quase o assustou.

Quase.

O chute que Moorcock desferiu contra seu rosto apagou qualquer menção de medo.

Precisava reagir, senão estaria ferrado.

Eddie levantou-se com dificuldade — não por estar quase a nocaute, mas porque Moorcock se pôs a socá-lo como se fosse um saco de areia. O grandalhão era lento como um porco bêbado, mas forte como um touro. Enquanto era esmurrado a esmo, Eddie se pôs de pé e, com a guarda fechada, passou a proteger-se dos murros de Moorcock para tentar recobrar o mínimo de lucidez possível…

… Mas cada soco de Moorcock explodia contra seus braços como se fosse um aríete.

O desgraçado tinha bons fundamentos de pugilismo, percebeu tardiamente Eddie ao ter o fígado embaçado por um upper abaixo das costelas. Mijaria sangue e cagaria pudim de Guinness por dias depois dessa, mas não deixaria passar barato.

Com agilidade, acertou uma boa sequência no rosto de Moorcock — um cruzado no queixo, um direto de esquerda no nariz batatudo e um upper quase na traqueia retardaram o brutamonte a um protótipo de leão marinho com sono. Um direto no olho e outro na boca do estômago colocariam o capanga a nocaute, em condições normais.

Mas o filho da puta tinha uma resistência impressionante…
…E uma esquerda desgraçada.

O impacto sob o olho tirou Eddie de órbita. Mesmo grogue e recuando, Moorcock acertou-lhe a boca numa força desproporcional. Dois molares, o canino e dois incisivos superiores voaram pelo terraço. Um upper curto na ponta do queixo e outro no nariz desmontaram-no como uma boneca de pano. Caiu quase no parapeito do prédio de três andares, temendo ser arremessado. Mas Moorcock não queria matá-lo.

Queria amassá-lo.

Socou a cara de Eddie até que o supercílio esquerdo e o nariz fossem uma ruína de pele lacerada e sangue. O sétimo dente se foi, e parte da consciência se foi junto.

— Cara…
 — Cala essa boca!

Outro soco. E outro. Eddie se sentia como uma criança sendo espancada pelo padrasto bêbado. Tentar se proteger com os braços e mãos era inócuo àquela altura. Moorcock, afinal de contas, mostrava porque era capo do Sr. Ipswich, que estranhamente não reaparecera até ali.

Moorcock enfim parecia exausto; ofegante, sua mão esquerda vertia sangue de tal modo que dificilmente seria oriundo da cara amassada de Eddie, tamanho o volume. Parou de esmurrá-lo, para alegria do seu oponente.

— Foi mal, cara.
 — …Quê? — Eddie estava às portas da inconsciência, mas a bizarra pausa dramática do oponente o despertou um pouco.
 — Sabe como é… Coisas de trabalho, saca?
 — O q-que v — 
 — Sou de família católica. Quatro filhos, foda de sustentar todo mundo… — O brutamonte enxugava a testa encharcada de suor com a manga da camisa branca enquanto falava. — A gente acaba encarando uns trampos bem fodidos pra botar comida em casa.
 — Sei como é. — Eddie não fazia a menor ideia do que estava dizendo.
 — Menos mal, cara. — Moorcock se pôs em pé, erguendo Eddie pelo colarinho e a lapela da jaqueta o suficiente para que ficasse de joelhos. — Então, como diz o chefe, nada pessoal.
 — Como assim–

Moorcock parecia friamente decidido a jogar Eddie do alto do prédio — uma queda livre de, pelo menos, cinco metros até o calçamento do beco. Dificilmente morreria com a queda, mas ficaria tão ferrado que decerto passaria o resto dos seus dias atado a uma cama e tomando cerveja de canudinho…
…Se um assobio conhecido não soasse alguns metros atrás de Moorcock, chamando sua atenção.

O brutamonte fez menção de virar o rosto por sobre o ombro esquerdo, no que um fundo de garrafa quebrada voou diretamente no seu olho. O impacto contundente seguido do esguicho de sangue foi o suficiente para que soltasse Eddie e, aos berros, se voltasse por completo para quem o atacara.

Eddie mal enxergava um palmo à frente do nariz esborrachado de tanta porrada, mas ouviu quando o cabo da vassoura quebrada que usara para trancar a porta anti-incêndio foi lançado na sua direção e repicou à sua frente. Tateou o chão e, com ele em mãos, ergueu-se em pose triunfal.

Através do olho menos ferrado, enxergou Moorcock trocando porrada com um tipo alto e forte, cujo cabelo comprido preso em rabo de cavalo lhe era inconfundível. A diferença dele para Eddie é que, a cada soco desferido em Moorcock, o grandalhão acusava os golpes como um colegial numa briga depois da aula.

Numa sequência de diretos e cruzados, o cabeludo pôs o capo do Sr. Ipswich fora de ação, dando a deixa para que Eddie se aproximasse e, usando o cabo de vassoura como um taco de cricket, varresse a boca do infeliz para o Inferno.

— Pelos meus dentes, seu católico filho da puta.

E cuspiu sobre o despojo desacordado.

Ainda meio sem fôlego, Eddie teve de ouvir um gracejo.

— Mas tu tá velho, Gus! Apanhando feio prum velho gordo?
 — Vai ser foder, Sebastian.

O outro gargalhou, enquanto dava um jab no ombro do amigo.

— Fazia tempo que eu não te via tão ferrado.
 — Onde tu tava, seu filho da puta?
 — Socando o dono do puteiro e o armário ambulante lá da portaria.
 — Sozinho?
 — Mais ou menos. — Sebastian mostrou os punhos: ambos adornados por socos ingleses, um deles tendo uma lâmina retrátil. — Se tivesse me esperado, não teria apanhado igual cachorro de mendigo.
 — Já mandei tu ir se foder hoje?

Sebastian irrompeu em nova gargalhada.

— Já te falei pra não se meter com a Máfia. Fica só entre as hoods que não dá rolo pro nosso lado.
 — Não tem nosso lado aqui. Já te falei que tem coisas na qual eu trabalho sozinho, cacete.
 — Então pra quê me chamou aqui, seu ingrato?
 — Precisava de apoio, caso desse merda…
 — E quando é que não dá…? — Sebastian chutou um caco de vidro para longe, enquanto sacava o maço de cigarros no bolso interno da jaqueta.
 — Por aqui tá feito. Nada de trampo com esses caras. — Eddie parecia tentar desentortar o nariz esborrachado, falhando dolorosamente. — Hora de vazar.
 — Belê. Tu que sabe… — Sebastian acendeu um Silk Cut e baforou para o lado oposto de Eddie, enquanto deixavam o terraço. — Tem grana pra gente?
 — Um tijolão ali embaixo.
 — Quanto?
 — Cem milhas.
 — …Caralho! — Sebastian quase deixou o cigarro cair da boca. — Mas tu ganhou a grana?
 — Olha pra minha cara. — Eddie parecia prestes a socar o parceiro até a morte. — Chamo isso de recompensa por danos.

Os dois desceram as escadas e alcançaram o gabinete, encontrando-o muito mais revirado do que o deixaram. A pesada escrivaninha de carvalho estava no mesmo lugar de antes, porém partida ao meio.

Eddie se aproximou dela, esperando encontrar o tijolo de dinheiro que Sr. Ipswich lhe oferecera.

Encontrou apenas o próprio velho com a cabeça espatifada entre a prancha partida da mesa.

— Puta que pariu, Sebastian! — Eddie virou a cara, enojado. — O que tu fez aqui, caralho!?
 — …Quê? — Igualmente surpreso, Sebastian se aproximou da mesa partida, compartilhando da mesma reação de horror que acometera Eddie. — …Caralho. Caralho! — Recuou dois passos, realmente muito assustado. — Eu não fiz isso, cara!
 — Puta merda.
 — Sério!
 — Puta que pariu.
 — É sério, Gus!
 — Vamos picar daqui antes que chegue mais desses filhos da puta. — Eddie tomou à dianteira visando deixar o gabinete para trás, mas se deteve um segundo. — Espera… A grana.
 — Que tem ela?
 — Tava em cima da escrivaninha do velhote.
 — Tava não.
 — Claro que tava! — Eddie cuspiu uma bola de sangue coagulado na parede. — Eu deixei essa merda aqui quando larguei fora.
 — Tava no chão quando passei aqui há pouco.
 — Ah, que ótimo! — Eddie explodiu em impaciência. — Essa porra agora criou perna e foi dar uma volta lá no palácio de Buckingham, pelo visto.
 — Só se alguém esteve aqui depois da gente.
 — E tu deixou alguém inteiro pra isso…?
 — Vai saber!

Eddie chutou a cadeira para longe. Estava com a cabeça latejando de tão brabo. Olhou ao redor do gabinete, vendo alguns armários antigos, todos escancarados e esvaziados. Muita papelada espalhada pelo chão atravancava o caminho. A frustração assumiu as ações, e decidiu ir embora de mãos vazias.

Sebastian seguiu na dianteira, alcançando a escadaria que levava ao salão do pub. Ao chegar nela, Eddie o chamou.

— Quanto temos em caixa?
 — Acho que uns dez mil… Não. Quinze, depois de Donnington Park. 
 — Ótimo. Separa uns cinco mil. Pras broads e pro trago.
 — Belê. — Sebastian deu uma última tragada no cigarro e virou o pé para apagá-lo na sola da bota. — Depois de hoje tu está precisando de uma —

A mão ensanguentada que emergiu da sombra interna da escada e tragou Sebastian pelo pescoço sequer o deixou terminar a frase. Eddie correu na direção dele, apenas para ouvir o amigo rolar escada abaixo em luta corporal com um oponente.

Uma profusão de socos e chutes atabalhoados e às cegas se fez ouvir por alguns segundos, antes que um volume duplo emergisse no salão do pub. Sebastian caíra de costas, e o porteiro afrodescendente pôs se a socá-lo como um bate-estacas incessante.

Eddie voou escada abaixo, pulando com os dois pés na lombar do porteiro. Foi como cair de pé em cima de um tronco inerte.

Assim como Sebastian, o desgraçado usava socos ingleses em ambas as mãos — com o diferencial de que cada um possuía saliências contundentes que tornava possível socar uma parede sem maiores consequências. A questão é que a parede era o rosto de Sebastian.

Eddie chutou-o no baço e deu-lhe um coice na têmpora; apenas o segundo refreou o massacre contra Sebastian. Depois de quatro ou cinco socos, o amigo já estava com a cara arruinada. Eddie precisava retribuir o favor que recebera contra Moorcock — o problema é que o porteiro era possivelmente tão forte quanto o capo gordo, e certamente muito mais resistente e ágil.

Ele encarou Eddie de baixo, exibindo alguns hematomas e escoriações no rosto que acusavam o enfrentamento anterior com Sebastian. Eddie tentou chutá-lo, mas ele interpôs os socos ingleses contra sua canela. Ergueu-se mais devagar do que Eddie esperava, contorcendo o rosto de dor no processo. De pé, o ferimento que trazia à altura do estômago fez Eddie entender como o amigo o sobrepujou. Do diâmetro de um taco de bilhar, a estocada na barriga do porteiro ainda sangrava, apesar de emoldurada por um halo coagulado. Desarmado e sem socos ingleses, Eddie sabia que partir para a trocação com aquele mastodonte o mataria — principalmente depois dos ferimentos infligidos por Moorcock.

Pedalou-o na altura da virilha, esperando dobrá-lo de dor. O golpe fora mais físico que doloroso, apenas empurrando-o um passo para trás.

Como resposta, o porteiro desferiu um cruzado ‘mata-cobra’ contra Eddie, que se esquivou tal qual estivesse numa aula de boxe. Assim tentou outra vez e mais outra, forçando Eddie a esquivar-se com a guarda aberta. Ameaçou um cruzado de direita, fazendo Eddie ganhar o flanco e desferir um direto certeiro contra o ferimento abdominal.

E o porteiro, em vez de grunhir com sua voz gutural, urrou como um urso. Ato reflexo, agarrou os braços de Eddie e aplicou-lhe uma guilhotina, envolvendo seu braço no pescoço dele. Levou-o de cara ao chão, esborrachando ainda mais o rosto de Eddie. Como se não fosse pouca desgraça, desferiu um potente direto de esquerda contra as costelas dele, que estalaram como um chocalho.

Em segundos, o gosto de sangue invadiu a garganta de Eddie, que começou a perder o fôlego…

Outro golpe fora desferido contra o rim, o que agora o faria mijar sangue por um mês. Os poucos socos que conseguia acertar contra o brutamonte eram praticamente inócuos; morreria em minutos, sem ar ou esmagado de tanta porrada.

Até que sentiu a corrente da chopper sendo puxada de sua cintura.

O porteiro afrodescendente se deteve e afrouxou a guilhotina, até que o soltou por completo. Inflar os pulmões em busca de ar nunca fora tão aliviante e doloroso ao mesmo tempo. Eddie rolou para o lado, apenas para observar Sebastian esmagando a traqueia do porteiro puxando a corrente da chopper enquanto pressionava a nuca dele contra seu joelho.

O animal se debateu por alguns segundos, enquanto Sebastian se rasgava numa careta de força tremenda. Os olhos esbugalhados e a língua arroxeada deixavam o semblante do afrodescendente aterrador, e Sebastian não se deteve até sentir que o porteiro estivesse fora de ação. O que demorou quase um minuto.

Em choque pela surra e pelo tórax ferrado, Eddie esperou Sebastian terminar o serviço. Só então ergueu-se e, mesmo quase sem condições, auxiliou o amigo a se levantar.

— Chega por hoje…
 — Só… Tô morto.
 — …Dois.
 — Ceva?
 — Hospital.
 — Belê. E a grana?
 — Foda-se. — Num resfôlego, Eddie se apoiou em Sebastian. — Só quero sair desse buraco.

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