O Povo do Lar
Conto originalmente publicado na página ‘Nada Além de um Conto’ no Facebook em 26 de Novembro de 2015.

Swábyi percebeu a aproximação assim que o Sol se ergueu.
Teve dificuldade em divisar o que era. Parecia uma kân, mas maior. MUITO maior. Escondia o Sol de forma desrespeitosa perante o Lar, rasgando a terra com sua sombra por muito longe.
Ouvira os Velhos falarem diversas vezes de coisas assim; monstros feitos de árvore e pedra brilhantes, domadas por fantasmas de carne pálidos como areia, que traziam consigo a morte e instrumentos mais poderosos que as suas armas de caça.
Mas Swábyi jamais havia os visto. Não até aquela manhã.
Largou o cesto onde recolhia tík para o almoço e correu para dentro do Lar.
Cruzou por Swázila e, aos berros, anunciou a aproximação das coisas.
A vila ainda despertava — os Velhos eram os últimos a acordar, e suas esposas, algumas mais jovens que Swázila, já preparavam os festejos da centésima lua de Swello, o filho mais homem do Grande Velho. As Mães de Leite diziam que ele estava vivo desde quando o Lar ainda era próximo da Grande Mãe, lá onde o Sol dorme. Mas isso eram histórias que os outros Velhos contavam à exaustão a cada Lua. Lendas tão distantes quanto as de tíks gigantes nadando fora d’água, domados por fantasmas vestidos de luz e peles estranhas. Ou de fantasmas domando pássaros de pedra brilhante que voavam perto da Lua e do Sol, que largavam seus ovos na água e irritavam o Senhor do Mar, aquele que brigava seguidamente com o Senhor do Céu.
Apenas histórias. Pelo menos até agora.
Swábyi era pequeno quando o Senhor do Mar despertou sua Fúria e engoliu o Lar. A terra tremeu, a vila caiu e os Velhos ordenaram que todos subissem nas torres para se abrigar.
Mas faltou torre para todos.
Então os Velhos ordenaram que os guerreiros enfrentassem a Fúria do Senhor do Mar. Quando o mar veio, estava realmente furioso… E levou os homens, o que restara da vila e quase todo o Lar embora.
A água que veio envenenou a terra. Shurum parou de nascer. Os lìts sumiram, e as aves não vinham mais caçá-los.
E veio a fome.
Faltou tík por semanas. Tiveram de juntar os que morreram na areia, após a água baixar. Fediam como a morte, mas os comeram mesmo assim. Consumiram a morte, e ela logo veio até eles.
Eram quatrocentos no Lar até então. Após a Fúria, sobraram menos de duzentos. Os únicos homens eram os Velhos e os pequenos, assim como Swábyi. O Grande Velho ordenou que mesmo os pequenos semeassem as mulheres, pois precisavam ter de volta os guerreiros que morreram lutando contra a Fúria do Senhor do Mar.
Assim Swábyi semeou uma dezena delas. Dez luas depois, sete delas estavam barrigudas e parindo crianças birrentas. As Mães de Leite cuidavam delas, enquanto Swábyi aprendia a usar a lança e o arco.
Não tinha nem chegado à décima terceira dúzia de Luas, e já era um guerreiro do Lar.
Swázila era da mesma idade dele. Nasceram da mesma barriga, diziam as mulheres mais velhas, embora a mulher que os pariu morrera botando-os para fora. Um dos Velhos quis dá-los ao Senhor do Mar, porém os demais o proibiram. Fora esse Velho o mesmo que acusara os dois de terem despertado a Fúria, mas ninguém deu-lhe ouvidos.
Swábyi percorria toda a volta do Lar pelo menos uma vez ao dia; gostava de subir nas torres e vê-lo de cima, especialmente quando o Sol despertava e saudava o Lar. Era caminhando nas terras ásperas que o Lar tomou do Senhor do Mar que Swábyi se sentia em paz consigo mesmo.
Uma vez, contaram que um pássaro estranho se aproximara do Lar e jogara seus ovos sobre a terra. Ele grasnava como a tempestade e suas asas batiam como trovões. Guerreiros jogaram suas lanças, e um deles acertara uma flecha no monstro, que foi embora, com medo.
Assustados, os Velhos queimaram os ovos e atiraram suas cinzas ao Senhor do Mar, em tributo.
Noutra, os fantasmas chegaram ao Lar com filhotes. Ninguém os viu chegar, talvez porque afrontaram o Senhor do Mar e invadiram seu domínio enquanto a Lua dormia. Quem os viu disse que trouxeram consigo pequenos fantasmas de pele pálida, leitosa e engordurada; pareciam doentes e febris, disseram as mulheres que os receberam. Tinham cabelo morto e falavam algo incompreensível, além de vestirem peles mágicas, coloridas como penas. Ofereceram presentes, todos sem utilidade para o Povo da Mãe.
Tanto os Velhos quanto os guerreiros foram unânimes depois desse episódio. Todos deviam ter sido mortos ali mesmo.
Swábyi não entendia o porquê, mas os Velhos diziam que os fantasmas traziam a morte consigo. Que eram gentis e sorridentes, mas sempre escondiam o Mal em seus espíritos.
O Grande Velho contava, de tempos em tempos, que o Povo da Mãe quase se extinguira no passado, levados pelo Mal invisível trazido quando os fantasmas ali chegaram vindos num imenso tík com couro de árvore e barbatanas de pele branca. Pegaram água boa, kúks, carne de púng e algumas aves. Deixaram escamas de Sol, estranhos frutos da terra e pedaços de Céu como tributo ao Povo da Mãe, além de semearem algumas mulheres. O que elas pariram, contudo, foi uma aberração: filhos do Povo da Mãe com fantasmas, de pele leitosa, cabelo morto e olhos d’água. Mas o pior estava por vir.
Muitos morreram de tosse, febre ou tripa frouxa. Nem o shurum os curava. Então os Velhos mandaram matar os filhotes dos fantasmas, misturaram seu sangue, tripas e miolos na água fervida e beberam, em oferenda ao desrespeito para com o Lar.
A Grande Mãe, em tributo, salvou muitos outros da morte.
Agora, tanto tempo depois, era normal que o Povo da Mãe tivesse medo dos fantasmas. Para todos, eram criaturas malignas, que sempre vinham apenas para semear as mulheres e bisbilhotar o Lar. Não à toa, os guerreiros sempre os repeliam de forma valente.
E agora seria igual.
Mas o tík em que se aproximavam era muito maior do que os contos dos velhos. Da cor do sangue, não tinha barbatanas — apenas uma cabeça que brilhava à noite, como se chamasse a Lua para perto de si. Swábyi alertara a vila e os guerreiros se armaram, rumando aos limites do Lar com os domínios do Senhor do Mar. Só observaram, dia e noite, para ver se os fantasmas se aproximariam. Mas ninguém veio.
Enquanto aguardavam, comeram tík assado e beberam água de kúk até dormirem e, mesmo assim, ninguém veio do monstro.
Então decidiram ir até ele.
Pediram a bênção da Grande Mãe e cortaram algumas árvores. Colheram cordas. Cevaram galhos e assentaram sobre as árvores amarradas. Em respeito ao Senhor do Mar, colocaram sua kân sobre seus domínios enquanto o Sol e a Lua dormiam.
Então remaram até o monstro.
Seu tamanho tornava o Povo da Mãe minúsculo — Swábyi se sentia pequeno como uma shuzan ao pé de uma torre. Swello, seu irmão de lança e filho do Grande Velho, arremessou sua arma contra a pele avermelhada do monstro assim que se sentiu seguro para abatê-lo, mas a criatura nem reagiu.
As fúrias do Senhor do Mar jogavam sua kân contra o monstro, fazendo-os oscilar muito. Swangti, outro dos irmãos de lança, atirou com seu arco ao alto. Sua flecha subiu e caiu, mas não retornou à água. Swábyi sugeriu que caíra sobre o dorso do monstro, e que isso o acordaria. Os outros dois riram dele…
…e então o monstro rugiu.
Fantasmas surgiram no seu dorso. Gritavam e jogavam coisas, até que Swello foi atingido. Uma flecha fantasma o atravessou, fez-lhe sangrar e morreu, antes que pudesse ser abraçado pelo Senhor do Mar.
O monstro rugiu de novo. Fantasmas sopraram fogo sobre eles, obrigando Swábyi e Swangti a remarem.
Nisso, o monstro roncou.
Seu ronco estremeceu seu peito, e de tão poderoso desfez as fúrias do Senhor do Mar em espuma. Parecia, aos ouvidos de Swábyi, como um imenso púng raivoso prestes a ser morto. Continuaram a remar para longe, até estarem seguros do sopro de fogo dos fantasmas.
Não se surpreenderam quando o monstro soltou seus filhotes e os fantasmas foram embora montados neles. Outro monstro veio e colheu os fantasmas, levando-os embora antes do Sol dormir.
Ao voltarem para o Lar, Swábyi e Swangti contaram aos Velhos, mulheres e irmãos que expulsaram os fantasmas. Todos vibraram. Honraram Swello e o entregaram ao Senhor do Mar como os guerreiros deviam ser honrados: com a barriga cheia de pedras, na companhia de sua lança em uma kân tomada pelo fogo ao encontro de suas fúrias.
Por fim, todos se tornaram Heróis do Lar da Grande Mãe. Afinal, haviam expulsado o monstro e seus senhores fantasmas de volta à Sombra do Mundo.
E, mais uma vez, a distante e saudosa Grande Mãe poderia dormir em paz com seus Filhos sem ser importunada.

Este Conto faz parte do projeto Tales from a Thousand Words, cujos contos são publicados pelo Autor em seu Perfil no Medium e na Página Tales of Wonderland no Facebook. Para acompanhá-lo, siga-o no Facebook | Twitter | Medium.
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