Portas e Escadas
Conto originalmente publicado na página ‘Nada Além de um Conto’ no Facebook em 3 de Dezembro de 2015.

Portas. Havia muitas delas no campo de visão de Marie.
Dezenas. Centenas. Talvez milhares delas. Alinhadas em corredores infinitos, assumindo espirais retorcidas, confundindo-se com degraus, ladrilhos e basculantes, ocupando lugares onde esperar-se-ia que haveriam janelas. Mas nada do que Marie enxergasse, não importa até onde esticasse seu olhar, fazia sentido.
Uma miríade de aberturas se abriam e fechavam num ritmo estranho, como flaps de um globo de luz numa festa retrô. A cada porta que ela alcançava e abria, deparava-se com salões imensuravelmente vastos, cujas portas giratórias faziam as vezes de ventiladores de teto, ou mesmo exaustores de fábrica. Portas espelhadas que não davam em lugar nenhum; corredores circulares que causavam náuseas e vertigem, dando-lhe a sensação de descida enquanto conduziam-na ao alto. Tudo para, no fim, encontrar outra porta, enfim atravessá-la… E se deparar com outro salão imenso.
Ou seria apenas o anterior? Difícil saber. O desespero crescente já quase cegava os últimos recônditos de lucidez de Marie, a ponto de o riso histérico preencher a lacuna onde sua sanidade estivera até havia pouco. Por vezes ela ria de forma convulsiva, num misto de choro e gargalhada que ecoava pelas paredes sem fundo daquela imensidão caleidoscópica de portas e escadas.
Ah. As escadas. Rolantes, corrimões, caracóis em looping. Ligando portas que davam em paredões de tijolos, abrindo-se em espelhos côncavos que escondiam passagens em pontos cegos. Degraus sobrepostos em planos obtusos que desafiavam a gravidade (se é que as leis da Física se aplicavam àquele lugar) conduziam-na do nada ao lugar nenhum. Por vezes, Marie sentia-se subindo infinitos degraus sem sair do lugar, enquanto uma porta ou outra se projetava sobre ela numa velocidade incompatível com seu (imaginário) avanço. Ouvia, entre um titubeio e outro sobre qual caminho tomar, uma gargalhada distante — como se alguém fizesse troça de sua angústia.
Uma parca fonte de luz surgiu em sua visão periférica, pálida e distante como a lua minguante detrás das nuvens. A saída daquele labirinto? Impossível saber — sequer mesmo discernir o que emitia aquele leitoso halo quase desvanecido em meio às trevas engolfadoras daquela penumbra sufocante.
Tentar observá-lo resultava num esmaecimento completo, como se focá-lo fizesse-o desaparecer. Ela só enxergava-o se não o olhasse, como num daqueles truques ópticos que a professora de Física lhes apresentara numa aula do segundo ano. E isso a irritava. Não pelo truque em si, mas por lembrar da professora, baixinha e com uma gargalhada esganiçada que lhe despertava a raiva mais primordial.
Foi, nesse momento, que a raiva sufocou sua angústia. Coincidência ou não, o caos transmutou-se a sua volta.
Portas desapareceram, dando lugar a imensos arcos interligados às infindáveis escadarias onde ela escalava já com dificuldade. Com o tempo, os degraus converteram-se em dormentes, os corrimões em trilhos… E o som de uma locomotiva distante se fez ouvir.
N’algum momento indistinguível de seu passado imediato, pensara ela se tratar aquilo de um sonho. Ou um pesadelo, conforme arguiu de forma óbvia após percorrer dezessete vezes o mesmo corredor de portas oblíquas como uma fileira de peças de dominó em queda.
Ou seriam dezoito? Já não mais importava. As portas haviam reaparecido. Pior: eram, de fato, imensas peças de dominó aleatórias. Nem mesmo um padrão a seguir que a ajudasse. Estar descalça e vestindo sua camisola preferida (a que roubara da irmã mais velha uns meses antes sem que ela desconfiasse) corroboravam sua tese até a certeza quase plena. Se estivesse pelo menos num sonho produzido pelo insidioso Freddy Krueger, teria pelo menos a chance de ser induzida ao medo através de seus psicóticos joguetes do mundo onírico, em vez de estar perdida num imenso labirinto de portas e escadas sem sentido. Mas nem o direito ao medo ela tinha à disposição: sua mente adolescente era uma desolação em termos de criatividade.
Afinal, tudo aquilo era muito clichê para ser apenas um sonho.
Contudo…
Por que seus pés doíam tanto, se tudo aquilo não se passava de um sonho (louco)?
Lembrou-se da cartela de calmantes ao lado da cama, sobre o criado-mudo — e, como se estivesse por um momento desperta, viu os comprimidos ao lado da taça de vinho carmenère que bebera junto com um deles. Just relax, pensou antes de colocar os fones de ouvido e dar play no smartphone, lembrou-se. Mas, antes que o Spotify carregasse a primeira música (3G lixo), uma imensa bola de praia repleta de espelhos quicava à sua frente num ritmo escalafobético ao som de Bedlam Sticks, da D:S:O.
Cômodos de um hotel vitoriano abriram-se à sua frente em ângulos improváveis. Estátuas de mármore pareciam dançar uma valsa de uma nota só sobre o tapete de mofo e musgo acumulados no assoalho de pedra áspera. Um velho gramofone emitia golfadas d’água, acompanhadas do som de ondas quebrando sob um rochedo. Cortinas costuradas em antigas velas de um galeão inglês flamulavam ao sabor de ondas… Como se estivesse agora, de fato, no salão de um navio naufragado.
Via-se caminhando sobre o teto, desviando de imensos lustres de cristal que pendiam de baixo, conforme seu ponto de vista. Um salão de banquete servido no leito de uma piscina, com cenouras e berinjelas nadando no ar como enguias. O cheiro de peru assado na cerveja a fez salivar, apesar de odiar cerveja. Só o vinho lhe apetecia. A taça em sua mão a lembrara do carmenère chileno. Do calor agradável que lhe subia pela nuca e bochechas a cada gole, deixando-a rosada como um bebê. Gostava de se ver assim, com o rosto corado. Sentia-se atraente, sexy. Criava um contraste interessante com seus olhos claros e o cabelo loiro…
Foi então que o ar se tornou vinho.
Tentou bebê-lo, mas engasgou. Tossiu num abrupto, fazendo o fluxo sair por seu nariz. O gosto de vômito repugnou-a com tanta força que outra golfada emergiu, ainda mais agressiva que a primeira. Seus olhos lacrimejaram com tamanha ardência que tossir era quase impossível. O ar lhe faltava. O peito pesava. Seu pescoço parecia apertado. Eram como mãos gélidas segurando lâminas pressionando-lhe a garganta.
E então ela percebeu que seu vômito, na verdade, não era vinho…
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