
Alô?
Quer falar com quem?
Solange só não tinha ligado ainda para a companhia telefônica porque seus ossos tremiam ao imaginar o suplício de cair nas garras do temido atendimento ao cliente. As vozes gravadas, as opções numéricas confusas e aquele famigerado “aguarde um momento na linha” faziam seu cabelo arrepiar tal qual aquela experiência que todos já fizemos na escola, quando se coloca a mão em uma redoma de vidro esquisita com uns raiozinhos passando e nossa cabeleira se põe de pé instantaneamente. Mas ela já estava prestes a abdicar de qualquer receio, enfrentar seus traumas e discar aqueles três números acompanhados de um asterisco. Alguém precisava resolver aquela situação.
Já havia meses que sua linha residencial apresentava o mesmo problema. Constantes ligações, nos mais variados horários, que, quando atendidas, simplesmente caíam. Do outro lado, só aquele pi-pi-pi-pi-pi. De início, era mais o medo. Pensava se tratar de alguma modalidade de golpe, ou temia que algum bandido quisesse constatar sua presença em casa para planejar o melhor momento de invadir. Também imaginava que fosse algum parente sequestrado ou coisa assim. Com o tempo, passou a cogitar que se tratasse de sua mãe tendo uma crise de hipoglicemia e tentando pedir ajuda. Talvez simplesmente ligando para perguntar qual era mesmo o número do canal que passava aqueles bichos na natureza, que ela adorava assistir. Tanto faz. Mas ultimamente, era a aporrinhação mesmo. A desgraça do telefone tocava sempre nos piores momentos: durante o cocô, o banho ou, pra piorar, enquanto os jurados do MasterChef trituravam os aspirantes a cozinheiros do programa - um dos momentos mais aguardados do seu dia.
O fato é que havia algo de errado. Conversou com suas amigas para saber se a situação também as acometia, e apelou até para o Zé Roberto, que aceitou vir dar uma olhada na instalação, nos fios e tudo mais, mesmo após as juras de ódio eterno que ela proferiu quando ele pediu o divórcio para ir morar com a tal da Leila.
Após exatos 36 minutos de ligação, a companhia telefônica constatou que a linha da Solange estava em perfeito estado, o que só aumentou ainda mais seu estado de nervos. Sua última aposta tinha sido cadastrar seu número nos órgãos de defesa do consumidor: se fossem as empresas de telemarketing, iria acabar. Mas não acabou, e se a linha não tinha defeitos, ela estava oficialmente desistindo. Chega de pi-pi-pi, chega de encheção. Solicitou o cancelamento da linha à mocinha do atendimento, que lutou arduamente, porém em vão, para dissuadir sua cliente de tal ideia. Daquele momento em diante, o 3467–9943 não era mais o número da Solange. Quem quisesse falar com ela, que usasse o celular ou mandasse mensagem, sei lá. Afinal, quem, hoje em dia, ainda usa o telefone fixo para se comunicar, oras!
A sensação de liberdade e alívio foi avassaladora, mas durou pouco. Uns 4 dias, na verdade. Foi justamente durante um dos episódios do MasterChef, que o plantão de notícias entrou no ar para transmitir as cenas surreais da invasão alienígena. Em meio a imagens de prédios fumegando e pessoas sendo abduzidas, Solange ainda pôde sentir um misto de vergonha e envaidecimento ao ouvir o pesquisador de uma universidade que dizia ter decodificado a linguagem deles. “Aos nossos ouvidos, parece o barulho de linha telefônica ocupada, aquele pi-pi-pi de quando a ligação cai. Eles escolheram um representante humano e tentaram contato, tentaram insistentemente um acordo pacífico, mas ficaram zangados com as constantes negativas. É o nosso fim, eles estão putos!”.
