Veganismo em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada tentando ser vegano.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes comi porco, tantas vezes vil

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma coxinha de frango na madrugada.

Não estou familiarizada com os hábitos alimentares do Fernando Pessoa, mas ele certamente se sentiria meio deslocado entre a comunidade vegana da internet. Parece que todo mundo acordou um dia, tomou asco de carne e nunca mais olhou pra trás. Eu só ouço falar de como “essa foi a melhor decisão que já tomei na vida”, “nunca mais voltaria atrás” e “nossa, tenho até nojo de olhar prum pedaço de pizza”.

Tá bom.

Então sou a única diferentona que enfrenta, digamos, dificuldades. Que escorrega aqui e ali. Que se questiona de vez em quando, encarando o cardápio do restaurante, “por que será que eu estou voluntariamente tornando a minha vida mais difícil?”ou “vai mesmo fazer diferença deixar de comer um queijo coalho no churrasco?”. E que depois chora vendo vídeos de abatedouros. Que se sente culpada porque o sacrifício de não comer um risoto não é nada perto do sofrimento e da tortura que esses animais vivem. Que se revolta com a ignorância generalizada e decide assumir a missão de converter a humanidade ao veganismo. E ainda tem vontade de comer sushi.

Tudo ao mesmo tempo e não necessariamente nessa ordem.

Senta que lá vem história

Aos 15 anos, fui vegetariana durante três meses. De uma hora pra outra. Em parte porque eu estava super obcecada por yoga e considerava a mudança alimentar um passo natural. Em parte porque eu gostava de um menino que era vegetariano e achava que isso ia me aproximar dele. No fundo eu nem sabia direito por que estava fazendo aquilo, só “achava que devia”. Foi horrível. Eu não me planejei, não sabia o que comer, não tinha muita iniciativa para buscar mais informações e tinha preguiça de aprender a cozinhar. As coisas que eu comia tinham uma aparência horrível e um gosto pior ainda, e eu achava que tinha que ser assim, que o sacrifício era uma espécie de mérito. Obviamente não durou muito.

Mais de uma década depois, a questão bateu novamente à minha porta. Numa manhã de procrastinação, acabei diante de um vídeo de pouco mais de cinco minutos que resumia de forma breve, mas não menos gráfica, a realidade dos animais na indústria do alimento. Chorei, tive ânsia de vômito e dei glóriadeus por não ter almoçado ainda, pois assim teria uma chance de fazer diferente. Nesse dia comi um hamburguer de grão de bico, e decidi que não iria mais comer carne.

Durante os dois anos seguintes fui peixetariana (se isso não for uma palavra passa a ser). Deixei de comer carnes vermelhas e frango, mas ainda comia peixe, frutos do mar e derivados animais, como leite e queijo. Eu mal senti a diferença, e não houve uma situação sequer em que eu não encontrasse uma opção adequada à minha nova dieta.

Honestamente, foi fácil pra caramba!

Nesse tempo, fui aos poucos me envolvendo mais e mais com o assunto, e passei a prestar muito mais atenção à minha alimentação. Quase sem perceber fui sendo atraída para o veganismo, e comecei a me perguntar se não seria melhor mudar logo completamente. De nada adiantava não comer frango mas comer o ovo que vinha de uma galinha criada nas mesmas condições, com o mesmo sofrimento. Ou me abster do bife mas cair de cara no queijo, que vinha daquela mesma vaca, vítima da mesma indústria perversa. Ainda que indiretamente, eu continuava matando os mesmos animais.

O próximo passo

Faz pouco mais de um ano que resolvi virar vegana (ou melhor, plant-based, antes que alguém tarado por rótulos me corrija, já que apenas minha alimentação excluía produtos animais, mas eu ainda usava xampus que pudessem ter sido testados em coelhos ou calçava botas de couro). Dessa vez não foi tão simples quanto eu pensava.

Comecei com a decisão de ser vegana por três semanas, que acabaram virando quatro semanas, que acabaram virando dois meses. Foi relativamente tranquilo, mas eu ainda tinha a sensação de que estava me dedicando a cumprir um objetivo, e não que aquilo duraria para sempre. Talvez por isso, os meses seguintes envolveram uma série de idas e vindas carregadas de surtos de decisão, fracassos, culpa e novas tentativas. Parecia que a cada vez que eu comia uma coisa “errada” era como se tivesse voltado ao começo. Eu não era vegana, tinha zerado o contador e precisava recomeçar tudo. Sabe alcóolicos anônimos, que você vai contando há quantos dias está sóbrio? Eu me sentia frequentemente voltando ao dia 1.

Honestamente, foi difícil pra caramba!

No meio disso tudo passei a desenvolver uma relação não muito saudável com a comida. O ato de me alimentar deixou de ser intuitivo e passou a ser carregado de milhares de emoções e conflitos. Minha refeição seguinte era algo que gerava ansiedade, e a proibição de certos alimentos começou a ser um gatilho para momentos de perda de controle em que eu comia escondido um monte de coisas que não “podia”. Não queria admitir pra ninguém que eu era uma fraude, especialmente porque eu acreditava (acredito) no veganismo como um estilo de vida que todos deveriam tentar. Acredito nisso de verdade. Mas descobri que entre acreditar e conseguir fazer disso uma prática permanente havia uma distância considerável. Uma distância que eu não estava conseguindo atravessar sem ameaçar minha saúde mental.

Em pouco mais de um ano desde a decisão de me tornar vegana, não sei se posso dizer que fui vegana de verdade. Fui às vezes. E, afinal, o que significa ser vegano? É se sensibilizar com a questão e trazer uma reflexão para o prato e para a vida? É rever escolhas? Ou é o purismo de não tocar em nada que tenha origem animal? Alguns veganos, por exemplo, não comem alimentos com “traços de leite”. Outros consideram que é OK, já que “traço” não significa que leite é um ingrediente, apenas que pode haver ali uma micro partícula que sujou a máquina onde o produto foi processado. A própria definição de veganismo não é totalmente excludente. Na definição da Vegan Society:

“O vegano busca excluir, na medida do possível e do praticável, todas as formas de exploração e de crueldade contra animais.”

O que é a medida do possível e do praticável? Quem define esse limite?

Não sei se posso me considerar vegana, mas também não acho que sou a mesma onívora de antes. Alguma coisa mudou em mim. A questão é que não dá para esquecer tudo que você descobriu sobre a origem dos seus alimentos. Não dá para desaprender e se deseducar uma vez que você buscou saber mais sobre o assunto. Você nunca olha para um bife da mesma forma. Mas também é difícil saber para onde ir quando a sua nova dieta se torna um tormento, uma crise nervosa ou um transtorno alimentar. Não dá para seguir em frente e nem para voltar atrás. Então você fica parado no meio da estrada. E deixa eu te dizer, essa encruzilhada pode ser um local bastante deserto.

No meio do caminho

Sinto que a internet tornou-se um meio poderosíssimo para a propagação de informações. Eu mesma talvez não tivesse tido contato com o veganismo se não fosse através dela. Mas também se tornou um lugar cheio de julgamentos e cobranças. Nos fóruns que sigo no Facebook, ou nos canais do Youtube dedicados ao tema, encontro muita receita e muita gente feliz e tranquila seguindo esse estilo de vida. Aparentemente, é um mundo lindo e pleno. Mas também pode ser um mundo cruel. Já vi muita gente criticando quem deu um passo atrás, quem desistiu do veganismo de vez ou mesmo quem não se “converteu” ainda. Muita gritaria e dedo apontado pra pouco espaço de apoio e discussão sincera. Muita certeza pra pouca dúvida.

Há também uma criação de expectativas irreais. Quantas vezes já não ouvi esse discurso dizendo que a vida da pessoa se transformou completamente depois de uma semana sendo vegana? De repente todos os problemas de saúde sumiram, ela emagreceu, não sente nenhum cansaço e está feliz o tempo todo. Também começou a fazer cocô cheiroso e cor-de-rosa com glitter. Uau! Deve ter alguma coisa errada comigo então. Sinto informar que não me sinto renascida, mas me sinto um pouco melhor. Quando passo várias semanas sem comer queijo, por exemplo, minhas alergias respiratórias melhoram. Acabo comendo coisas mais saudáveis, e por isso não me sinto pesada depois das refeições. Mas quando tenho uma alimentação totalmente vegana também sinto mais fome, e preciso comer toda hora. Pode ser meio chato e envolve uma certa logística quando você passa o dia na rua. Nem sempre você encontra boas opções. Nem sempre tem tempo de cozinhar. Pode ser um pé no saco.

Não acho que falar sobre os pontos negativos signifique desencorajar as pessoas. Pelo contrário, torna a conversa mais real. Torna tudo mais possível. Sinto falta disso. Cadê a galera que escorrega, que está achando difícil, que não sabe direito o que fazer, mas que ainda quer continuar tentando? Não é tão simples ser vegano. O que não quer dizer que seja tão complicado. É simplesmente como qualquer outra coisa na vida! Duh.

E agora, para onde vamos?

A má notícia é que eu não tenho uma solução para nada disso. Não sou vegana o tempo todo, mas também não consigo voltar a ser como eu era antes de começar essa jornada maluca. Estou aos poucos descobrindo um caminho que envolva compaixão pelos animais, mas também por mim mesma, respeitando os limites do meu corpo e da minha mente. Tentando fazer o melhor que eu puder, no meu tempo. É difícil às vezes, mas também pode ser maravilhoso.

Convido quem tiver dedicado um tempo a ler esse texto até aqui que tente fazer o mesmo. Se dar uma chance de repensar alguns hábitos. Um pequeno passo, do tamanho que for possível nesse momento. E ver o que acontece a partir daí. Afinal, não tem ninguém perfeito aqui.